Em junho
de 2026, Portugal parou. Duas greves gerais, milhares de trabalhadores nas
ruas, e uma lei laboral que facilitava despedimentos atirada para o caixote do
lixo parlamentar.
Não foi
um discurso que a derrotou, nem um argumento bem construído, sequer uma tese
sobre a dignidade do trabalho. Foi a paragem concreta de um país concreto,
gente que deixou de produzir para fazer ouvir o que tinha a dizer. A lei caiu
porque contra ela mostrou-se força, não porque a razão se explicou.
A
fortaleza emocional onde o populismo prende os seus não se conquista pela porta
da razão, trancada por dentro. Conquista-se por outra via: a da presença, a da
solidariedade vivida, a da luta que produz resultados visíveis na vida de quem
luta.
A
esquerda perdeu o território profundo quando deixou de o habitar, ao trocar o
sindicato pela tertúlia, a coletividade pela conferência, a presença quotidiana
pela visita de véspera eleitoral.
Reconquistá-lo
não se faz com campanhas de esclarecimento — nunca ninguém foi esclarecido para
fora de um preconceito por quem lho aponta com o dedo. Faz-se estando. Na
aldeia que perdeu a escola, no bairro que perdeu o centro de saúde, na fábrica prestes
a fechar. Estando nos anos intermédios, os anos sem eleições, quando ninguém
filma e ninguém conta votos.
Porque a
mentira reconfortante do populismo tem uma fraqueza decisiva: não cumpre.
Promete e não entrega, nomeia culpados e não resolve nada, e a vida de quem
nela acreditou continua a piorar.
Esse
desengano é a abertura, que não basta — pode atirar para a abstenção, para o
cinismo, para uma radicalização ainda maior.
Precisa
de encontrar do outro lado alguém que estava lá antes, durante e depois. Alguém
que, quando a fábrica fechou, não explicou a globalização — ajudou a ocupar a
fábrica.
A greve
geral mostrou que isto é possível. As pessoas reconhecem quem está do seu lado
quando o veem a lutar a seu lado, não quando o ouvem a teorizar à distância.
Tiago Oliveira emocionado nas galerias do parlamento valeu mais, para a
reconquista de um eleitorado, do que mil ensaios sobre o desvio populista.
Não há,
então, deploráveis. Há pessoas abandonadas que votaram em quem ao menos fingiu
reparar nelas. A esquerda não precisa de as convencer de que erraram. Precisa
de deixar de as desprezar e voltar a merecer-lhes o voto — com obras, com
presença, com luta.
O espelho
que Clinton não quis olhar mostra, afinal, uma verdade simples: quem quer mudar
o voto dos outros começa por mudar o olhar com que os vê.

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