Mariana
Mortágua deixou a liderança do Bloco de Esquerda por decisão própria, invocando
resultados eleitorais que não a favoreceram. Mas há uma outra saída, essa
involuntária, que convém não confundir com a primeira: a defenestração operada
pela imprensa e pelas redes, o assassínio de carácter movido por uma multidão
de medíocres que a detestam por ser mulher, inteligente e por ter opções
afetivas que não seguem a cartilha mais fundamentalista da Bíblia.
O ódio
recrudesceu quando ela integrou uma das flotilhas de apoio a Gaza — gesto de
coragem internacionalista que os cães de guarda do costume trataram como
provocação a abater.
É o
padrão conhecido. Uma mulher de esquerda, competente e sem medo, atrai contra
si uma fúria que nenhum homem nas mesmas funções alguma vez atraiu. Não se lhe
combatem as ideias — ataca-se-lhe o corpo, a vida privada, a ousadia de existir
fora do molde. E quando ela sai, os mesmos que a lincharam celebram como se
tivessem vencido um debate que nunca tiveram coragem de travar.
Pois
esses críticos — e sobretudo os que os seguem sem pensar — teriam muito a
aprender se abrissem os ouvidos ao trabalho que Mortágua faz agora. O Público
anda a emitir uma série de oito episódios sobre os figurões de Silicon Valley:
Elon Musk, Peter Thiel, Mark Zuckerberg e os restantes senhores do vale do
silício que financiam, constroem e controlam as tecnologias de que as
extremas-direitas se servem para envenenar o debate público.
Não são
excêntricos inofensivos. São um dos perigos mais sérios para o futuro coletivo
— homens que concentram nas mãos a infraestrutura da informação mundial e a
orientam, por convicção ou por interesse, ao serviço da reação.
É aqui
que uma voz como a de Mortágua se revela imprescindível. Economista de
formação, sabe ler o que se esconde por trás das fortunas destes homens: a
captura do Estado, a evasão fiscal industrializada, a transformação da
democracia em mercado e do cidadão em produto. Onde o comentário dominante vê
génios disruptivos, ela vê a velha acumulação de capital vestida de futuro — e
nomeia-a.
De entre
os podcasts hoje disponíveis, o dela é dos mais necessários. Não porque venha
de quem foi injustamente linchada, mas porque o diz com rigor. Quem a
defenestrou na praça pública fê-lo, precisamente, para não ter de a ouvir. E
quem não a quer ouvir costuma ser quem mais precisaria de o fazer.
O
linchamento mediático silencia vozes. Mas há vozes que, silenciadas num sítio,
reaparecem noutro com mais força. A de Mariana Mortágua é uma delas.

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