Na semana
passada a Figueira da Foz entrou no roteiro internacional da extrema-direita
identitária. Chamaram-lhe Remigration Summit — "Cimeira da
Remigração" — e reuniram cerca de 500 ativistas, influencers e
figuras políticas numa quinta, depois de o Porto ter recusado acolher o evento
por falta de espaço disponível para racistas. A organização ficou a cargo de
Afonso Gonçalves, líder do movimento Reconquista, atualmente investigado pelo
Ministério Público por suspeitas de crimes de ódio.
O
conceito de "remigração" foi popularizado pelo austríaco Martin
Sellner, líder do Movimento Identitário com ligações documentadas ao
neonazismo, presente na sala. Significa deportação em massa de imigrantes — e
de quem, mesmo tendo nascido no país, não pertença à etnia considerada
originária. É uma proposta que, formulada em linguagem de política pública,
procura tornar palatável aquilo que, dito claramente, se chama limpeza étnica.
O
convidado-surpresa foi Gregory Bovino, antigo comandante da Patrulha de
Fronteiras dos Estados Unidos, símbolo da política anti-imigração de Trump — a
mesma que produziu a detenção de crianças migrantes e a morte de civis nas
fronteiras americanas. Bovino veio mostrar que isto não é teoria: é prática,
tem manual e resultados mensuráveis em vidas destruídas.
Os
jornalistas foram impedidos de entrar. Os influencers foram autorizados.
A distinção é a definição da estratégia: não se quer escrutínio, quer-se
amplificação. A mensagem circula nos canais digitais da rede, sem
contraditório, diretamente para públicos já mobilizados — o mesmo modelo que
transformou o X de Musk num viveiro de radicalismos calibrados por algoritmo.
O que
estes homens propõem como solução é o que a administração Trump já está a
aplicar como laboratório: fronteiras militarizadas, deportações em massa,
erosão das instituições que limitam o poder, desprezo pela lei quando incomoda.
O resultado é visível — não como promessa mas como facto: crianças em jaulas,
aliados abandonados, instituições esvaziadas, e um país que em três anos de
trumpismo perdeu uma guerra, perdeu o controlo do Estreito de Ormuz e perdeu o
respeito de quem ainda tinha algum.
Portugal
tem uma história comprida com o que acontece quando esta gente chega ao poder.
Chama-se Estado Novo e durou quarenta e oito anos. A Figueira da Foz ficará na
memória como o lugar onde se reuniram os seus herdeiros espirituais para
planearem a sequela.

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