terça-feira, 30 de junho de 2026

Os Deploráveis e o Espelho — I. O Erro de Hillary

 


Em setembro de 2016, num jantar de campanha em Nova Iorque, Hillary Clinton resolveu classificar metade dos eleitores de Donald Trump. Meteu-os num cesto e deu-lhe nome: basket of deplorables, o cesto dos deploráveis. Racistas, xenófobos, homófobos — gente irrecuperável, sugeria o tom. Dois meses depois perdeu a eleição que todas as sondagens lhe davam ganha. A frase não explica sozinha a derrota, mas resume-a melhor do que qualquer análise.

O erro de Hillary não foi factual. Havia, de facto, racistas e xenófobos entre os apoiantes de Trump, como há entre os de Ventura, de Le Pen, de Farage. O erro foi estratégico, e foi profundo: ao chamar deploráveis a milhões de pessoas, Clinton ofereceu à extrema-direita o presente mais valioso que uma campanha pode receber — a confirmação, vinda da própria boca da elite, de que ela os despreza.

Porque é exatamente isto que o populismo de direita sussurra ao ouvido de quem o escuta: que os doutores de cidade os acham burros, os jornais escrevem para outros, os progressistas têm empatia para com todas as minorias do mundo menos para com o operário branco que perdeu a fábrica. E então surge Clinton, microfone na mão, num jantar a quinze mil dólares o prato, a chamar-lhes deploráveis — e o sussurro torna-se grito, confirmado pela prova. Não havia spot publicitário que Trump pudesse comprar com tamanha eficácia. Clinton ofereceu-o de graça.

A esquerda tem uma queda perigosa para esta armadilha. Convencida da superioridade moral das suas posições — e com razão objetiva quanto ao conteúdo —, escorrega com facilidade do "estás errado" para o "és desprezível".

A distância entre as duas frases é todo o eleitorado que se vai perdendo. Quem se sente desprezado não muda de opinião: entrincheira-se. O desprezo não converte ninguém. Apenas empurra para mais longe, para os braços de quem promete vingança contra os que desprezam.

Há aqui um espelho incómodo que a esquerda evita olhar. Quando trata o eleitor da direita radical como um caso perdido, não está a combater o populismo — está a alimentá-lo. Cada gesto de sobranceria, cada troça nas redes sociais, cada explicação paciente sobre a razão daquela gente votar mal, é lenha na fogueira que diz combater.

A pergunta que fica, e que a próxima crónica tentará responder, é esta: se não é estupidez, então o que leva tanta gente pobre a votar em quem governa para os ricos? Porque a resposta a essa pergunta — e não o desprezo por quem a encarna — é a única coisa que poderá um dia reverter a maré.

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