Contratar
uma conhecida empresa de marketing político parecia predispor o Governo ao
sucesso de imagem capaz de iludir o fracasso das políticas. Acumulam-se, porém,
as evidências do contrário: os publicitários exageram, e nenhum selo de
qualidade cola em produto de fancaria.
Recorde-se
o vídeo de Leitão Amaro no meio do comboio de tempestades, promocional até ao
ridículo enquanto o país se alagava. Não foi acidente. Foi método que continua.
Este fim
de semana deu dois episódios exemplares. Primeiro, a conferência de imprensa de
Sebastião Bugalho, substituindo-se ao ministro na tentativa pífia de manter do
lado do Governo os professores conquistados à custa da luta de Mário Nogueira —
o idiota útil de uma batalha que nada aproveitou ao PCP. O que lhes oferecem
agora, em vez do tempo de serviço, são horas extraordinárias indefinidas e mal
explicadas. Mercenarizar quem exigia dignidade: é a resposta de quem confunde
professores com fornecedores.
Segundo,
e sobretudo, a intervenção de Montenegro sobre o caos nos exames, dada à
meia-noite, em flash interview, no NOS Alive. Nas costas do
primeiro-ministro, bem visível, o painel publicitário da Solverde. Recorde-se,
para quem tenha memória curta: a Solverde foi um dos principais clientes da
Spinumviva, a empresa familiar cujos rendimentos Montenegro nunca conseguiu
explicar de forma convincente. Cento e sessenta mil alunos à espera de notas
que o ministério não consegue produzir, e o chefe do Governo a comentar o
assunto emoldurado pela marca que lhe pagava a empresa.
Nem o
mais imaginativo dos guionistas ousaria tanto. A imagem diz tudo o que a
assessoria queria esconder: um primeiro-ministro encontrado pela comunicação
social apenas em jogos de futebol e em festivais, como notou o PS, enquanto o
país arde, Almada fica sem água e os exames se afundam. E, para completar o
quadro, com o financiador nas costas.
Há um
limite para o que o marketing político consegue. Pode maquilhar a mediocridade,
adiar o julgamento, distrair por uns meses. Não pode transformar o desastre em
êxito nem a ausência em liderança. Quando o produto é de fancaria, a embalagem
sofisticada apenas torna a fraude mais evidente.
O selo de
qualidade não cola. E a Solverde, essa, ao menos avisa: jogue com
responsabilidade.

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