segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Inveja com Toga

 

A economia espanhola é, neste momento, a referência da zona euro. Cresceu 2,8% em 2025, mais do triplo da média da União Europeia, criou meio milhão de empregos por ano e reduziu o desemprego para níveis que não se viam há décadas. O FMI elogia. O Banco de Espanha revê em alta. Mesmo a guerra no Irão, que está a complicar tudo à escala global, mal arranha as previsões espanholas. É um desempenho que qualquer governo europeu assinaria de cruz.

E é precisamente por isso que a direita espanhola, incapaz de o contestar nos números, foi à procura de outro terreno: os tribunais.

Begoña Gómez, mulher de Pedro Sánchez, está indiciada por uma cátedra universitária após dois anos de instrução em que o próprio Ministério Público pediu o arquivamento por falta de provas. David, irmão do primeiro-ministro, é julgado em Badajoz por um posto de trabalho atribuído em 2017, quando Sánchez nem chefiava o governo. São casos que, noutro país europeu qualquer, dificilmente sairiam da secção de notícias locais. Em Espanha, ocupam capas de jornais e moções de censura.

Há uma distinção que importa fazer, e que o próprio Sánchez faz: quando os indícios são sólidos — como nos casos de Ábalos e Santos Cerdán, antigos dirigentes socialistas com fortes suspeitas de corrupção —, o primeiro-ministro reconhece-os e pede desculpa. Quando os casos envolvem a mulher e o irmão, com instrução conduzida por um juiz que o próprio Ministério Público contraria, Sánchez fala de "máquina de lodo" e de juízes "a fazer política". A diferença entre os dois tipos de processo é precisamente o que torna a acusação de perseguição credível em vez de conveniente.

O Partido Popular e o Vox não têm projeto económico que rivalize com os números atuais. O que têm é paciência judicial e magistrados ideologicamente alinhados, dispostos a transformar processos fracos em desgaste político permanente. As sessões nas Cortes tornaram-se, por isso, um exercício de agressão verbal sem correspondência na gestão do país — porque é mais fácil gritar sobre uma cátedra universitária do que explicar por que motivo a alternativa governaria melhor.

A ânsia pelo poder, quando não tem como se justificar pelo mérito, recorre ao expediente mais antigo da política: já que não se pode vencer pelos resultados, tenta-se vencer pelo desgaste. A história julgará se a justiça espanhola serviu a lei ou a inveja.

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