domingo, 14 de junho de 2026

A ADEGA e os Seus Ventos

 


Daniel Oliveira encontrou o acrónimo certeiro: AD de coligação entre PSD e CDS, EGA das três letras do Chega. ADEGA. Uma aliança que se bebe em doses cada vez menos disfarçadas e começa a revelar os efeitos da embriaguez — a que confunde maioria momentânea de deputados com mandato histórico e transforma uma vitória eleitoral apertada na justificação para uma governação de direita radical.

A ADEGA tem programa. Na Lei da Nacionalidade, a guerra aos emigrantes — aqueles que construíram este país quando ele precisava de braços e agora são tratados como problema a resolver por quem beneficiou do seu trabalho. Na Prestação Social Única, a guerra aos pobres — o recorte das prestações sociais embrulhado na linguagem da racionalização, como se a miséria fosse um excesso burocrático a corrigir. São duas frentes do mesmo projeto: um país mais estreito,  hostil, confortável para quem já tem e mais duro para quem não tem nada.

Ferro Rodrigues, que conhece a casa por dentro, deu o conselho que a aritmética parlamentar justifica: perante tão acintosa aliança, votar contra o próximo orçamento é o mínimo que a decência política exige à esquerda. Não por prazer de desestabilizar — por recusa de cumplicidade. Um orçamento é um documento político, não uma peça técnica neutra, e este orçamento será o da ADEGA: quer de Ventura, quer de Montenegro, mesmo se este fingir o contrário.

A embriaguez pelo poder tem a desvantagem de todos os estados alterados: quem a vive não a reconhece. Montenegro continua a tratar Ventura como parceiro controlável, como se o abraço de urso fosse um gesto de afeto. Ventura continua a receber o que quer — das políticas às fotos — sem ceder nada em troca, porque não precisa de ceder: está a ganhar sem governar, que é a posição mais confortável da política.

Quem semeia estes ventos tumultuosos colherá as expectáveis tempestades. A questão é se a esquerda terá a lucidez e a unidade para que essa colheita aconteça nas urnas — e não depois, quando o estrago já estiver feito.

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