sábado, 25 de julho de 2026

A Vista do Apocalipse

 


A capa do Libération de hoje resume o mundo para onde caminhamos numa imagem só: nas águas da bacia de Arcachon, entre o Cap-Ferret e Bordéus, um homem de tronco nu avança pela água enquanto, na outra margem, uma parede de fumo negro devora o horizonte. Por cima, em maiúsculas, o veredito de um habitante: "Uma visão de apocalipse."

Não é metáfora. O incêndio que começou na quarta-feira em Saumos já percorreu mais de dezanove mil hectares. Cento e dez mil pessoas foram evacuadas. A península turística do Cap-Ferret foi esvaziada por estrada e por barco, numa operação que parecia saída de um filme de catástrofe e era apenas o telejornal. O fogo avança agora sobre a metrópole de Bordéus. E, mal esta vaga de calor der breve tréguas, anuncia-se já outra, com previsões acima dos quarenta graus a partir de quarta-feira.

É este o mundo novo. Cidades evacuadas, florestas convertidas em cinza, o verão transformado de estação em ameaça. Não é anomalia passageira — é o padrão que as alterações climáticas instalaram e que cada ano agrava.

E, no entanto, há quem ache tudo normal. As extremas-direitas, alimentadas pelo que o algoritmo do X de Elon Musk faz circular, tratam estes incêndios como fatalidade cíclica — a Terra que ora aquece, ora arrefece, sem que a mão do homem tenha nisso responsabilidade. É a velha manobra: transformar a ciência em opinião e a opinião em ruído, até que o cidadão desista de distinguir uma da outra. Os ecologistas passam a líricos, a esquerda a inimiga do desenvolvimento, e o negacionismo veste-se de bom senso popular.

Mas que desenvolvimento é este que se diz travar? Nesta fase de tecno-feudalismo, o "desenvolvimento" que os oligarcas de Silicon Valley defendem resume-se ao direito de acrescentarem mais zeros à direita nas suas fortunas indecorosas. Musk, que possui a rede onde o negacionismo prospera, é o mesmo que lucra com a infraestrutura da desinformação. O incêndio serve-lhe: enquanto o mundo arde e discute se arde, ninguém lhe pergunta quanto consome, quanto polui, quanto acumula.

Gramsci dizia que a crise consiste precisamente no facto de o velho mundo estar a morrer e o novo não conseguir nascer — e que nesse claro-escuro surgem os monstros. Vivemos esse intervalo. Enquanto o velho não morre e o novo não desponta, contaremos as tragédias uma a uma: os hectares, os evacuados, os graus a mais.

Resta a esperança de que os algoritmos percam, um dia, a capacidade de enganar quem se julga dono da razão — e que a inteligência, essa, sirva finalmente para compreender a fase que atravessamos. É a acumulação extrema de capital que Marx descreveu, agora com data centers em vez de fábricas. E é dela que nascerá, mais tarde ou mais cedo, a nova luta de classes capaz de devolver a humanidade aos valores que sempre a deveriam ter norteado.

O homem da fotografia continua a caminhar na água, de costas para nós, de frente para o fumo. Não sabemos se foge ou apenas observa. Talvez seja essa, afinal, a imagem exata do nosso tempo: uma humanidade parada à beira-água, a ver o incêndio aproximar-se, sem decidir ainda se corre ou se fica. 

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