segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Um planeta liberto dos seus deuses

Reiteradas vezes tenho aqui feito “profissão de fé” de ateu. Não acredito em qualquer sentido de transcendência, nem em nada que justifique ficar-me pelas meias tintas dos agnósticos. Aquilo que alguns atribuem a um qualquer deus acaba, mais tarde ou mais cedo, por ganhar uma explicação científica e , como tal, restringindo-se ao funcionamento da matéria. E sinto-me muito bem acompanhado nestas convicções por gente que muito admiro como Christopher Hitchens, Richard Dawkins, Philip Roth, Stephen Hawking ou Woody Allen.
É por isso que faz todo o sentido a reação da jovem estudante Chloé Geneste, quando os jornalistas a questionaram, sobre a solidariedade internacional para com as vítimas dos recentes atentados em Paris: “Digam que estão a pensar em nós, não digam que estão a rezar por nós, porque é por aí que começam as complicações”.
Atualmente não são só os psicopatas do Daesh a chacinarem quem não segue a sua singular forma de ver o Islão.  Noutras partes do mundo há povos perseguidos, torturados e assassinados só por não seguirem os credos maioritários dos sítios onde vivem. Por exemplo os tamiles foram mortos ou expulsos do Sri Lanka pelos hindus. Os muçulmanos  Rohingyas do Myanmar estão a ser mortos à fome pela populaça agitada por monges budistas e nem Aung San Suu Ky lhes promete valer apesar da vitória eleitoral com uma esmagadora maioria absoluta. E há igualmente muçulmanos a serem abatidos por hindus na Índia.
Não esqueço, igualmente, o sentido de «bondade» dos católicos nos tempos da Inquisição ou, mais recentemente, na América do Sul, quando grande parte do seu clero foi conivente, senão menos cúmplice, com as ditaduras militares.
Estou, pois, com  o que dizia José Saramago quando defendia a mesma perspetiva ateia, que é a minha: “Não suporto a maldade e a hipocrisia que cresceram à sombra não só do cristianismo, mas das religiões em geral, que nunca serviram para unir os homens”.
A verdade é que a Humanidade viveria muito melhor sem a crença em qualquer deus...

domingo, 15 de novembro de 2015

Idiota, diz-se ele!

Uns dias atrás, durante uma ação de campanha para as próximas eleições presidenciais, tive a oportunidade de debater durante um bom bocado com um jovem do PSD, ufano da sua recente participação na Universidade de Verão do seu partido em Castelo de Vide, mas disposto a ouvir argumentação capaz de lhe fazer vacilar as convicções.
O que ele queria saber era como António Costa arranjará dinheiro para cumprir as mais de setenta “medidas simpáticas” inseridas nos acordos com os partidos à sua esquerda.
Valendo-se dos pergaminhos da escola onde está matriculado - o ISCAL - ele afiançava impossível o sucesso das projeções macroeconómicas do PS no futuro governo.
Seja porque não sou suficientemente bom como catequizador, seja porque o potencial prosélito estava firme nas suas convicções, nenhum de nós saiu das suas posições iniciais. Mas, a concluir, perguntei-lhe:
- Imaginemos que nos encontramos aqui mesmo, daqui a um ano, em 6 de novembro de 2016, e já podemos constatar que você não tinha razão: que os acordos com os outros partidos da esquerda foram cumpridos e António Costa prepara-se para acabar o primeiro ano de governo cumprindo os limites impostos pelo Tratado Orçamental! Nessa situação, você dá a mão à palmatória em como se enganou?
- Não! - respondeu-me ele - Se isso for assim poderei sempre dizer que se tratou de um prazo muito curto de execução do programa de governo. Que precisa de ser analisado a um prazo mais alargado!
- Então quanto: daqui a dois? Daqui a quatro anos?
Ele despediu-se sem me dar a resposta, que também dele já não esperava.
Voltei a lembrar-me deste interlocutor ao ler a crónica de Miguel Sousa Tavares no «Expresso» desta semana. Porque se concordo no diagnóstico feito a propósito das causas e consequências do chumbo do PEC IV, e até subscrevo grande parte do que critica ao governo de passos coelho, já estou inteiramente em desacordo quanto ao seu veredito sobre quanto vem sendo feito por António Costa ou Mário Centeno. Muito embora, seja mais do que uma ironia - embora ele pretenda o contrário! - o que diz sobre a sua própria análise: “a política tem subtilezas que não estão ao alcance do comum dos idiotas, como eu, mas que já não escapam a Mário Centeno.”
Se Miguel Sousa Tavares se reconhece, merecidamente, como idiota quem somos nós para o desdizer? Porque a realidade é esta: muitos dos que contestam o programa do futuro governo socialista, ou o fazem por teimosia contra eventuais factos que ponham em xeque os seus argumentos, ou porque não têm a capacidade para entender as oportunidades abertas com um novo rumo político, intimidando-se em demasia com os inevitáveis riscos a contornar no percurso.
Sobre o cronista do semanário de Balsemão ficamos na dúvida: será o seu ódio visceral a tudo quanto signifique Estado, que o leva a atacar António Costa até em questões de carácter, ou é tão-só o medo de ver desmentida a forma de ver o mundo, que deixou cristalizar-se dentro de si? 

