José
Vieira Mendes questiona se a obsessão com Salazar — dois filmes, um estreado,
outro por estrear — faz sentido. Para mim faz. O público será reduzido, é
certo, e não incluirá a gente que suspira pelo ditador com a memória seletiva
de quem esqueceu a miséria do Portugal de então e confunde a “ordem” com o medo
sistemático sobre quem se atrevia a pensar diferente. Mas é precisamente por
essa gente existir que os filmes, os documentários, os livros e as canções são
necessários — não para a converter, que é tarefa inglória, mas para que a
memória não seja monopolizada pela nostalgia.
Os anos
de fascismo foram uma longa noite escura. A formulação é de Sophia de Mello
Breyner Andresen, que sabia do que falava, e a manhã clara a que aludia não foi
oferecida — custou coragem, prisão, exílio e sangue a quem recusou normalizar a
escuridão. Lembrar isto não é arqueologia. É higiene cívica.
Num
momento em que Luís Montenegro anda de braço dado com André Ventura sem
aparentemente perceber o abraço de urso que este lhe aplica, a memória do que o
fascismo foi torna-se mais urgente do que decorativa. O PSD está a ser
lentamente redefinido pela cumplicidade com quem tem no racismo e na xenofobia
o combustível mais evidente do seu projeto político. Montenegro julga usar
Ventura; Ventura sabe que é o contrário.
As
sondagens começam a dar sinais animadores: a maioria dos portugueses não se
revê nessa cumplicidade. Condena o racismo, a xenofobia, a deriva que ameaça um
dos partidos determinantes da democracia pós-25 de Abril. É uma maioria
silenciosa que as próximas eleições terão de traduzir em votos — porque as
maiorias silenciosas que não votam são, na prática, maiorias que abdicam.
Dois
filmes sobre Salazar não mudarão isso sozinhos. Mas fazem parte do mesmo
esforço: o de garantir que a noite seja reconhecível quando regressa — e que
não seja confundida, desta vez, com a ordem.

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