Há uma
ironia que a história reserva aos que perderam o poder: por vezes, é então que
começam a ver com clareza. A Igreja Católica —grande superpotência do passado, com
tantos anos de crimes acumulados sobre quem declarava herege, cismático ou
simplesmente inconveniente — dá sinais, com Robert Prevost, de ter compreendido
algo que escapa aos donos do presente.
A
encíclica sobre a inteligência artificial não é um documento revolucionário.
Está condicionada pelos preconceitos de uma instituição que ainda não resolveu
a sua relação com as mulheres, a diversidade sexual, os crimes que encobre
debaixo dos tapetes das sacristias. Mas o diagnóstico económico é,
curiosamente, consonante com o que o pensamento progressista do século XIX
estipulava: a primazia das pessoas sobre a tecnologia, reduzida à função
acessória de meio de produção, e a humanidade entendida como unidade solidária
— o que foi, no seu tempo, o conceito da solidariedade internacionalista que
Marx e Engels opunham ao nacionalismo dos proprietários.
Quem
deteve grande poder e sabe não o vir a recuperar adquire, por vezes, uma
lucidez que falta a quem ainda julga tê-lo. Os novos donos do mundo — Musk, os
fundos soberanos, os algoritmos que decidem créditos e empregos — não têm
encíclicas nem remorsos. Têm prospetos para a SEC (Securities and Exchange
Commission) e data centers em zonas de baixa fiscalidade. Não perderam nada
ainda. E é precisamente isso que os impede de ver.
O mundo
avança em metafóricos carris — a concentração de capital, a crise climática, a
agudização das desigualdades — e há uma multidão desnorteada nos cais das
respetivas estações: os nacionalistas apostam em restaurar fronteiras que o
capital há muito ignorou, os nostálgicos de impérios que a história encerrou,
os tecno-otimistas convictos de que o próximo algoritmo resolverá o que os
anteriores agravaram. Perderam o comboio e discutem a cor da locomotiva.
Que seja
um papa, formado numa tradição que tem tanto a expiar, a lembrar que a
tecnologia serve as pessoas e não o inverso — e a humanidade é um todo cujas
divisões a condenam — diz menos sobre a Igreja do que sobre o estado do
pensamento dominante. Quando a voz lúcida na sala é a de quem chegou tarde e
com as mãos sujas, a sala tem um problema sério.

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