sábado, 14 de novembro de 2015

Os longos tentáculos do terrorismo

Os atentados de Paris andam a propiciar o que de pior se alberga no imaginário coletivo ocidental. O lado troglodita de uma parte da população, intrinsecamente xenófoba, já andam a incendiar as redes sociais com exigências criminosas.
Que se fechem as fronteiras, propõem uns, sem quererem saber do facto de estarem dentro delas os que se preparam para os novos atentados.
Propõem outros que  se expulsem os refugiados por, a seu coberto, virem muitos terroristas, quando a maioria dos que buscam socorro na Europa procuram escapar precisamente do mesmo cenário de terror conhecido em Paris.
Com toda a razão Bashar al-Assad lembra as grandes responsabilidades francesas em particular, e ocidentais em geral, por quanto está a acontecer no Médio Oriente.
Das tão celebradas primaveras árabes, entusiasticamente recebidas pelos meios de comunicação social de toda a Europa, só a Tunísia deu origem a algo parecido com o pretendido por quantos tinham lutado na rua por uma nova realidade. Mas, ainda assim, sujeita a atentados como os de há uns meses atrás.
Em contraponto, o que está a acontecer na Líbia, no Egito, no Iémen ou, sobretudo, na Síria, mais não é do que redundou da ilusão de george dabliú em conseguir «democratizar» os países da região. As invasões do Afeganistão e do Iraque, logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, foram o destapar de uma caixa de Pandora, que agora ninguém parece em condições de conseguir voltar a fechar.
Porque se trata de uma verdadeira guerra entre os valores ocidentais e uma forma específica de fascismo, ela só poderá ser vencida quando os países financiadores do terrorismo - a Arábia Saudita e o Qatar - deixarem a condição de aliados ocidentais para serem confrontados com a sua condição de ditaduras tão ou mais execráveis do que o eram as de Saddam Hussein, Kadhafi ou Assad. Não para serem democratizados à força, mas objeto de boicotes políticos e económicos, que ponham em causa a sobrevivência dos seus regimes totalitários.
E, tão ou mais importante do que essa alteração de geoestratégia, seria fundamental que as democracias encontrassem formas de ultrapassar os seus constrangimentos austeritários, apostando seriamente no desenvolvimento das respetivas sociedades através da requalificação das pessoas. O que empurra muitos jovens europeus para o jiadismo é a negação de qualquer esperança quanto a um futuro minimamente decente, tornando preferível as utopias prometidas para o Além por ilusões religiosas absurdas.
Como populações sujeitas a atentados deste género olhamos para um lado e vemos os interesses relacionados com as indústrias de guerra e do petróleo a beneficiarem com este statu quo. Olhamos para o outro e encontramos jovens sem emprego e sem educação para os quais a aventura jiadista é a possibilidade de viverem a sério as “aventuras” ensaiadas nas suas play stations. Os verdadeiros inimigos não são só os segundos: os primeiros, mesmo no aconchego das suas clandestinas operações, são tão ou mais perigosos do que os psicopatas a quem direta ou indiretamente financiam...

E ponto final...

