Confesso-me
ateu impenitente, o que me dispensa de julgar quem quer que seja por critérios
teológicos. Mas quando ouço as ministras do Trabalho e da Saúde no parlamento
fico boquiaberto — não pela falta de fé, que é assunto de cada um, mas pela
falta de humanidade, que é assunto de todos.
Maria do
Rosário Palma Ramalho e Ana Paula Martins falam dos mais pobres e dos
imigrantes com a frieza clínica de quem gere categorias estatísticas, não
pessoas. A lei laboral que facilita despedimentos, a Prestação Social Única que
recorta apoios, a Lei da Nacionalidade que trata emigrantes como problema a
resolver — tudo embrulhado numa linguagem de responsabilidade orçamental que
serve de anestesia à consciência e de escudo ao escrutínio. O resultado é a
estigmatização sistemática de quem já é vítima: torná-los mais vulneráveis aos
preconceitos racistas e xenófobos que a ADEGA cultiva como eleitorado.
Não sei
se estas senhoras são praticantes da religião cristã — é provável, dada a
filiação política, mas não é certo e não me compete presumir. Se o forem,
porém, há uma pergunta que o seu Deus lhes fará antes de mim: o que fizeram da
compaixão? O que fizeram da bondade para com os humilhados e ofendidos? Porque
o Cristo dos Evangelhos — aquele anterior às encíclicas, aos concílios e às
cumplicidades com o poder — era inequívoco quanto aos pobres, aos estrangeiros
e aos marginalizados. Não os tratava como categorias orçamentais. Sentava-se à
mesa com eles.
A
tradição cristã tem um nome para quem professa a fé e pratica o contrário:
hipocrisia. E tem, nas suas profundezas doutrinárias, um lugar reservado a quem
acumulou poder e o usou contra os mais frágeis. Não sou eu que o digo — é o
livro que eventualmente têm na mesa de cabeceira.
Como
ateu, poupo-me ao juízo final. Mas o juízo da história é igualmente implacável
— e este, ao contrário do outro, é inevitável.

Sem comentários:
Enviar um comentário