sexta-feira, 31 de julho de 2026

Vidas Improváveis - III. Sérgio, Cassandra do Rato

 


(Terceiro de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que as personagens são reais e apenas os factos foram postos de férias.)

Há homens que nascem para ter razão, e é a maior desgraça que lhes pode acontecer. Sérgio Sousa Pinto é um deles. Diz a mitologia socialista que veio ao mundo já a discordar — do obstetra, do método, do rumo geral do parto — e que as suas primeiras palavras não foram "mamã" nem "papá", mas "convém não confundir".

Fez carreira no Partido Socialista como quem cumpre uma pena de fidelidade a uma casa que teima em não lhe dar ouvidos. E, no entanto, tinha razão. Tinha-a sempre, com a pontualidade de um relógio de estação e a solidão de um farol. Avisou. Alertou. Preveniu. Recuou aos clássicos, citou Tucídides ao pequeno-almoço, invocou a Constituição de 76 como quem invoca os antepassados, e o partido, invariavelmente, agradecia com um sorriso e fazia o contrário.

Em 2015 demitiu-se da direção por discordar da Geringonça. Tinha, aos seus olhos, razão. O partido governou quatro anos e achou que não. Esta discrepância entre a razão de Sérgio e os resultados do mundo tornou-se o drama central da sua existência — uma tragédia grega encenada no Largo do Rato, com coro de militantes distraídos e um protagonista condenado a acertar sozinho.

O momento sublime chegou em maio de 2025, quando, perante o desastre eleitoral que anunciara, Sérgio proferiu a frase que merece figurar nas antologias da melancolia lusitana: "Nunca me passou pela cabeça que ter razão fosse um desastre desta ordem." Nela cabe o homem inteiro. Nenhum dramaturgo ousaria tanto. Cassandra, ao menos, tinha a decência de ser ignorada por deuses; Sérgio é ignorado por congressos, o que é bem mais humilhante.

A sua oratória é um caso à parte. Sérgio não fala: discursa. Não conversa: perora. Pedir-lhe um favor é receber em troca uma oração de Cícero com introdução, desenvolvimento e peroração, ao fim da qual já não nos lembramos do favor mas saímos convencidos da decadência do Ocidente. Dizem os que com ele almoçaram que encomendar a sobremesa pode consumir quarenta minutos e uma citação de Camões, e que o café chega sempre frio, arrefecido pela extensão do parágrafo anterior.

O drama de Sérgio, o verdadeiro, é este: ter nascido eloquente num tempo de slogans, profundo num tempo de tweets, clássico num tempo de Chega. É um homem do século XIX condenado a comentar o século XXI, e a fazê-lo com um vocabulário que os seus interlocutores precisam de traduzir. Quando alerta para o fascismo recuando cem anos, os adversários perguntam-lhe, com maldade, se não conseguiria recuar apenas vinte para explicar os erros do próprio partido. Sérgio olha-os com a tristeza de quem sabe que tinha razão também nisso, mas que ninguém irá reconhecê-lo antes de ser demasiado tarde.

Dizem que, à noite, Sérgio Sousa Pinto relê os próprios discursos e comove-se. É o único público garantido de que dispõe — e, convenhamos, o mais bem preparado para o apreciar.

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