A direita anda a repetir a mesma estratégia que lhe garantiu algum sucesso na campanha eleitoral: pegar nos documentos do PS (neste caso os acordos firmados com o BE, o PCP e o PEV) para os minimizar e reduzi-los ao seu conteúdo mais específico.
Com o estudo macroeconómico e o subsequente programa do PS, conseguiram não só iludir o facto de não terem formulado algo de tão rigoroso e profundo, mas também levar para a comunicação social um conjunto de deturpações e manipulações sobre o que lá se dizia. Nesse sentido foram bem sucedidos, porque a estratégia do PS, que fazia de tais documentos a forma de atacar o inexistente programa do PSD/CDS, de que se conhecia tão só o que significara nos últimos quatro anos,  virou-se do avesso.
Aquilo que alguns apontaram como um erro estratégico da campanha socialista foi sobretudo a conjugação de interesses políticos e sociais com impacto mediático, muitíssimo bem preparada pelos marketeers da direita e que não existiu forma de contrariar. Se António Costa começou por não lhe dar resposta, quando o fez nunca conseguiu que as televisões, as rádios e os jornais lhe dessem a importância que se justificava.
Mas agora a direita está com menos armas para reverter a seu favor a evolução do que aconteceu politicamente com os acordos entre os partidos de esquerda. Bem pode dizer que são papéis sem conteúdo justificativo da designação de «acordos» ou incitar cavaco silva a exigir mais «condições» - nada disso consegue travar a realidade de 123 deputados de um lado da trincheira e só 107 do outro.
Não há campanha mediática que consiga dar volta a esse facto. Nem ao que se traduz por acordos, que vão muito além do que foi traduzido em palavras coassinadas: os quatro partidos parlamentares não querem que prossiga esta política austericida. E ponto final...

O Catastrófico

À ridícula “disponibilidade” de passos coelho em rever a Constituição, facilitando a organização de eleições antecipadas a curto prazo, respondeu, - e muito bem! - o coronel Vasco Lourenço com a proposta de demissão coerciva de cavaco silva por nunca ter dado mostras de garantir o regular funcionamento das instituições nos dois mandatos e, até, ter tomado, e andar a repeti-lo!, decisões de contornos manifestamente facciosos.
É nessa mesma linha de comportamento, que se situa a demora em indigitar António Costa para formar governo, mormente com a inconcebível viagem à Madeira, reveladora de busca porfiada de uma situação de vazio e incerteza, capaz de dar aos mercados o desejado ensejo de reagirem negativamente.
Ontem vimos desfilar por Belém um conjunto de associações patronais e aparentadas, todas elas alinhadas no discurso a posteriori perante os jornalistas: que se sentem assustadas perante a iminência de um governo de esquerda.
Nalguns casos esses “representantes da sociedade civil”, ao gosto do anfitrião, metiam susto ao susto, com o seu aspeto de zombies acabados de desenterrar da cova (caso de ferraz da costa!).
Se ainda julgávamos que o balanço final dos mandatos de cavaco silva seria mau, ele bem se esforça por o agravar para uma qualificação ainda mais depreciativa. Como se insatisfeito por ficar na História como cavaco, o «Medíocre», não se contentasse com cognome menos enfático do que cavaco, o «Catastrófico».

Fascismo Nunca Mais

Não existem palavras suficientemente fortes para exprimir a indignação do que aconteceu a noite passada em Paris. A transferência para o cenário francês dos horrores já conhecidos nas zonas iraquianas e sírias dominadas pelo daesh impressiona, porque geograficamente mais próxima de nós do que quando vimos gente degolada ou sumariamente fuzilada em nome de um qualquer deus. E, como perante carnificinas assim, sentimo-nos chocados por nos sentimos intimamente ameaçados pela possibilidade de virmos a ser igualmente vítimas de algo assim, o facto de imaginarmos portugueses entre os que ficaram tombados na plateia ou nos balcões do Bataclan tenderá a apertar-nos, o nó na garganta perante tais notícias.
O século XX trouxe-nos o estupor perante a força bruta dos que, alegando privativas virtudes, consideraram-se legítimos carrascos dos supostos pecados alheios. Aquilo a que se chamou fascismo, mesmo que travestido de outras designações como as de nazismo, salazarismo, franquismo e outros ismos, vai-se “modernizando” de diversas formas nos nossos dias. Pode assumir forma menos maligna, como sucede hoje na Hungria de Orban ou na Turquia de Erdogan, mas revela-se na sua genuína brutalidade, quando se trata do comportamento do daesh.
Por isso mesmo, justifica-se a atualidade da palavra de ordem: Fascismo Nunca Mais! Porque o que está em causa é a necessidade de impor a Democracia aos que a querem destruir. E essa é uma guerra que, não só nunca acaba, como deverá ser incrementada através de uma maior exigência quotidiana com a sua afirmação na sociedade em que vivemos…

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Água-pé ou jeropiga a mais?

