sexta-feira, 12 de junho de 2026

O Papa e o Manifesto

 


A condição de ateu dispensaria a leitura da encíclica do papa Leão XIV. Não fosse o seu conteúdo demasiado pertinente para ser ignorado por quem, crente ou não, tem olhos para o que se passa.

O novo papa diagnostica na inteligência artificial o que Karl Marx diagnosticou na máquina a vapor: a acelerada concentração de capital nas mãos de um grupo exíguo de proprietários dos meios de produção e o correspondente empobrecimento da maioria. O diagnóstico é correto. A diferença é que Marx tirou as conclusões e o papa para aí não vai — a doutrina social da Igreja tem os seus limites, e o Manifesto Comunista não está entre as referências de cabeceira.

O que Leão XIV descreve sem o nomear é a luta de classes em versão algorítmica. As leis que regiam o capitalismo industrial do século XIX não foram revogadas — foram aceleradas. A mais-valia que ontem se extraía do operário têxtil extrai-se hoje do motorista de Uber, do estafeta de plataforma, do trabalhador cujas funções a IA substituiu antes que ele tivesse tempo de as aprender. A velocidade mudou. A lógica é a mesma.

A acumulação primitiva que Marx descreveu como fundação violenta do capitalismo tem hoje uma versão limpa e digital: cinco empresas controlam a infraestrutura sobre a qual assenta a economia mundial, os proprietários acumulam fortunas sem precedente histórico, e os estados nacionais descobrem que regular isto equivale a domar a gravidade — teoricamente possível e praticamente difícil. O papa pede moderação. Os mercados agradecem e continuam.

O que fica por dizer na encíclica — e que Marx e Engels disseram há cento e setenta e cinco anos no documento mais lido e menos aplicado da história do pensamento político — é que a agudização das contradições do sistema não produz automaticamente a fase seguinte. Produz crise, conflito, regressão e, por vezes, barbárie antes de qualquer avanço. Estamos na fase em que a ela se apresenta como solução: a extrema-direita a propor deportações, Trump a propor tarifas, Musk a propor que o futuro lhe pertença.

O capitalismo já se reinventou antes quando parecia esgotado. Pode voltar a fazê-lo. Ou não. A história não tem guião obrigatório — tem tendências, contradições e, de vez em quando, a irrupção do inesperado. O papa sabe isto à sua maneira. Marx sabia-o à sua. A diferença é que um deles propunha rezar e o outro propunha organizar.

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