domingo, 14 de junho de 2026

A noite e a manhã

 


José Vieira Mendes questiona se a obsessão com Salazar — dois filmes, um estreado, outro por estrear — faz sentido. Para mim faz. O público será reduzido, é certo, e não incluirá a gente que suspira pelo ditador com a memória seletiva de quem esqueceu a miséria do Portugal de então e confunde a “ordem” com o medo sistemático sobre quem se atrevia a pensar diferente. Mas é precisamente por essa gente existir que os filmes, os documentários, os livros e as canções são necessários — não para a converter, que é tarefa inglória, mas para que a memória não seja monopolizada pela nostalgia.

Os anos de fascismo foram uma longa noite escura. A formulação é de Sophia de Mello Breyner Andresen, que sabia do que falava, e a manhã clara a que aludia não foi oferecida — custou coragem, prisão, exílio e sangue a quem recusou normalizar a escuridão. Lembrar isto não é arqueologia. É higiene cívica.

Num momento em que Luís Montenegro anda de braço dado com André Ventura sem aparentemente perceber o abraço de urso que este lhe aplica, a memória do que o fascismo foi torna-se mais urgente do que decorativa. O PSD está a ser lentamente redefinido pela cumplicidade com quem tem no racismo e na xenofobia o combustível mais evidente do seu projeto político. Montenegro julga usar Ventura; Ventura sabe que é o contrário.

As sondagens começam a dar sinais animadores: a maioria dos portugueses não se revê nessa cumplicidade. Condena o racismo, a xenofobia, a deriva que ameaça um dos partidos determinantes da democracia pós-25 de Abril. É uma maioria silenciosa que as próximas eleições terão de traduzir em votos — porque as maiorias silenciosas que não votam são, na prática, maiorias que abdicam.

Dois filmes sobre Salazar não mudarão isso sozinhos. Mas fazem parte do mesmo esforço: o de garantir que a noite seja reconhecível quando regressa — e que não seja confundida, desta vez, com a ordem.

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