O
Parlamento aprovou a 17 de julho a chamada lei da burca, proibindo a ocultação
do rosto em espaços públicos. O texto foge cuidadosamente à palavra
"religião" e fala em segurança e identificação — mas ninguém se
engana quanto ao alvo. O próprio Ventura tratou de o esclarecer no dia da
votação, com a subtileza que lhe é característica: quem odeia a nossa cultura
pode regressar ao seu país. A cortina de fumo caiu no primeiro tuite.
A
iniciativa partiu do Chega e recolheu os votos de PSD, CDS e Iniciativa
Liberal. Está aqui o retrato de como as direitas caíram no regaço de André
Ventura e tudo fazem para lhe engordar as ambições autocráticas. O que começou
como bravata xenófoba — recorde-se Rita Matias a não querer ver mulheres de véu
em Sintra — tornou-se lei aprovada pela coligação de governo. A extrema-direita
fixa a agenda, as direitas ditas moderadas seguem-na, e o país acorda com uma
lei feita à medida dos preconceitos de um homem.
Falta
ainda a promulgação de um Presidente sensível ao argumento da liberdade
religiosa, e provavelmente o crivo do Tribunal Constitucional, que terá de
aferir a difícil compatibilidade desta arruaça com uma lei fundamental avessa a
discriminações. A Ordem dos Advogados, a Associação Portuguesa das Mulheres
Juristas e o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público já a consideraram
inconstitucional. Não é opinião de esquerda — é parecer de quem conhece a
Constituição.
O mais
revelador é a hipocrisia do argumento. Dizem querer emancipar as mulheres
muçulmanas, libertá-las de uma imposição patriarcal. Mas as visadas não foram
ouvidas — ninguém lhes perguntou nada. E a própria Amnistia Internacional
alerta para o efeito contrário: uma lei destas não emancipa ninguém, apenas
empurra as mulheres que usam o véu para um confinamento ainda maior, prende-as
ao espaço privado, corta-lhes o acesso à rua, ao trabalho, à escola.
Emancipação que resulta em clausura é o seu oposto. É castigo travestido de
libertação.
A verdade
é que estes súbitos defensores dos direitos das mulheres muçulmanas estão-se
soberanamente nas tintas para elas. Nunca moveram um dedo pela sua integração, emprego,
autonomia real. Empunham-nas apenas como escudos — corpos alheios erguidos na
frente de uma guerra que é outra: a xenófoba que tanto os entusiasma, o combate
contra o imigrante, o muçulmano, o diferente. A mulher de véu não é, para eles,
uma pessoa a proteger. É um pretexto a explorar.
Quem quisesse emancipar estas mulheres começaria por lhes perguntar o que querem. Quem apenas as quer usar contra o Islão dispensa a pergunta e legisla por cima delas. A diferença entre uma coisa e outra chama-se respeito — e é precisamente o que falta a quem transformou a liberdade das mulheres em arma da sua cruzada.

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