segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Mão Estendida e o Manguito Pendente

 


Não merecem, Montenegro e Hugo Soares, a deferência que José Luís Carneiro lhes concedeu na semana transata. Depois de meses a tratar o PS com a sobranceria de quem nem responde a cartas, depois de Hugo Soares ironizar sobre socialistas "borreguistas" e Montenegro fingir que as oposições vivem de retórica, a cedência socialista para viabilizar a Prestação Social Única tinha tudo para ser, em vez disso, um manguito bem dirigido. Há tempo de sobra acumulado para o justificar.

Mas os 600 milhões de euros do PRR, que Portugal perderia em definitivo se a PSU não entrasse em vigor até agosto, pesaram mais do que o ressentimento acumulado. E pesaram bem: o PS conseguiu retirar do diploma o trabalho social obrigatório, eliminar o canal de denúncias que poria pobres a fiscalizar pobres, e garantir maior escrutínio parlamentar na regulamentação. Carneiro tem razão quando diz que a prioridade foram "os mais vulneráveis", não o cálculo partidário — e a prova é que quem ficou de fora, isolado e em contradição com a sua própria retórica anti-subsídios, foi precisamente o Chega. Hugo Soares resumiu com gosto: Ventura "voltou a borregar" na hora da verdade.

O interesse dos portugueses justificou, portanto, a cedência. Seiscentos milhões de euros não se desperdiçam por orgulho ferido, e a PSU, mal ou bem negociada, protege quem mais precisa de proteção.

Mas o mesmo Carneiro, horas depois de fechar o acordo, lembrou que o Governo continua "sem agenda para a economia" — e a frase não é retórica vazia. O FMI já reviu o crescimento português em baixa para 1,7%, a inflação ameaça os 3,4% em 2026, e o saldo orçamental que o Governo apresenta como nulo esconde uma postura expansionista que o próprio Fundo classifica como risco inflacionário. O défice que há-de surgir, e surgirá, terá assinatura única: a do Governo que multiplicou pacotes e contraiu compromissos sem garantir o financiamento que os sustenta.

Quando esse momento chegar — e o próximo Orçamento será o palco —, a deferência acaba. Ceder perante a PSU foi proteger os mais frágeis. Ceder perante um orçamento desenhado para tapar buracos que o próprio Governo escavou seria cumplicidade. Há diferença entre servir o país e servir quem o desgovernou.

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