(Primeiro
de uma série de retratos apócrifos, à maneira de Woody Allen, em que a verdade
é apenas um dos ingredientes e nunca o principal.)
Consta
que Luís Montenegro nunca quis o poder. O poder é que quis Luís Montenegro, e
perseguiu-o com a obstinação de um credor. Diz a lenda — e as lendas, nestes
casos, são mais fiáveis do que os factos — que, não tivesse António Costa saído
de cena e, em junho de 2024, na noite da provável derrota nas europeias, o
líder do PSD teria já a mala feita para uma reforma antecipada numa casa de
campo em Espinho, onde tencionava dedicar-se à jardinagem e à leitura dos
clássicos que nunca abrira.
Tinha
comprado galochas, encomendado uma sebe. Mas foi então que o poder, esse
hóspede indesejado, bateu-lhe à porta. E Luís, que é homem de boas maneiras,
não teve coragem de o mandar embora.
Instalou-se
em São Bento com a expressão de quem entrou no comboio errado e decide, por
delicadeza, seguir viagem até ao fim da linha.
Os
primeiros dias foram de perplexidade administrativa. Reuniu o Conselho de
Ministros e perguntou, com genuína curiosidade, o que é que se costumava fazer
ali. Alguém sugeriu governar.
Luís
achou a ideia interessante mas pouco prática, e propôs em alternativa que se
anunciassem coisas — o que, convenhamos, dá muito menos trabalho e rende
fotografias igualmente satisfatórias.
Assim
nasceu o método. Onde os governos anteriores tinham políticas, o de Luís tinha
pacotes. Onde faltavam soluções, sobravam apresentações em PowerPoint com
títulos ascendentes.
O
programa chamava-se "Fazer Portugal Maior", ambição geográfica que os
cartógrafos receberam com alarme, temendo obras de aterro no Atlântico ou
negociações tensas com a Espanha pela devolução de Olivença embrulhada em papel
de presente.
Perguntado
por um jornalista sobre qual a sua ideia para o país, Luís sorriu longamente,
como quem saboreia uma pergunta profunda, e respondeu que estava a trabalhar
nisso. Trabalhava, de facto, afincadamente numa única tarefa, a que dedicava
todas as horas e talentos: conservar o lugar que nunca pedira. Havia nisto uma
ironia que só os gregos antigos saberiam apreciar — o homem que fugia do poder
tornara-se prisioneiro dele, condenado a defendê-lo justamente por não saber o
que fazer com ele.
Reelegeram-no
líder do partido com 94,8 por cento dos votos, o que é uma maioria soviética
conquistada por ausência de adversários, forma de unanimidade que se obtém
deixando a sala vazia e contando os ecos. Luís interpretou o resultado como
amor. Era apenas falta de alternativa, que à distância se confunde.
Dizem os
que o conhecem que, nas noites de insónia, Luís ainda pensa nas galochas. Na
sebe que não plantou. Na reforma que o poder lhe roubou ao bater-lhe à porta. E
que, se um dia o eleitorado tiver a bondade de o libertar, ele partirá para
Espinho sem olhar para trás, aliviado como quem devolve um chapéu que nunca lhe
assentou bem na cabeça.
Até lá, trabalha. Trabalha, trabalha e trabalha — como prometeu. Só ninguém teve ainda a coragem de lhe perguntar em quê.

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