A
manicura da Elza mudou-se com a família para a Beira Alta. Não por amor à serra
nem por nostalgia rural mas por ser o único lugar onde encontrou casa
compatível com o que ela e o marido ganham. O jardineiro que todos os anos
limpa o terreno que recebi de herança escusou-se este ano: está de regresso ao
Brasil.
São dois
casos. Apenas dois. Mas multiplicados pelos milhares de famílias brasileiras,
cabo-verdianas, angolanas, nepalesas que nos últimos meses foram fazendo as
malas em silêncio, sem conferência de imprensa nem declaração ao Jornal das
8, percebe-se o que está em curso: um esvaziamento lento mas consistente
das grandes cidades do litoral, operado não por nenhuma lei de remigração mas
pela mais eficaz das pressões — a impossibilidade económica de ficar.
A
política de habitação deste governo, que dificulta o arrendamento e torna a
compra inacessível a quem se situava na classe média, está a produzir o
resultado que a ADEGA nunca ousaria anunciar em campanha mas que Ventura
certamente contempla com satisfação privada. A xenofobia não precisa de sujar
as mãos quando o mercado faz o trabalho.
Pedro
Marques Lopes confessava há dias conhecer empresários aflitos por não
encontrarem mão-de-obra para fábricas e construtoras. O paradoxo é delicioso na
sua crueldade: muitos desses empresários foram, e continuam a ser,
financiadores do Chega. Pagaram para que os imigrantes fossem tratados como
problema — e agora descobrem que o problema é não os ter. O banho de realidade
aproxima-se e promete ser devastador.
A ADEGA
irá despertar tarde para esta dinâmica, como se acorda sempre tarde para as
consequências do que se semeia com pressa e sem pensar. Quando acordar,
procurará culpados à esquerda — é o reflexo do costume. Mas os imigrantes que
partiram não deixaram endereço de reencaminhamento. Levaram consigo o trabalho,
as rendas pagas, os filhos nas escolas, a manicura de bairro, o jardineiro de
confiança.
Ficou o
discurso. Que não limpa terrenos nem faz unhas.

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