quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Marketing e a Fancaria

 


Contratar uma conhecida empresa de marketing político parecia predispor o Governo ao sucesso de imagem capaz de iludir o fracasso das políticas. Acumulam-se, porém, as evidências do contrário: os publicitários exageram, e nenhum selo de qualidade cola em produto de fancaria.

Recorde-se o vídeo de Leitão Amaro no meio do comboio de tempestades, promocional até ao ridículo enquanto o país se alagava. Não foi acidente. Foi método que continua.

Este fim de semana deu dois episódios exemplares. Primeiro, a conferência de imprensa de Sebastião Bugalho, substituindo-se ao ministro na tentativa pífia de manter do lado do Governo os professores conquistados à custa da luta de Mário Nogueira — o idiota útil de uma batalha que nada aproveitou ao PCP. O que lhes oferecem agora, em vez do tempo de serviço, são horas extraordinárias indefinidas e mal explicadas. Mercenarizar quem exigia dignidade: é a resposta de quem confunde professores com fornecedores.

Segundo, e sobretudo, a intervenção de Montenegro sobre o caos nos exames, dada à meia-noite, em flash interview, no NOS Alive. Nas costas do primeiro-ministro, bem visível, o painel publicitário da Solverde. Recorde-se, para quem tenha memória curta: a Solverde foi um dos principais clientes da Spinumviva, a empresa familiar cujos rendimentos Montenegro nunca conseguiu explicar de forma convincente. Cento e sessenta mil alunos à espera de notas que o ministério não consegue produzir, e o chefe do Governo a comentar o assunto emoldurado pela marca que lhe pagava a empresa.

Nem o mais imaginativo dos guionistas ousaria tanto. A imagem diz tudo o que a assessoria queria esconder: um primeiro-ministro encontrado pela comunicação social apenas em jogos de futebol e em festivais, como notou o PS, enquanto o país arde, Almada fica sem água e os exames se afundam. E, para completar o quadro, com o financiador nas costas.

Há um limite para o que o marketing político consegue. Pode maquilhar a mediocridade, adiar o julgamento, distrair por uns meses. Não pode transformar o desastre em êxito nem a ausência em liderança. Quando o produto é de fancaria, a embalagem sofisticada apenas torna a fraude mais evidente.

O selo de qualidade não cola. E a Solverde, essa, ao menos avisa: jogue com responsabilidade.

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