Não
merecem, Montenegro e Hugo Soares, a deferência que José Luís Carneiro lhes
concedeu na semana transata. Depois de meses a tratar o PS com a sobranceria de
quem nem responde a cartas, depois de Hugo Soares ironizar sobre socialistas
"borreguistas" e Montenegro fingir que as oposições vivem de
retórica, a cedência socialista para viabilizar a Prestação Social Única tinha
tudo para ser, em vez disso, um manguito bem dirigido. Há tempo de sobra
acumulado para o justificar.
Mas os
600 milhões de euros do PRR, que Portugal perderia em definitivo se a PSU não
entrasse em vigor até agosto, pesaram mais do que o ressentimento acumulado. E
pesaram bem: o PS conseguiu retirar do diploma o trabalho social obrigatório,
eliminar o canal de denúncias que poria pobres a fiscalizar pobres, e garantir
maior escrutínio parlamentar na regulamentação. Carneiro tem razão quando diz
que a prioridade foram "os mais vulneráveis", não o cálculo
partidário — e a prova é que quem ficou de fora, isolado e em contradição com a
sua própria retórica anti-subsídios, foi precisamente o Chega. Hugo Soares
resumiu com gosto: Ventura "voltou a borregar" na hora da verdade.
O
interesse dos portugueses justificou, portanto, a cedência. Seiscentos milhões
de euros não se desperdiçam por orgulho ferido, e a PSU, mal ou bem negociada,
protege quem mais precisa de proteção.
Mas o
mesmo Carneiro, horas depois de fechar o acordo, lembrou que o Governo continua
"sem agenda para a economia" — e a frase não é retórica vazia. O FMI
já reviu o crescimento português em baixa para 1,7%, a inflação ameaça os 3,4%
em 2026, e o saldo orçamental que o Governo apresenta como nulo esconde uma
postura expansionista que o próprio Fundo classifica como risco inflacionário.
O défice que há-de surgir, e surgirá, terá assinatura única: a do Governo que
multiplicou pacotes e contraiu compromissos sem garantir o financiamento que os
sustenta.
Quando
esse momento chegar — e o próximo Orçamento será o palco —, a deferência acaba.
Ceder perante a PSU foi proteger os mais frágeis. Ceder perante um orçamento
desenhado para tapar buracos que o próprio Governo escavou seria cumplicidade.
Há diferença entre servir o país e servir quem o desgovernou.

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