quarta-feira, 22 de julho de 2026

Mortágua e os Figurões de Silicon Valley

 


Mariana Mortágua deixou a liderança do Bloco de Esquerda por decisão própria, invocando resultados eleitorais que não a favoreceram. Mas há uma outra saída, essa involuntária, que convém não confundir com a primeira: a defenestração operada pela imprensa e pelas redes, o assassínio de carácter movido por uma multidão de medíocres que a detestam por ser mulher, inteligente e por ter opções afetivas que não seguem a cartilha mais fundamentalista da Bíblia.

O ódio recrudesceu quando ela integrou uma das flotilhas de apoio a Gaza — gesto de coragem internacionalista que os cães de guarda do costume trataram como provocação a abater.

É o padrão conhecido. Uma mulher de esquerda, competente e sem medo, atrai contra si uma fúria que nenhum homem nas mesmas funções alguma vez atraiu. Não se lhe combatem as ideias — ataca-se-lhe o corpo, a vida privada, a ousadia de existir fora do molde. E quando ela sai, os mesmos que a lincharam celebram como se tivessem vencido um debate que nunca tiveram coragem de travar.

Pois esses críticos — e sobretudo os que os seguem sem pensar — teriam muito a aprender se abrissem os ouvidos ao trabalho que Mortágua faz agora. O Público anda a emitir uma série de oito episódios sobre os figurões de Silicon Valley: Elon Musk, Peter Thiel, Mark Zuckerberg e os restantes senhores do vale do silício que financiam, constroem e controlam as tecnologias de que as extremas-direitas se servem para envenenar o debate público.

Não são excêntricos inofensivos. São um dos perigos mais sérios para o futuro coletivo — homens que concentram nas mãos a infraestrutura da informação mundial e a orientam, por convicção ou por interesse, ao serviço da reação.

É aqui que uma voz como a de Mortágua se revela imprescindível. Economista de formação, sabe ler o que se esconde por trás das fortunas destes homens: a captura do Estado, a evasão fiscal industrializada, a transformação da democracia em mercado e do cidadão em produto. Onde o comentário dominante vê génios disruptivos, ela vê a velha acumulação de capital vestida de futuro — e nomeia-a.

De entre os podcasts hoje disponíveis, o dela é dos mais necessários. Não porque venha de quem foi injustamente linchada, mas porque o diz com rigor. Quem a defenestrou na praça pública fê-lo, precisamente, para não ter de a ouvir. E quem não a quer ouvir costuma ser quem mais precisaria de o fazer.

O linchamento mediático silencia vozes. Mas há vozes que, silenciadas num sítio, reaparecem noutro com mais força. A de Mariana Mortágua é uma delas.

Sem comentários:

Enviar um comentário