Faça-se o
inventário. Fernando Alexandre atola-se no caos dos exames nacionais que nunca
soube nem quis resolver. Luís Neves, ministro da Administração Interna há meia
dúzia de meses, vê a PJ apontar indícios de descaminho e abuso de poder no caso
do atrelado ligado a negócios de droga que foi parar às instalações do
empreiteiro amigo — o mesmo que lhe fez obras não licenciadas em zona protegida
de Odemira e que arrecadou 2,3 milhões em contratos da Judiciária quando Neves
a dirigia. Miguel Pinto Luz responde por um prédio em Cascais dos tempos em que
ali era autarca. Três ministros, três processos.
Aos que
enfrentam potenciais problemas judiciais somem-se os que não resolvem os que
têm em mãos. Sarmento com contas que de certas têm cada vez menos. Ana Paula
Martins com uma saúde onde falta tudo menos listas de espera. O mesmo ministro
das Infraestruturas com a habitação a subir para patamares onde já nem a classe
média chega.
Entretanto
vão inaugurando. Cortam fitas em obras concebidas, financiadas e lançadas pelos
governos socialistas que passaram anos a criticar, e apresentam-nas agora como
realizações próprias com a naturalidade de quem herdou uma casa e diz tê-la
construído. É o único domínio em que revelam eficácia: a apropriação.
O resto é
desnorte. Um governo que não governa, apenas administra a deterioração e
chama-lhe estabilidade.
E aqui
chegamos ao mais estranho de todo o quadro. Dizem as sondagens que mais de
setenta por cento dos eleitores estão contra este governo — e que a maioria não
quer eleições. É um paradoxo que merece exame. Reprova-se o desempenho mas
recusa-se a consequência. Quer-se outro rumo mas não se quer o mecanismo que o
produziria. É a definição exata de pântano: água parada, sem corrente, onde
nada avança e tudo apodrece lentamente.
Para
completar o retrato, Seguro. Pedro Marques Lopes chamou-lhe uma espécie de Rei
das Berlengas — o soberano de um reino minúsculo, poder decorativo sobre um
rochedo, autoridade que ninguém contesta porque ninguém a leva a sério. O
presidente faz por merecer a alcunha. Perante um governo em desmantelamento
moral, com ministros em processo e políticas em ruína, oferece a serenidade de
quem preside a inaugurações e elogia seleções de futebol.
Um país onde os ministros se explicam ao Ministério Público, o governo inaugura obras alheias, os eleitores reprovam sem querer votar e o Presidente reina sobre uma ilha desabitada. Chama-se a isto normalidade democrática. Chamar-lhe-ia antes o sono de quem já não espera acordar melhor.

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