sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Naufrágio das Certezas

 


Há temas que regressam como marés, não porque tragam novidade, mas porque a repetição confere-lhes uma espécie de fascínio cansado, e talvez seja isso que me acontece com os filmes e documentários sobre o Titanic, que surgem ciclicamente nos canais como se o naufrágio precisasse de ser reencenado para continuar vivo na imaginação coletiva, embora quase nunca acrescentem algo que justifique o tempo investido a vê‑los.

Foi o que sucedeu com Titanic, chronique d’un naufrage, quatro horas de reconstrução minuciosa baseada em cartas e testemunhos dos sobreviventes, aqui interpretados por atores que emprestam voz ao espanto, ao medo, ao heroísmo de uns e à cobardia de outros, mas sobretudo ao atordoamento da maioria, que mergulhou nas profundezas do Atlântico sem compreender como o navio insubmersível se rendia tão facilmente ao impacto do iceberg.

A narrativa insiste nos 160 minutos entre o embate e o desaparecimento do casco, como se esse intervalo contivesse toda a verdade do desastre, a perplexidade humana, esse instante em que a confiança absoluta na máquina se desfaz e deixa os passageiros suspensos entre a incredulidade e a urgência de sobreviver, incapazes de aceitar que o impossível se tornou real.

Talvez seja por isso que estes documentários continuam a proliferar: não para revelar o que ainda não sabemos, mas para repetir o que não conseguimos esquecer sobre a fragilidade das certezas e a rapidez com que a segurança se transforma em ficção, lembrando que a modernidade, tão orgulhosa da sua engenharia, nunca deixou de depender da sorte, da atenção, da humildade perante o que não controla.

Termino com a sensação de que o Titanic não naufraga apenas no Atlântico, naufraga também na necessidade de acreditar que o mundo é previsível, e cada nova versão da história tenta, sem sucesso, recuperar essa confiança perdida.

Sem comentários:

Enviar um comentário