Estamos a viver tempos assaz interessantes! Veja-se o dia seguinte ao são martinho, em que apareceu tanta gente da direita a dizer disparates,  que nos criou sérias dúvidas quanto à possibilidade de terem abusado  na jeropiga ou na água-pé.
A manhã começou animada, com as redes sociais em polvorosa por causa das afirmações parvas proferidas pelo arroja júnior no Porto Canal.  Se o progenitor já se distinguia pela inépcia dos seus argumentos, o rebento parece querer ultrapassá-lo em basbaquice.
Seguiram-se as confederações patronais a rivalizarem entre si quanto ao que de mais desaforado pudessem dizer, ganhando a dos agricultores com o despautério de proporem a realização de tantas eleições antecipadas quantas as necessárias para reconduzir a direita ao poder.
Depois foi passos coelho com a atoleimada proposta de revisão constitucional, que possibilitasse ir ao encontro do pretendido pelos homens da CAP. Mas, “ingenuamente”, perguntava Pedro Marques Lopes com justa pertinência: se andam sempre a gabar-se de terem ganho as eleições, para que querem outras?
A noite ainda teria mais motivos de interesse, quando paulo rangel - hoje sem estatura para levar um par de estalos - virou-se para João Galamba num debate televisivo e disse-lhe para crescer e aparecer.  O ainda deputado europeu do PSD tem-se revelado, semana após semana, um tal erro de casting, que deveria haver quem tivesse a compaixão de o retirar do foco dos holofotes. Porque cada cavadela que dá, é cada minhoca que sai do buraco…
A cereja em cima do bolo foi, porém, a assinatura do acordo da TAP no maior dos recatos, comprovando-se a incomodidade dos protagonistas em avançarem com uma farsa, que sabem ilegítima, ilegal e inconstitucional.
Gostaria de ver a Assembleia da República aprovar comissões de inquérito parlamentar aos negócios com os Estaleiros de Viana e com a TAP, quer pela sinuosidade de que se revestiram, quer pelos timings escolhidos para a sua conclusão.
Um trabalho sério e aprofundado é capaz de se traduzir num acervo de conclusões justificativas de envio ao ministério público. Conquanto ele deixe de se revelar tão parcial, como o tem demonstrado nos últimos anos, em que o seu alvo parece sempre apontado para um dos lados do espectro político.
Já aguardo por novos episódios de uma novela em que a direita revela uma enorme dose de desespero e, placidamente, António Costa vai preparando o momento de lhe ser dada a entrada triunfal em cena. Com cavaco a visitar as cagarras, temos garantidas mais cenas adequadas para uma autêntica ópera bufa.
***
Tardou, mas aí está o governo sionista em pânico com as novas regras da Comissão Europeia quanto à obrigatoriedade da identificação da origem dos produtos provenientes dos colonatos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
A menção “colonato” passa a ser obrigatória, mesmo que os produtores não a incluam originalmente. O que facilitará o boicote à atividade económica dos setores mais ultrarreacionários em quem Netanyahu fundamenta o seu poder.
É com decisões deste tipo, que se poderão criar as condições para a implementação do princípio da existência do Estado Palestiniano nos territórios ocupados ilegalmente desde 1967. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O direito à morte assistida

