A
Assembleia Nacional francesa aprovou, por 291 votos contra 241, a lei da morte
assistida. Não é ainda definitiva — o primeiro-ministro Lecornu remeteu-a ao
Conselho Constitucional, que pode impor reservas —, mas o passo está dado. A
França junta-se ao grupo restrito de países onde a decisão sobre o fim da
própria vida deixa de ser monopólio do acaso, da doença ou da lei alheia.
A
legislação não vai tão longe quanto a belga ou a suíça. Restringe-se a adultos
com doença incurável, em fase terminal avançada, sob sofrimento constante, com
pareceres médicos sucessivos e prazos de reflexão.
Ninguém
morre por impulso nem por capricho. Morre quem escolhe não prolongar uma agonia
que a medicina já não alivia — e essa escolha, finalmente, passa a
pertencer-lhe.
É
precisamente esta transferência de propriedade que enfurece o fanatismo
próvida. Porque a questão nunca foi a vida — foi quem manda nela. Os que se
opõem à eutanásia não se cingem a decidir sobre o próprio corpo: querem decidir
sobre o dos outros. Aceitam para si o sofrimento que a fé lhes prescreve, o que
é direito seu, mas exigem que o vizinho ateu, o agnóstico, o crente de outra metafísica
padeçam segundo o mesmo dogma. A liberdade religiosa deles termina onde começa
o corpo alheio — e é aí, exatamente aí, que a querem prolongar.
A Igreja
Católica francesa não tardou a falar em "rutura grave na história do
país" e a prever que a relação com a vulnerabilidade e a velhice mudará.
Mudará,
de facto, no sentido de devolver ao doente terminal o que a Igreja lhe negava:
a última decisão sobre a última coisa que lhe resta. Curioso que uma
instituição com dois milénios de fogueiras, cruzadas e silêncios sobre abusos
se preocupe tanto com a dignidade do sofrimento quando é o dos outros.
O corpo
de cada um é o território mais íntimo que existe. Legislar para que ninguém
seja obrigado a sofrer contra a própria vontade não é banalizar a vida — é
levar a sério a liberdade.
A França
deu ontem esse passo.
Portugal,
onde o Tribunal Constitucional continua a devolver o diploma aos deputados,
ainda o discute. Mais tarde ou mais cedo, a autonomia vencerá — porque a
dignidade, ao contrário do dogma, não precisa de impor nada a ninguém.
Basta-lhe deixar cada um decidir sobre o que só a si diz respeito.

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