segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A falta de legitimidade de uns e os alertas de outros

1. Porque as direitas andam a arvorar-se em campeões da reivindicação do desagravamento fiscal a todos os contribuintes, convém ter sempre presente, que foram elas quem, em 2011, aumentaram o IVA sobre a eletricidade e o gás consumidos pelas famílias, passando-o de 6% para 23%. No ano seguinte passaram o IVA da restauração de 13 para 23%. E 2013 foi o ano do colossal aumento do IRS com a redução dos escalões de oito para cinco, o aumento das taxas em cada um deles e a criação da sobretaxa. Tal significou que, comparativamente com o ano anterior os portugueses pagaram à Autoridade Tributária mais 3,3 milhões de euros do que no ano anterior.
É preciso topete para que, quem assumiu um tal passivo junto dos portugueses, se arme agora em virgem virtuosa e pretenda receber louros de políticas que, ao longo dos últimos dois anos, sempre procurou contrariar.
2. Os resultados económicos, financeiros e sociais da governação da maioria de esquerda têm sido muito positivos e motivado reações animadoras das mais diversas instâncias internacionais, mesmo daquelas (FMI, agências de rating, Comissão Europeia, etc.), que alimentam uma antipatia ideológica exacerbada a seu respeito. 
Serve isto de combustível ao nosso inveterado otimismo? Manifestamente não como o atestam alguns grilos falantes que, de uma perspetiva de esquerda, anotam os obstáculos à sustentabilidade do atual crescimento económico acima do que se verifica na média europeia. Um deles é Ricardo Paes Mamede, que merece ser aqui citado no que escreveu no blogue «Ladrões de Bicicletas», mesmo fazendo-o com o respeito do antigo Acordo Ortográfico, que temos aqui dado como extinto neste blogue. Assim, apesar dos cês antes dos tês de algumas palavras, aqui fica um texto lúcido sobre a atual situação do país, por quanto merece ser tido em conta.
“Isto não significa porém que os problemas estruturais que afectam a economia portuguesa estejam resolvidos. Mantém-se uma estrutura produtiva assente em actividades pouco intensivas em conhecimento e muitos exposta à concorrência internacional, um tecido empresarial com debilidades significativas nas capacidades de gestão estratégica, uma população activa pouco qualificada, uma estrutura demográfica desfavorável ao crescimento económico, custos elevados e/ou funcionamento ineficiente de serviços fundamentais para as actividades económicas (energia, financiamento, justiça), um elevado endividamento dos sectores privado e público (que é hoje muito superior ao que era há uma década). A isto acresce a participação numa zona monetária com lacunas fundamentais e que coloca as economias mais frágeis numa posição particularmente vulnerável a crises financeiras internacionais, e cujas regras orçamentais restringem fortemente a capacidade dos Estados para combater as recessões económicas com os poucos instrumentos que têm ao seu dispor.” 


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