Uma das características, que mais me irrita na direita é a vocação para querer impor aos outros - aos que não têm o seu código de valores - aquilo que pensam. Nesse sentido essa mesma direita - representada nos partidos que a compõem, mas também pela generalidade do clero nacional! - continua a ter nos genes  algo do comportamento inquisitorial, que lançou tanta gente nas fogueiras da praça de São Domingos, quando a grande maioria da população se tinha de submeter à vontade inquestionável de muito poucos.
Vem isto a propósito do lançamento de um movimento cívico apostado em possibilitar a morte assistida a quem dela precisa. Pessoalmente agradecerei muito a quem me liberte do sofrimento no dia em que me sentir demasiado condicionado na liberdade de movimentos pelas dores, que me venham a afetar ou pela iminente progressão da senilidade.
Gosto muito de viver, mas com a qualidade de poder usufruir do que gosto, porque detestaria ser mais um daqueles zombies que enchem os armazéns de velhos, que são os lares da Terceira Idade.
Que fique bem claro, para que não haja confusões: não se trata de promover a eugenia, mas tão-só a possibilidade de dar a quem considera adequado o momento para se despedir dos seus ainda com a noção de o estar a fazer com a emoção serena da despedida. Porque esqueçam-se os que apontam para a “qualidade dos cuidados paliativos”. Viver não é apenas ver reduzido o sofrimento, é sobretudo, ter ainda a capacidade para descobrir coisas novas todos os dias e partilhá-las com quem se ama.
Depois de ganhas as batalhas de outras exigências indevidamente classificadas de “fraturantes” - pois tratam-se tão-só de direitos humanos! - é altura de abrir a sociedade portuguesa a mais essa possibilidade de cada um dispor de si mesmo, até quanto à hora e dia da própria morte...

Uma alegria interior

Sente-se que a direita  está muito exaltada, bastando ouvir os deputados da coligação, a maioria dos “comentadores” televisivos, sem esquecer a tropa fandanga dos participantes nos fóruns televisivos e radiofónicos de “opinião pública”. E ouve-se tudo, desde as teorias num sentido (“onde se vai arranjar dinheiro para pagar tanta benesse?), até às de sentido contrário (“afinal eles dão aos mais pobres menos do que ‘nós’ lhes iríamos dar”).
No fundo reina o total desnorte, com uns bem conscientes  dos perigos de um governo bem sucedido à esquerda - equivalendo-lhes a uma longa travessia no deserto! - até outros, manifestamente néscios, a confessarem o medo até de terem medo do que desconhecem.
Se se tratasse de um jogo de futebol seria algo do género de onze baratas tontas a correrem o campo em todos os sentidos sem conseguirem ficar com a bola, e, do outro lado, a equipa de António Costa a avançar serenamente para a baliza contrária, para lhes pespegar com uma goleada.
É por isso mesmo que compreendi muito bem as palavras de Isabel Moreira na entrevista ao «Inferno» do Canal Q: a alegria de anteontem até nem justificou grandes sorrisos, nem pulos no ar. A satisfação com o derrube do governo de passos coelho foi interiorizada com a sensação de se tratar apenas de um novo primeiro dia do resto das nossas vidas. E em que, se à esquerda soubermos fazer (quase) tudo bem, estaremos perante uma revolução mais profunda do que as ocorridas com as pretéritas, surgidas de um momento para o outro e logo cerceadas pela eficácia dos contragolpes dos derrotados.
É contra esses que nos deveremos precaver, condenando-os tão prolongadamente quanto possível ao desnorte de que andam a dar tão sobejas provas. 

http://videos.sapo.pt/8o1MDeCyWNYdOH1eQh0S

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quantas vezes somos capazes de tentar?

