Em
setembro de 2016, num jantar de campanha em Nova Iorque, Hillary Clinton
resolveu classificar metade dos eleitores de Donald Trump. Meteu-os num cesto e
deu-lhe nome: basket of deplorables, o cesto dos deploráveis. Racistas,
xenófobos, homófobos — gente irrecuperável, sugeria o tom. Dois meses depois
perdeu a eleição que todas as sondagens lhe davam ganha. A frase não explica
sozinha a derrota, mas resume-a melhor do que qualquer análise.
O erro de
Hillary não foi factual. Havia, de facto, racistas e xenófobos entre os
apoiantes de Trump, como há entre os de Ventura, de Le Pen, de Farage. O erro
foi estratégico, e foi profundo: ao chamar deploráveis a milhões de pessoas,
Clinton ofereceu à extrema-direita o presente mais valioso que uma campanha
pode receber — a confirmação, vinda da própria boca da elite, de que ela os
despreza.
Porque é
exatamente isto que o populismo de direita sussurra ao ouvido de quem o escuta:
que os doutores de cidade os acham burros, os jornais escrevem para outros, os
progressistas têm empatia para com todas as minorias do mundo menos para com o
operário branco que perdeu a fábrica. E então surge Clinton, microfone na mão,
num jantar a quinze mil dólares o prato, a chamar-lhes deploráveis — e o
sussurro torna-se grito, confirmado pela prova. Não havia spot publicitário que
Trump pudesse comprar com tamanha eficácia. Clinton ofereceu-o de graça.
A
esquerda tem uma queda perigosa para esta armadilha. Convencida da
superioridade moral das suas posições — e com razão objetiva quanto ao conteúdo
—, escorrega com facilidade do "estás errado" para o "és
desprezível".
A
distância entre as duas frases é todo o eleitorado que se vai perdendo. Quem se
sente desprezado não muda de opinião: entrincheira-se. O desprezo não converte
ninguém. Apenas empurra para mais longe, para os braços de quem promete
vingança contra os que desprezam.
Há aqui
um espelho incómodo que a esquerda evita olhar. Quando trata o eleitor da
direita radical como um caso perdido, não está a combater o populismo — está a
alimentá-lo. Cada gesto de sobranceria, cada troça nas redes sociais, cada
explicação paciente sobre a razão daquela gente votar mal, é lenha na fogueira
que diz combater.
A
pergunta que fica, e que a próxima crónica tentará responder, é esta: se não é
estupidez, então o que leva tanta gente pobre a votar em quem governa para os
ricos? Porque a resposta a essa pergunta — e não o desprezo por quem a encarna
— é a única coisa que poderá um dia reverter a maré.

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