sexta-feira, 12 de junho de 2026

Os Fantasmas e o Clima

 


Um cronista do Público assinalou esta semana algo que merece desenvolvimento: as guerras de Putin e de Trump são, no fundo, guerras de fantasmas. O primeiro quer restaurar o império soviético que a história encerrou em 1991 e nunca existiu exatamente como ele o imagina. O segundo quer restaurar a América industrial do século XX, a da hegemonia incontestada, a de antes dos japoneses, dos chineses e da realidade. Ambos guerreiam contra o passado com armas do presente e produzem, no processo, um futuro que nenhum dos dois controla.

A China observa. Sem o lastro desses fantasmas — sem império a restaurar, sem hegemonia perdida a recuperar —, avança com a paciência de quem sabe que o tempo joga a seu favor. Xi Jinping não precisa de fazer a América grande outra vez nem de reconquistar Kiev. Precisa de continuar a crescer, a investir em infraestrutura global, a comprar a dívida de quem lha vende e a esperar que os outros se esgotem nas suas nostalgias. O travão demográfico existe e é real — uma população que envelhece é uma economia que abranda —, mas é um problema de décadas, não de anos. Por agora, a paciência é uma vantagem competitiva.

Fora deste tabuleiro de potências há duas possibilidades que me parecem mais determinantes do que qualquer disputa hegemónica.

A primeira é distópica: a sucessão de guerras alimentadas pelos fantasmas do século XX — e pelos novos que as direitas extremas fabricam em série, da remigração ao nativismo, do negacionismo climático ao messianismo identitário — conduz a um mundo de conflitos permanentes, de recursos militarizados, de humanidade ocupada a destruir-se enquanto o planeta arde.

A segunda é a única alternativa real: perante o agravamento incontornável dos efeitos climáticos — as tempestades, as secas, as migrações em massa que nenhuma fronteira deterá —, a população humana do planeta percebe finalmente ser parte de um todo. Não por virtude, que é escassa, mas por necessidade, que é implacável. As canalhices nacionalistas são um luxo que o Antropoceno não pode financiar. A união de esforços não é utopia sentimental — é a condição de sobrevivência de uma espécie suficientemente inteligente para construir bombas atómicas e insuficientemente sábia para não as ter construído.

A história não escolhe por nós. Mas desta vez a fatura do adiamento virá mais depressa do que alguma vez veio. O clima não negocia, não aceita moções de estratégia e não aguarda pelos resultados das próximas sondagens.

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