A
condição de ateu dispensaria a leitura da encíclica do papa Leão XIV. Não fosse
o seu conteúdo demasiado pertinente para ser ignorado por quem, crente ou não,
tem olhos para o que se passa.
O novo
papa diagnostica na inteligência artificial o que Karl Marx diagnosticou na
máquina a vapor: a acelerada concentração de capital nas mãos de um grupo exíguo
de proprietários dos meios de produção e o correspondente empobrecimento da
maioria. O diagnóstico é correto. A diferença é que Marx tirou as conclusões e
o papa para aí não vai — a doutrina social da Igreja tem os seus limites, e o
Manifesto Comunista não está entre as referências de cabeceira.
O que
Leão XIV descreve sem o nomear é a luta de classes em versão algorítmica. As
leis que regiam o capitalismo industrial do século XIX não foram revogadas —
foram aceleradas. A mais-valia que ontem se extraía do operário têxtil
extrai-se hoje do motorista de Uber, do estafeta de plataforma, do trabalhador
cujas funções a IA substituiu antes que ele tivesse tempo de as aprender. A
velocidade mudou. A lógica é a mesma.
A
acumulação primitiva que Marx descreveu como fundação violenta do capitalismo
tem hoje uma versão limpa e digital: cinco empresas controlam a infraestrutura
sobre a qual assenta a economia mundial, os proprietários acumulam fortunas sem
precedente histórico, e os estados nacionais descobrem que regular isto
equivale a domar a gravidade — teoricamente possível e praticamente difícil. O
papa pede moderação. Os mercados agradecem e continuam.
O que
fica por dizer na encíclica — e que Marx e Engels disseram há cento e setenta e
cinco anos no documento mais lido e menos aplicado da história do pensamento
político — é que a agudização das contradições do sistema não produz
automaticamente a fase seguinte. Produz crise, conflito, regressão e, por
vezes, barbárie antes de qualquer avanço. Estamos na fase em que a ela se
apresenta como solução: a extrema-direita a propor deportações, Trump a propor
tarifas, Musk a propor que o futuro lhe pertença.
O
capitalismo já se reinventou antes quando parecia esgotado. Pode voltar a
fazê-lo. Ou não. A história não tem guião obrigatório — tem tendências,
contradições e, de vez em quando, a irrupção do inesperado. O papa sabe isto à
sua maneira. Marx sabia-o à sua. A diferença é que um deles propunha rezar e o
outro propunha organizar.

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