Robert
Kagan não é um nome que se associa à rendição. Cofundador do Project for the
New American Century, arquiteto intelectual da invasão do Iraque em 2003,
marido de Victoria Nuland — é, em suma, um dos homens que passou décadas a
defender a força militar americana enquanto fator de ordem do mundo e devia ser
usada. Quando este homem publica na The Atlantic um texto intitulado
"Xeque-mate no Irão" e escreve que a derrota dos Estados Unidos
"não pode ser reparada nem ignorada", é tempo de prestar atenção.
O
Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — está sob
controlo iraniano. Kagan é explícito: a ideia de que o estreito reabrirá nas
condições anteriores quando a crise terminar é infundada. O Irão cobrará
portagens, favorecerá os países amigos, penalizará os demais. Tornou-se o
porteiro da energia mundial e não há incentivo para abdicar dessa posição —
muito menos num acordo com Trump, cuja fiabilidade o próprio Kagan questiona
com a crueza de quem conhece o personagem.
Trump
declarou em março que a guerra estava ganha e o Estreito reabrira. Falso. Pediu
ajuda à NATO e à China para proteger a navegação. Recusaram. Três contratorpedeiros
americanos tentaram forçar a passagem em maio e recuaram sob fogo iraniano. O
presidente que prometeu fazer a América grande outra vez produziu, em menos de
um ano de guerra, aquilo que Kagan compara a Pearl Harbor em termos de dano
estratégico — com a diferença desse ter sido um ataque sofrido, e esta uma
guerra escolhida.
A era da
unipolaridade americana, inaugurada com o colapso soviético em 1991 e celebrada
com a invasão do Iraque em 2003, terminou nas águas do Estreito de Ormuz em
2026. É o próprio Kagan quem o escreve. O tipo de frase que, vinda de quem vem,
dispensa comentário — e exige, ainda assim, que se diga o óbvio: foi esta
direita, a de Kagan, Cheney e Netanyahu, que semeou este vento durante décadas.
A tempestade que agora colhem tem o tamanho exato das sementes que plantaram.
Trump
limitou-se a acelerar o que já estava em curso. É o seu talento específico:
transformar decadência lenta em colapso rápido e chamar-lhe vitória até a
realidade o contradizer — o que, neste caso, já aconteceu, com a assinatura de
um dos seus mais fervorosos apologistas.

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