terça-feira, 28 de julho de 2026

Vidas Improváveis - I. Luís, o Involuntário

 


(Primeiro de uma série de retratos apócrifos, à maneira de Woody Allen, em que a verdade é apenas um dos ingredientes e nunca o principal.)

 

Consta que Luís Montenegro nunca quis o poder. O poder é que quis Luís Montenegro, e perseguiu-o com a obstinação de um credor. Diz a lenda — e as lendas, nestes casos, são mais fiáveis do que os factos — que, não tivesse António Costa saído de cena e, em junho de 2024, na noite da provável derrota nas europeias, o líder do PSD teria já a mala feita para uma reforma antecipada numa casa de campo em Espinho, onde tencionava dedicar-se à jardinagem e à leitura dos clássicos que nunca abrira.

Tinha comprado galochas, encomendado uma sebe. Mas foi então que o poder, esse hóspede indesejado, bateu-lhe à porta. E Luís, que é homem de boas maneiras, não teve coragem de o mandar embora.

Instalou-se em São Bento com a expressão de quem entrou no comboio errado e decide, por delicadeza, seguir viagem até ao fim da linha.

Os primeiros dias foram de perplexidade administrativa. Reuniu o Conselho de Ministros e perguntou, com genuína curiosidade, o que é que se costumava fazer ali. Alguém sugeriu governar.

Luís achou a ideia interessante mas pouco prática, e propôs em alternativa que se anunciassem coisas — o que, convenhamos, dá muito menos trabalho e rende fotografias igualmente satisfatórias.

Assim nasceu o método. Onde os governos anteriores tinham políticas, o de Luís tinha pacotes. Onde faltavam soluções, sobravam apresentações em PowerPoint com títulos ascendentes.

O programa chamava-se "Fazer Portugal Maior", ambição geográfica que os cartógrafos receberam com alarme, temendo obras de aterro no Atlântico ou negociações tensas com a Espanha pela devolução de Olivença embrulhada em papel de presente.

Perguntado por um jornalista sobre qual a sua ideia para o país, Luís sorriu longamente, como quem saboreia uma pergunta profunda, e respondeu que estava a trabalhar nisso. Trabalhava, de facto, afincadamente numa única tarefa, a que dedicava todas as horas e talentos: conservar o lugar que nunca pedira. Havia nisto uma ironia que só os gregos antigos saberiam apreciar — o homem que fugia do poder tornara-se prisioneiro dele, condenado a defendê-lo justamente por não saber o que fazer com ele.

Reelegeram-no líder do partido com 94,8 por cento dos votos, o que é uma maioria soviética conquistada por ausência de adversários, forma de unanimidade que se obtém deixando a sala vazia e contando os ecos. Luís interpretou o resultado como amor. Era apenas falta de alternativa, que à distância se confunde.

Dizem os que o conhecem que, nas noites de insónia, Luís ainda pensa nas galochas. Na sebe que não plantou. Na reforma que o poder lhe roubou ao bater-lhe à porta. E que, se um dia o eleitorado tiver a bondade de o libertar, ele partirá para Espinho sem olhar para trás, aliviado como quem devolve um chapéu que nunca lhe assentou bem na cabeça.

Até lá, trabalha. Trabalha, trabalha e trabalha — como prometeu. Só ninguém teve ainda a coragem de lhe perguntar em quê.

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