Esta
semana deu protagonismo a dois Brunos, ambos polícias e ambos espelho do mesmo
problema visto de ângulos diferentes.
Bruno
Pinto matou Odair Moniz a tiro, na Cova da Moura, em outubro de 2024. O
tribunal deu como provado que a vítima não tinha faca — a arma branca só
apareceu no local entre vinte a trinta minutos depois da morte, com ADN
inexistente, numa narrativa que os próprios juízes classificaram de
"desprovida de lógica". Mesmo assim, consideraram que houve legítima
defesa, "com excesso de meios", e afastaram qualquer hipótese de
crime de ódio. Resultado: três anos e seis meses, suspensos. O agente pode
voltar à PSP. A decisão cabe à própria PSP julgar-se a si mesma.
Bruno
Gonçalves, chefe da Polícia Municipal de Lisboa e antigo agente da PSP,
liderava o Movimento Armilar Lusitano — um grupo neonazi com armas impressas em
3D, modelos como a FGC-9 e a Not-a-Glock, granadas de morteiro e incendiárias
fabricadas artesanalmente, treinos táticos e um arsenal pensado para
"ações futuras contra o Estado". A acusação do DCIAP revela algo
notável: entre os alvos vigiados estava a casa de Luís Montenegro, com um plano
que incluía disparar uma granada por uma janela. O grupo não escolhia vítimas
pela cor política — escolhia-as pelo facto de representarem o Estado que
odiava.
Dois
Brunos, duas medidas. Um matou um homem desarmado e ouviu o seu superior
elogiá-lo. O outro organizava uma milícia armada com intenção declarada de
atacar instituições e pessoas, incluindo o próprio primeiro-ministro, e só não
avançou porque lhe faltaram meios — não vontade.
O que
ambos os casos revelam, em conjunto, é mais perturbador do que cada um
isoladamente: há, dentro das forças policiais portuguesas, uma tolerância
estrutural à violência quando exercida contra quem já é vulnerável, e uma
permeabilidade preocupante à ideologia mais extrema quando se veste de
uniforme. Não são fenómenos isolados de "maçãs podres" mas sintomas
de uma instituição que recruta, forma e protege sem perguntar o suficiente
sobre quem está a armar.
A justiça
que suspende a pena de quem mata e investiga durante anos quem planeia matar não
está a falhar por acidente. Está a revelar o que sempre esteve lá.

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