Há dias
em que as notícias se organizam sozinhas. Basta olhar para os figurões que as
protagonizam e o retrato compõe-se.
Comecemos
por Ancara, onde Donald Trump foi à cimeira da NATO fazer o que faz melhor:
destratar os aliados. Declarou-se "muito dececionado", ameaçou
retirar as tropas americanas da Europa, anunciou que o cessar-fogo com o Irão
está "acabado" e chamou "escumalha" aos negociadores
iranianos. Pelo meio, reafirmou a velha ambição imperial de anexar a
Gronelândia, porque a Dinamarca, coitada, não a sabe aproveitar. É o estilo:
chega-se a uma aliança militar e trata-se dos aliados como inquilinos em atraso
com a renda. A Gronelândia, entretanto, respondeu pela boca da
primeira-ministra dinamarquesa que não está à venda — mas Trump nunca deixou
que um "não" lhe estragasse uma fantasia.
E aqui
entra o segundo figurão, este da nossa lavra. No mesmo corredor de Ancara, Luís
Montenegro foi questionado sobre se Trump tinha rancor à NATO. Respondeu que
não, que "não me parece que haja razão para dizer isso" —
precisamente no dia em que o homem ameaçava anexar território de um
Estado-membro e retirar as tropas do continente. É preciso um talento especial
para a cegueira diplomática assim tão bem calibrada. Montenegro viu Trump
destratar a aliança e concluiu que estava tudo bem. Deve ser o mesmo par de
olhos com que vê a educação e os incêndios cá em casa.
Terceiro:
Nigel Farage, o eterno favorito a primeiro-ministro britânico, subitamente
emudecido. Suspendeu as conferências de imprensa semanais de que tanto gosta
desde que rebentou o caso dos milhões que recebeu de um bilionário das
criptomoedas sediado na Tailândia e que se esqueceu de declarar. Cinco milhões
de libras que eram, garante, um "presente pessoal" para a sua
segurança. Agora vitimiza-se, ameaça processar jornais e considera-se
perseguido. O populista que prometia limpar o sistema descobre que o sistema
tem regras — e que elas, contrariamente ao que julgava, também se aplicam a
ele.
Quarto:
Marine Le Pen, condenada por desvio de fundos do Parlamento Europeu, a fazer
contas à própria coerência. Prometera que, se chegasse às eleições de pulseira
eletrónica, não se candidataria. Agora desdiz-se. A dignidade era condicional e
a condição revelou-se inconveniente. É o padrão da extrema-direita europeia:
intransigente com a corrupção alheia, flexível com a própria.
Quinto e
último: Fernando Alexandre, ministro da Educação e da Ciência, que continua
inexplicavelmente no lugar depois do caos nos exames nacionais que tutela.
Convocatórias a professores mortos, plataformas inacessíveis, notas adiadas,
negações sucessivas seguidas do inevitável recuo. Noutro país teria pedido a
demissão. Neste, mantém-se, talvez à espera de que o esquecimento faça o
trabalho que a vergonha recusa.
Cinco
figurões, um só dia. Cada um à sua maneira, todos com o mesmo traço comum: a
certeza inabalável de que as regras, a coerência e a vergonha são coisas para
os outros.

Sem comentários:
Enviar um comentário