sexta-feira, 12 de junho de 2026

O Rio e os Sinais

 


Brecht legou-nos uma pergunta disfarçada de imagem: quando o rio transborda, é sua a culpa ou das margens que o comprimem? A pergunta não é de hidráulica — é de política. E a resposta, que Brecht conhecia bem, é que as margens têm nome, morada e interesse em manter o rio no lugar.

Jorge Silva Melo, numa entrevista revisitada na RTP Memória, recordava o poeta Gastão Cruz para dizer algo que os manuais de história raramente ensinam: as revoluções anunciam-se antes de acontecer, e os sinais não têm necessariamente a forma de barricadas, porque podem ser um encontro.

Para Gastão Cruz, o ano decisivo não foi o da fraudulenta derrota de Delgado — a desilusão eleitoral de quem esperava que o regime tropeçasse em si mesmo. Nesse mesmo ano de 1958, aquele em que conheceu Fiama Hasse Pais Brandão e Luísa Neto Jorge. Desse encontro nasceu o núcleo do que viria a ser a Poesia 61 — um movimento que não tinha programa político declarado e era, inteiramente, um sinal de que o mundo luso estava em ativa mudança. A língua estava a mover-se antes de a história se ter apercebido.

É assim que funciona. O rio começa a subir antes de galgar as margens. Quem sabe ler o nível da água vê o que está para vir; quem olha apenas para as margens julga que tudo está sob controlo.

Há sinais desse tipo no Portugal de hoje — dispersos, contraditórios, sem manifesto que os una. A greve geral de 3 de junho com a CGTP a encher as ruas sem a UGT. As sondagens que empurram o PS para uma liderança crescente. Os jovens a descobrirem que as promessas do governo tinham prazo de validade orçamental. A geração precária que a uberização formou para não ter ilusões. Não é ainda o rio a galgar — é o rio a subir, silenciosamente, enquanto as margens discutem entre si a melhor forma de o comprimir.

Essas margens têm nomes conhecidos: a lei laboral que facilita despedimentos, os privados à espera do SNS, a extrema-direita a reunir em quintas com convidados deportadores. Comprimem com método e com pressa — a pressa de quem sabe, como Ventura sabe, que as oportunidades têm prazo.

O rio, por enquanto, não diz nada. Mas Gastão Cruz em 1968 também não disse nada. Apenas conheceu duas poetas. E o mundo mudou.

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