domingo, 14 de junho de 2026

A lucidez dos que perderam

 


Há uma ironia que a história reserva aos que perderam o poder: por vezes, é então que começam a ver com clareza. A Igreja Católica —grande superpotência do passado, com tantos anos de crimes acumulados sobre quem declarava herege, cismático ou simplesmente inconveniente — dá sinais, com Robert Prevost, de ter compreendido algo que escapa aos donos do presente.

A encíclica sobre a inteligência artificial não é um documento revolucionário. Está condicionada pelos preconceitos de uma instituição que ainda não resolveu a sua relação com as mulheres, a diversidade sexual, os crimes que encobre debaixo dos tapetes das sacristias. Mas o diagnóstico económico é, curiosamente, consonante com o que o pensamento progressista do século XIX estipulava: a primazia das pessoas sobre a tecnologia, reduzida à função acessória de meio de produção, e a humanidade entendida como unidade solidária — o que foi, no seu tempo, o conceito da solidariedade internacionalista que Marx e Engels opunham ao nacionalismo dos proprietários.

Quem deteve grande poder e sabe não o vir a recuperar adquire, por vezes, uma lucidez que falta a quem ainda julga tê-lo. Os novos donos do mundo — Musk, os fundos soberanos, os algoritmos que decidem créditos e empregos — não têm encíclicas nem remorsos. Têm prospetos para a SEC (Securities and Exchange Commission) e data centers em zonas de baixa fiscalidade. Não perderam nada ainda. E é precisamente isso que os impede de ver.

O mundo avança em metafóricos carris — a concentração de capital, a crise climática, a agudização das desigualdades — e há uma multidão desnorteada nos cais das respetivas estações: os nacionalistas apostam em restaurar fronteiras que o capital há muito ignorou, os nostálgicos de impérios que a história encerrou, os tecno-otimistas convictos de que o próximo algoritmo resolverá o que os anteriores agravaram. Perderam o comboio e discutem a cor da locomotiva.

Que seja um papa, formado numa tradição que tem tanto a expiar, a lembrar que a tecnologia serve as pessoas e não o inverso — e a humanidade é um todo cujas divisões a condenam — diz menos sobre a Igreja do que sobre o estado do pensamento dominante. Quando a voz lúcida na sala é a de quem chegou tarde e com as mãos sujas, a sala tem um problema sério.

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