terça-feira, 23 de junho de 2026

Os Pacotes e o Vazio

 


José Luís Carneiro tem razão. Quão bom seria este governo se a apreciação incidisse sobre o número dos pacotes de medidas anunciados e não sobre a sua concretização. Porque quanto a essa bitola nenhuma se pode perfilar como contabilizável se excluirmos as de conteúdo mais do que ambíguo, porque pensadas para dificultar a vida (emigrantes, transsexuais) a quem a já não tem nada fácil.

Em dois anos já lá vão duas dúzias de pacotes, todos anunciados com a mesma promessa de fazer Portugal um país maior, ao jeito enganador com que também Trump prometeu ao eleitorado MAGA uma grandeza que nunca chegou a materializar-se em bem-estar real.

Resultados? O Governo trata de não os reconhecer, mas a realidade não precisa da sua autorização para existir. Na saúde, mais pessoas sem médico de família do que há dois anos. Na habitação, preços que continuam a subir e a expulsar a classe média das cidades onde trabalha. Na qualidade de vida, a inflação a acelerar — 3,4% em abril — enquanto o primeiro-ministro considera que "não é ainda motivo de alarme", o que é uma forma elegante de dizer que o alarme só toca quando lhe toca a ele. No emprego para os jovens, a precariedade que persiste sem que nenhum dos vinte e cinco pacotes a tenha revertido. E até nas "contas certas" — o único trunfo que este governo gostava de reivindicar sem contestação — os números da execução orçamental do primeiro trimestre mostram o que Carneiro chamou, com precisão, a prova dos nove: receita inflacionada por impostos sobre combustíveis, não por crescimento genuíno da economia.

Há uma frase de Montenegro, dita sobre outro contexto, se adapta aqui com ironia exemplar: o país vai mal, e os portugueses muito piores. Era para descrever a herança que recebeu. Descreve, com mais justiça, o que vai deixando.

Vinte e cinco pacotes e o problema continua intacto debaixo do papel de embrulho. Em política, como em economia doméstica, há um limite para quantas vezes se pode vender a mesma promessa antes de o comprador perceber que está a pagar pelo embrulho, não pelo conteúdo.

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