segunda-feira, 20 de julho de 2026

Nem Hino, Nem Bandeira

 


Fechou o Mundial e, por mero acaso, só vi os minutos finais do Portugal-Croácia. Não foi protesto encenado nem sacrifício — foi indiferença genuína. E vale a pena, agora que as bandeiras se recolhem, dizer porque ninguém me verá a entoar o hino, a empunhar a bandeira das quinas ou a heroicizar quem ganha fortunas e fama por saber dar chutos numa bola.

Não tenho nada contra o jogo. Tenho contra o que se lhe pendura em cima. O futebol tornou-se o último refúgio consentido do nacionalismo — o lugar onde é socialmente aceitável gritar pela pátria, agitar o símbolo e sentir contra o estrangeiro uma hostilidade que, noutro contexto, teria outro nome. Onze milionários correm atrás de uma bola e um país inteiro projeta neles uma identidade que, fora dos noventa minutos, se revela oca.

E há sempre quem leve a coisa ao seu destino lógico. Mariano Rajoy, ex-chefe do governo espanhol, publicou no El Debate um artigo em que reconhecia o altíssimo nível da seleção francesa, mas acrescentava, com a delicadeza de um coveiro, que ela jogava "sem franceses". Pelos apelidos, pela cor da pele, aqueles Mbappé, Dembélé ou Olise não seriam, para Rajoy, verdadeiramente franceses — como se a nacionalidade fosse questão de pigmento e sobrenome, e não de pertença a uma comunidade política. A embaixada francesa respondeu-lhe com factos: dos vinte e seis convocados, vinte e três nasceram em França. Mas o facto nunca demoveu o preconceito, porque ele não parte dos factos, mas do medo.

Este Mundial deu ainda o retrato da promiscuidade entre a bola e o poder. Donald Trump ligou pessoalmente a Gianni Infantino para exigir a revisão do cartão vermelho mostrado a Balogun, jogador dos Estados Unidos. Achou "muito injusto" e a FIFA ouviu porque está sempre com quem tem poder e desdenha quem o não tem. O desporto que se apresenta como meritocracia curva-se diante do telefonema presidencial com a docilidade de um súbdito.

E Montenegro tentou o velho truque dos governantes em apuros: associar-se aos êxitos da seleção para deles colher uns pingos de popularidade. Foi amuleto pífio. A seleção não chegou onde ele esperava, e o primeiro-ministro que não classifica exames a tempo também não se classificou como talismã. Ao menos nisto houve justiça.

Samuel Johnson dizia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. A frase é dura e é exata. Não condena o amor à terra onde se nasce — condena o uso desse amor como arma, como distração, como cortina para esconder o que se faz enquanto o povo canta o hino. Quem agita a bandeira mais alto costuma ser quem mais teme que se olhe para trás dela. Rajoy que o diga.

Num tempo em que o racismo e a xenofobia envenenam a convivência, em que se reúnem cimeiras da remigração numa quinta da Figueira da Foz e se mede a pertença pela cor da pele, ser internacionalista deixou de ser romantismo para se tornar imperativo moral. Reconhecer-se antes na humanidade partilhada do que na fronteira herdada é a única perspetiva compatível com um humanismo que se leve a sério.

Por isso não canto o hino nem empunho a bandeira. Não por desamor a este canto do mundo onde calhei nascer — mas porque a minha lealdade é para com as pessoas, todas elas, e não para com o símbolo que as divide em equipas. O apito final soou. As bandeiras que se guardem. Os problemas, esses, continuam à espera de quem os resolva — e nenhum se resolve a cantar.

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