terça-feira, 2 de junho de 2026

A Fome dos Privados

 


Há estratégias que se adivinham antes de serem declaradas. Este governo não anunciou que quer privatizar a Segurança Social e o Serviço Nacional de Saúde — anuncia-o por partes, em cada decisão orçamental que retira receita a estas instituições até que a sua alegada falência justifique a solução que sempre esteve em mente.

O mecanismo é simples e não é novo. Primeiro mingua-se o financiamento. Depois constata-se, com pesar encenado, que o sistema não funciona. Por fim convida-se o setor privado a resolver o que o Estado, deliberadamente subfinanciado, já não consegue. Os grandes grupos económicos agradecem, os acionistas recebem, e os portugueses pagam duas vezes — primeiro nos impostos que financiaram a destruição, depois nas mensalidades que financiam a substituição.

A notícia de que as receitas do imposto sobre as bebidas açucaradas deixam de ser consignadas ao SNS, vertendo diretamente para o Orçamento Geral do Estado, segue a lógica do que já aconteceu com o imposto do tabaco. São receitas criadas com um argumento de saúde pública — taxar o que prejudica para financiar o que cura — e desviadas para um orçamento onde competem com tudo o resto e perdem, porque tudo o resto tem lobbies mais organizados do que os doentes em lista de espera.

A narrativa da falência é a preparação do terreno. Um SNS a quem se retiram receitas sistematicamente é um SNS que caminha para a incapacidade — e a incapacidade, devidamente documentada e suficientemente amplificada, cria o consenso de que a solução privada é inevitável. Não é inevitável. É escolhida.

Há uma política alternativa — a de privilegiar o interesse de todos em detrimento da ganância de poucos. É mais do que urgente. É a diferença entre um país que cuida dos seus cidadãos e um mercado que os explora enquanto adoecem.

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