quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Compaixão em Falta

 


Confesso-me ateu impenitente, o que me dispensa de julgar quem quer que seja por critérios teológicos. Mas quando ouço as ministras do Trabalho e da Saúde no parlamento fico boquiaberto — não pela falta de fé, que é assunto de cada um, mas pela falta de humanidade, que é assunto de todos.

Maria do Rosário Palma Ramalho e Ana Paula Martins falam dos mais pobres e dos imigrantes com a frieza clínica de quem gere categorias estatísticas, não pessoas. A lei laboral que facilita despedimentos, a Prestação Social Única que recorta apoios, a Lei da Nacionalidade que trata emigrantes como problema a resolver — tudo embrulhado numa linguagem de responsabilidade orçamental que serve de anestesia à consciência e de escudo ao escrutínio. O resultado é a estigmatização sistemática de quem já é vítima: torná-los mais vulneráveis aos preconceitos racistas e xenófobos que a ADEGA cultiva como eleitorado.

Não sei se estas senhoras são praticantes da religião cristã — é provável, dada a filiação política, mas não é certo e não me compete presumir. Se o forem, porém, há uma pergunta que o seu Deus lhes fará antes de mim: o que fizeram da compaixão? O que fizeram da bondade para com os humilhados e ofendidos? Porque o Cristo dos Evangelhos — aquele anterior às encíclicas, aos concílios e às cumplicidades com o poder — era inequívoco quanto aos pobres, aos estrangeiros e aos marginalizados. Não os tratava como categorias orçamentais. Sentava-se à mesa com eles.

A tradição cristã tem um nome para quem professa a fé e pratica o contrário: hipocrisia. E tem, nas suas profundezas doutrinárias, um lugar reservado a quem acumulou poder e o usou contra os mais frágeis. Não sou eu que o digo — é o livro que eventualmente têm na mesa de cabeceira.

Como ateu, poupo-me ao juízo final. Mas o juízo da história é igualmente implacável — e este, ao contrário do outro, é inevitável.

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