Daniel
Oliveira encontrou o acrónimo certeiro: AD de coligação entre PSD e CDS, EGA
das três letras do Chega. ADEGA. Uma aliança que se bebe em doses cada vez
menos disfarçadas e começa a revelar os efeitos da embriaguez — a que confunde
maioria momentânea de deputados com mandato histórico e transforma uma vitória
eleitoral apertada na justificação para uma governação de direita radical.
A ADEGA
tem programa. Na Lei da Nacionalidade, a guerra aos emigrantes — aqueles que
construíram este país quando ele precisava de braços e agora são tratados como
problema a resolver por quem beneficiou do seu trabalho. Na Prestação Social
Única, a guerra aos pobres — o recorte das prestações sociais embrulhado na
linguagem da racionalização, como se a miséria fosse um excesso burocrático a
corrigir. São duas frentes do mesmo projeto: um país mais estreito, hostil, confortável para quem já tem e mais
duro para quem não tem nada.
Ferro
Rodrigues, que conhece a casa por dentro, deu o conselho que a aritmética
parlamentar justifica: perante tão acintosa aliança, votar contra o próximo
orçamento é o mínimo que a decência política exige à esquerda. Não por prazer
de desestabilizar — por recusa de cumplicidade. Um orçamento é um documento
político, não uma peça técnica neutra, e este orçamento será o da ADEGA: quer
de Ventura, quer de Montenegro, mesmo se este fingir o contrário.
A
embriaguez pelo poder tem a desvantagem de todos os estados alterados: quem a
vive não a reconhece. Montenegro continua a tratar Ventura como parceiro
controlável, como se o abraço de urso fosse um gesto de afeto. Ventura continua
a receber o que quer — das políticas às fotos — sem ceder nada em troca, porque
não precisa de ceder: está a ganhar sem governar, que é a posição mais
confortável da política.
Quem
semeia estes ventos tumultuosos colherá as expectáveis tempestades. A questão é
se a esquerda terá a lucidez e a unidade para que essa colheita aconteça nas
urnas — e não depois, quando o estrago já estiver feito.

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