O 25 de abril apanhou-me, quando estava no primeiro ano da Escola Náutica.
Na época quase todos os nossos professores eram oficiais da Marinha de Guerra, que tinham uma supervisão quase total sobre a formação destinada aos que iriam encarregar-se dos mais de duzentos navios então existentes na marinha mercante nacional.
Uma das memórias, que melhor guardo desse tempo foi o estado jubilatório em que encontrámos o nosso professor de matemática numa manhã do final de abril: não cabia em si de contente pelas perspetivas abertas pela revolução. E justificava:
- É verdadeiramente encantador, que acabemos com uma sociedade onde são sempre os mesmos quem mandam e o poder caberá a todos nós!
Nunca mais esqueci essas palavras desconfiando de como terá ficado desiludido, um ano e meio depois, quando a festa acabou!
É este tipo de memórias, que me relativizam hoje o contentamento com o sucedido ontem, mesmo alegrando-me a ideia de, antes de soprar as sessenta velas no bolo de aniversário, ver cumprido o meu anseio de sempre: a convergência de vontades nas esquerdas com representação parlamentar.
As governações de direita têm coincidido com os tempos menos felizes da minha já longa vida. Sobretudo por uma conclusão empírica, que  quase poderia dar como certa: consoante o tipo de governos, que temos, também assim constatamos uma tendência coletiva para os mimetizar. Com líderes de direita as pessoas à nossa volta tendem a fechar-se nas conchas do seu individualismo e delas exalarem o que de pior têm, sobretudo quanto ao seu egoísmo e falta de solidariedade para com as dificuldades alheias. O ambiente coletivo costuma ficar soturno, se não mesmo tão negro quanto a tristeza.
Pelo contrário, quando é a esquerda a tomar as rédeas do poder tendem-se a potenciar as redes solidárias  e esse mesmo ambiente torna-se mais alegre e colorido.
Num somos coagidos a abandonarmo-nos ao conformismo de termos vivido acima das nossas possibilidades e merecermos o castigo por isso. No outro recuperamos a esperança de serem possíveis tempos mais bonançosos.
O dia de ontem, 10 de novembro, abre o ciclo da esperança reconquistada, por muito que o inquilino de Belém ainda teime em fazer má vizinhança.
E por isso foi adequada a celebração que se seguiu. No nosso caso fomos até ao Restaurante O Bispo (Seixal) onde se anda a viver um oportuno ciclo dedicado a José Mário Branco, sobre quem se projetou o documentário «Mudar de Vida». E, de facto, do que precisamos é mesmo dessa mudança de vida, porfiando as vezes necessárias para que tenhamos uma sociedade mais justa, desenvolvida e igualitária.
No tema que dá título ao filme, o cantautor lembra o caso de Ehrlich, que anunciou a cura da sífilis depois de mais de novecentas tentativas para o conseguir.
- E nós, quantas vezes já tentámos? - pergunta Zé Mário Branco.
- Novecentas? … Seiscentas? … Dez?
Quantas vezes iremos ainda tentar que a sociedade em que vivemos se ajuste ao sentido utópico que para ela projetamos?
O novo governo, resultante da maioria da esquerda parlamentar, será mais uma tentativa. Será a certa, aquela que nos conduzirá ao sucesso pretendido?
Oxalá! Por que se não o for, lá temos de voltar a tentar. Para cumprir o que Beckett propunha: falhar, mas falhar sempre melhor! 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A soma dos seus rancores

O que tem sido delicioso de assistir nestes dias é a capacidade de António Costa para desconcertar as estratégias da direita.
Hoje, tão-só passos acabou a sua intervenção inicial no parlamento, e logo hugo soares pediu a listagem dos inscritos nas intervenções para perguntas a fim de aferir a altura em que as bancadas minoritárias poderiam assestar melhor as miras sobre António Costa.
Não é que, depois, o tivessem poupado, mas encontraram sempre um muro impenetrável por onde nunca conseguiram verdadeiramente atingir o seu alvo.
Há muito tempo que António Costa se vem revelando um excelente estratega, prevendo qual será o movimento seguinte do adversário e antecipando-o com grande eficácia. A única altura em que essa capacidade de antecipação não vingou foi quando apostou na apresentação de um rigoroso estudo macroeconómico para justificar o programa do PS, certo de não existir na direita quem pudesse realizar um equivalente de qualidade aproximada.
Onde António Costa se enganou nesse momento - que se revelou determinante para não conseguir o resultado eleitoral, que merecia! - foi no facto de, logo de seguida ninguém mais parecer interessado no programa da direita ou sequer no balanço das malfeitorias por ela praticadas nos quatro anos anteriores. Habilidade reconhecidamente bem sucedida dos marketeers da direita, que conseguiram pôr a grande maioria dos comentadores televisivos a ver naquele estudo aquilo que não estava lá, e no programa uma caricatura do que nele se propunha.
A lição terá sido bem aprendida: por isso mesmo, durante as negociações com os três partidos com que viria a assinar o acordo, pouco dele transpirou para desespero desses mesmos comentadores e dos políticos de direita, que deles se servem como altifalantes.
Azar o da direita, que chegou à discussão do seu programa de governo sem conseguir vislumbrar seriamente o conteúdo do que lhe servirá de alternativa. Lançam bitaites do tipo: «onde irão buscar dinheiro para tanta promessa?» e, porque nunca teriam imaginação nem competência para tal, repetem até à náusea a impossibilidade disso ser possível.
A decisão de António Costa em só falar hoje, no segundo dia da discussão do programa de governo, foi mais uma machadada na estratégia pensada pelos grupos parlamentares do PSD e do CDS para criarem a zizania pretendida.
Impassível, ele ia assistindo às provocações, até aos insultos, com que alguns dos provocadores o quiseram exasperar. Devolvendo-os à sua impotente raiva.
Os deputados da direita irão vender cara a pele da sua derrota eleitoral em 4 de outubro (porque, se tivesse sido uma vitória, estariam agora a garantir a desgovernação!), mas conhecem muito mal o futuro primeiro-ministro. Ele tem a capacidade para reunir as melhores competências disponíveis para cumprir o programa com que se irá comprometer para os próximos quatro anos. E a esquerda no seu todo sairá superlativamente vitoriosa se reduzir a direita à mera soma dos seus rancores...

