quinta-feira, 2 de julho de 2026

Os Deploráveis e o Espelho III. A Mentira Reconfortante

 

Em junho de 2016, um autocarro vermelho percorreu a Inglaterra com uma promessa pintada na lateral: sair da União Europeia libertaria 350 milhões de libras por semana para o Serviço Nacional de Saúde. Era falso, e Nigel Farage admitiu que era falso na manhã seguinte ao referendo, quando o estrago já estava feito e o Brexit ganho. A mentira cumprira a sua função. Não precisava de ser verdadeira — precisava apenas de chegar primeiro.

É este o mecanismo. O populismo não oferece soluções, oferece culpados, e o culpado tem sempre a mesma vantagem sobre a solução: é mais simples, mais rápido e mais reconfortante. A solução exige compreender cadeias causais complexas — porque fechou a fábrica, porque subiu a renda, porque falta médico de família. O culpado dispensa tudo isso.

A fábrica fechou por causa do imigrante. A renda subiu por causa do estrangeiro. O médico falta porque o atendem a eles primeiro. Mentira, mentira, mentira — mas mentira que cabe numa frase e não obriga ninguém a pensar contra os próprios preconceitos.

Em Portugal vimos o ensaio na Figueira da Foz, onde a extrema-direita internacional reuniu para falar de "remigração" — a palavra asséptica que embrulha a deportação em massa. O imigrante que constrói as casas, que colhe a fruta, que cuida dos velhos nos lares, esse mesmo imigrante é apresentado como a causa de todos os males de quem precisa dele para viver. E quando os imigrantes começam de facto a partir, expulsos pelos preços e pela hostilidade, os empresários que financiaram o discurso descobrem que não têm quem lhes faça o trabalho. A mentira volta-se contra quem a contou — mas demora, e entretanto rende votos.

O mais notável é a resistência da mentira à evidência. Trump governa há anos e os seus eleitores continuam mais pobres, com a indústria que não voltou, com os campos sem braços depois das deportações, com uma guerra perdida no Estreito de Ormuz. E ainda assim muitos persistem. Porque admitir o erro custa demasiado: implica reconhecer que se foi enganado, que o desprezo dos doutores afinal tinha um fundo de razão, e isso o orgulho não permite. Mais fácil é dobrar a aposta e culpar, outra vez, quem sempre se culpou.

É aqui que a mentira se torna prisão. Não a prisão de quem não sabe — a de quem sabe e não pode dar o braço a torcer sem sentir-se humilhado. O populismo construiu uma fortaleza emocional onde a realidade bate e não entra.

Como se sai de uma fortaleza assim? Não pela porta da razão, que está trancada por dentro. Por outra via, mais lenta e mais concreta, que a última crónica tentará nomear.

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