quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Pior Cego

 


Não há pior cego do que quem não quer ver — o provérbio é antigo e a sua aplicação nunca foi tão generosa em exemplos como agora.

Os prosélitos da Iniciativa Liberal continuam a acenar com os altos salários dos países do norte da Europa como prova de que o liberalismo económico funciona. Esquecem, propositadamente, que esses salários são a herança de décadas de políticas sociais-democratas em que os direitos dos trabalhadores não eram obstáculos ao crescimento mas condições dele. Herança que as próprias direitas do norte tratam de dilapidar, mas ainda resiste o suficiente para servir de argumento a quem prefere a conclusão ao raciocínio.

Ana Mendes Godinho lembrou no Público o que a narrativa contrária produziu quando já foi experimentada: as alterações ao Código do Trabalho de 2012, feitas em nome da modernização e da competitividade, geraram uma taxa de precariedade de 19,5%, que entre os jovens atingiu 60% — doze pontos acima da média europeia. O desemprego jovem escalou para 38,5%, catorze pontos acima da média da União Europeia. O crescimento que a desregulação prometia não apareceu. A precariedade ficou.

Foi a inversão dessas políticas — a aposta nos direitos laborais, no salário mínimo, na redução da precariedade — que produziu os resultados que Montenegro, Sarmento e companhia hoje gostariam de poder replicar. O PIB crescia, as contas estavam certas, o défice controlado. Portugal aparecia nas estatísticas europeias como caso de sucesso. Agora pedem à precarização que faça o que a dignificação do trabalho já demonstrou conseguir — e chamam-lhe modernização.

O pior cego não é o que nasceu sem visão. É o que a tem, fecha os olhos e pede a outros que descrevam o que está à frente.

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