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Os dissabores de Mourinho e de passos coelho

Sempre tive a nítida perceção de existir uma correspondência metafórica entre o que se passa na política e no futebol. Por isso olho para a situação de José Mourinho no Chelsea e para a de passos coelho como líder do PSD e  é irresistível estabelecer uma comparação pertinente.
Comecemos pelo treinador do clube inglês que, após sucessivas derrotas na Liga inglesa, está a aproximar-se perigosamente da linha de água abaixo da qual ficam os que descem de divisão.
Uma das imagens que, há muito sinto colar-se a José Mourinho é a revelada por um amigo meu, que terá assistido a uma cena paradigmática do seu estilo, quando ainda estava no F.C. Porto.
Um dia, quando esse amigo estava no Hotel da quinta das Lágrimas em Coimbra, assistiu a um ruidoso banzé dos jogadores portistas no floyer enquanto esperavam pelo autocarro para os levar ao estádio onde defrontariam a Académica.
O incómodo ainda continuou quando surgiu Pinto da Costa a descer as escadas, mas logo se silenciou quando, atrás dele, apareceu Mourinho.
Enquanto se aproximava, ele limitou-se a fazer um movimento de cabeça para o grupo, ordenando-lhe que o seguisse, e, disciplinados, em perfeito silêncio, os jogadores enfileiraram atrás dele a caminho do veículo entretanto estacionado à porta.
Pode-se dizer que passos coelho andou a conseguir este tipo de liderança nos últimos quatro anos. Valendo-se da maioria absoluta garantida pelos eleitores em 2011, ele meteu paulo portas no saco e tratou a oposição, particularmente o PS, com a maior das arrogâncias. Não admira que, hoje, sinta, o devido pagamento dessa jactância. E sabemos bem o que sucede a quem perde o poder absoluto: abandonado pelos seus, arrisca-se a conhecer os dissabores hoje sentidos por Mourinho a quem os seus jogadores estão a cuidar de “fazer a folha”.
Por isso será extremamente curioso assistir ao seu desempenho enquanto líder da oposição:  perdida a aura do poder, tudo se conjuga para que, nos próximos tempos, tudo lhe corra mal...

Tão pouca dinamite para tanto rastilho

A coligação pafista promete retomar a campanha eleitoral nos próximos dias ainda antes de sequer se ver escorraçada da tutela dos ministérios. É tanta a pressa em realimentar a emurchecida chama da “vitória”, que promete fazer tanto ruído quanto puder.
Por mim julgo que terá uma surpresa semelhante à de Francisco Assis quando julgou arrastar multidões para a Mealhada para se sentir confortado na sua oposição à direção do PS e se viu reduzido a falar para si e para os indefetíveis acólitos. O primeiro ensaio de uma manifestação da direita ultramontana no Porto imitou o fracasso da semana passada, quando os antigos organizadores das manifestações contra o aborto não conseguiram braços suficientes para unir as sedes do PS, do PSD e do CDS à Assembleia da República.
É por isso que a prometida reação da direita deverá lembrar aquele célebre garanhão de uma anedota pícara, a quem a potencial parceira reconhecia demasiado rastilho para tão pouca dinamite.
Daqui a uma semanas, com o novo governo já a carburar em velocidade de cruzeiro, os desafinados tenores da direita estarão confinados ao reduto dos desconsolados e inaudíveis calimeros políticos...

