sexta-feira, 24 de julho de 2026

Água parada onde tudo apodrece lentamente

 


Faça-se o inventário. Fernando Alexandre atola-se no caos dos exames nacionais que nunca soube nem quis resolver. Luís Neves, ministro da Administração Interna há meia dúzia de meses, vê a PJ apontar indícios de descaminho e abuso de poder no caso do atrelado ligado a negócios de droga que foi parar às instalações do empreiteiro amigo — o mesmo que lhe fez obras não licenciadas em zona protegida de Odemira e que arrecadou 2,3 milhões em contratos da Judiciária quando Neves a dirigia. Miguel Pinto Luz responde por um prédio em Cascais dos tempos em que ali era autarca. Três ministros, três processos.

Aos que enfrentam potenciais problemas judiciais somem-se os que não resolvem os que têm em mãos. Sarmento com contas que de certas têm cada vez menos. Ana Paula Martins com uma saúde onde falta tudo menos listas de espera. O mesmo ministro das Infraestruturas com a habitação a subir para patamares onde já nem a classe média chega.

Entretanto vão inaugurando. Cortam fitas em obras concebidas, financiadas e lançadas pelos governos socialistas que passaram anos a criticar, e apresentam-nas agora como realizações próprias com a naturalidade de quem herdou uma casa e diz tê-la construído. É o único domínio em que revelam eficácia: a apropriação.

O resto é desnorte. Um governo que não governa, apenas administra a deterioração e chama-lhe estabilidade.

E aqui chegamos ao mais estranho de todo o quadro. Dizem as sondagens que mais de setenta por cento dos eleitores estão contra este governo — e que a maioria não quer eleições. É um paradoxo que merece exame. Reprova-se o desempenho mas recusa-se a consequência. Quer-se outro rumo mas não se quer o mecanismo que o produziria. É a definição exata de pântano: água parada, sem corrente, onde nada avança e tudo apodrece lentamente.

Para completar o retrato, Seguro. Pedro Marques Lopes chamou-lhe uma espécie de Rei das Berlengas — o soberano de um reino minúsculo, poder decorativo sobre um rochedo, autoridade que ninguém contesta porque ninguém a leva a sério. O presidente faz por merecer a alcunha. Perante um governo em desmantelamento moral, com ministros em processo e políticas em ruína, oferece a serenidade de quem preside a inaugurações e elogia seleções de futebol.

Um país onde os ministros se explicam ao Ministério Público, o governo inaugura obras alheias, os eleitores reprovam sem querer votar e o Presidente reina sobre uma ilha desabitada. Chama-se a isto normalidade democrática. Chamar-lhe-ia antes o sono de quem já não espera acordar melhor.

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