domingo, 7 de junho de 2026

Quem Semeia Vento

 


Robert Kagan não é um nome que se associa à rendição. Cofundador do Project for the New American Century, arquiteto intelectual da invasão do Iraque em 2003, marido de Victoria Nuland — é, em suma, um dos homens que passou décadas a defender a força militar americana enquanto fator de ordem do mundo e devia ser usada. Quando este homem publica na The Atlantic um texto intitulado "Xeque-mate no Irão" e escreve que a derrota dos Estados Unidos "não pode ser reparada nem ignorada", é tempo de prestar atenção.

O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — está sob controlo iraniano. Kagan é explícito: a ideia de que o estreito reabrirá nas condições anteriores quando a crise terminar é infundada. O Irão cobrará portagens, favorecerá os países amigos, penalizará os demais. Tornou-se o porteiro da energia mundial e não há incentivo para abdicar dessa posição — muito menos num acordo com Trump, cuja fiabilidade o próprio Kagan questiona com a crueza de quem conhece o personagem.

Trump declarou em março que a guerra estava ganha e o Estreito reabrira. Falso. Pediu ajuda à NATO e à China para proteger a navegação. Recusaram. Três contratorpedeiros americanos tentaram forçar a passagem em maio e recuaram sob fogo iraniano. O presidente que prometeu fazer a América grande outra vez produziu, em menos de um ano de guerra, aquilo que Kagan compara a Pearl Harbor em termos de dano estratégico — com a diferença desse ter sido um ataque sofrido, e esta uma guerra escolhida.

A era da unipolaridade americana, inaugurada com o colapso soviético em 1991 e celebrada com a invasão do Iraque em 2003, terminou nas águas do Estreito de Ormuz em 2026. É o próprio Kagan quem o escreve. O tipo de frase que, vinda de quem vem, dispensa comentário — e exige, ainda assim, que se diga o óbvio: foi esta direita, a de Kagan, Cheney e Netanyahu, que semeou este vento durante décadas. A tempestade que agora colhem tem o tamanho exato das sementes que plantaram.

Trump limitou-se a acelerar o que já estava em curso. É o seu talento específico: transformar decadência lenta em colapso rápido e chamar-lhe vitória até a realidade o contradizer — o que, neste caso, já aconteceu, com a assinatura de um dos seus mais fervorosos apologistas.

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