domingo, 8 de novembro de 2015

Quem são os inimigos e quem são os adversários

Chegámos ao último domingo de passos coelho como primeiro-ministro. Não sabemos por quanto tempo continuará em funções num governo de gestão, mas já o será na condição de derrotado sem capacidade para obstar à inversão na relação de forças, que não quis reconhecer na noite de 4 de outubro.
Desde então sempre me insurgi contra os que, mesmo à esquerda, assumiam os resultados das legislativas como os de uma derrota do PS. Faziam o frete à direita e, sobretudo, ao cada vez mais exíguo setor segurista, que via, semana após semana, frustrar-se a possibilidade de reverter a derrota de há um ano nas Primárias.
Está a acontecer o que de melhor poderia ter acontecido ao Partido Socialista. Tivesse sido o Partido mais votado, sem conseguir a maioria absoluta - e não esteve longe de o conseguir, porque dissociados os votos do PSD e do CDS, concluir-se-ia por uma vitória tangencial do primeiro! - e António Costa estaria, por esta altura, a liderar um Governo atacado à esquerda e à direita, com sérias dificuldades para encarar a possibilidade de um universo temporal coincidente com o da legislatura.
O acordo agora estabelecido com o BE, com o PCP e com o PEV vem ao encontro de um desejo de sempre de muitos socialistas, que nunca se conformaram com a ideia de uma maior proximidade ideológica do PS com os partidos à sua direita. Como sempre tenho referido, não são as questões da Nato, do Tratado orçamental ou da forma de limitar os efeitos da dívida soberana a justificarem uma maior proximidade com a direita.
Sendo o socialismo a corrente ideológica, que pretende uma maior justiça e igualdade entre todos os cidadãos, o que pressupõe um papel fundamental do Estado na correção dos desequilíbrios criados pela periclitante sobrevivência do sistema de exploração do homem pelo homem, não vejo como esse anseio está mais próximo da direita do que dos partidos da esquerda, todos eles vocacionados para uma melhor qualidade de vida dos mais desfavorecidos.
Essa a razão, porque sempre entendi os comunistas ou os bloquistas como adversários políticos. Os inimigos, os que se acoitam nas trincheiras do outro lado do campo da batalha, são os que à direita pugnam pela intensificação daquela exploração. Privatizando, precarizando, empobrecendo.
Congratulo-me, pois, por ver, enfim, o meu Partido de há já trinta anos a coincidir finalmente com a minha mundivisão da realidade. E essa é uma mudança, que me faz admirar António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, com todos quantos os secundaram neste longo processo negocial. Porque poderão ter criado aquele momento determinante da História, em que vendo a bola a pairar por cima da rede a terão empurrado para o lado certo do court (vide «Match Point»).
O que de tal opção poderá resultar no extravasar das fronteiras para dar resposta a muitos dos impasses dos partidos socialistas e sociais-democratas europeus, cria legítimas expetativas, quanto a estarmos a viver um momento histórico.
É que, depois de confirmada a incapacidade da direita neoliberal para dar às classes médias a satisfação para as suas mais legítimas ambições, será altura de vir a esquerda mostrar o que vale, não só para esses setores particularmente determinantes nos resultados eleitorais, mas sobretudo para os mais fracos, aqueles que mais se têm alheado da capacidade de politicamente intervirem no sentido de melhorarem o futuro dos seus filhos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

As teses que vão sendo desmentidas

Embora parecendo que favorece a coligação da direita, a sondagem hoje apresentada pela SIC e pelo Expresso é o melhor desmentido de algumas falácias, que vêm sendo produzidas pela direita e pelos «almoçaristas da Mealhada».
1ª tese desmentida - com novas eleições a coligação de direita ganharia com maioria absoluta. Na realidade os 40,8%, que consegue alcançar graças aos eleitores de marinho pinto, podem aproximá-la desse objetivo, mas ele ainda lhes continua distante.
2ª tese desmentida - temos um país dividido a meio entre a esquerda e a direita. Na verdade os 50,5% acumulados pelo PS, pelo Bloco e pela CDU ainda deixam a significativa distância a percentagem da direita;
3ª tese desmentida - o PS está partido a meio, com uma parte dos seus eleitores a apoiarem a possibilidade de uma coligação à esquerda e outra a quererem que sirva de muleta à direita. Afinal, apesar da agitação do papão da «extrema-esquerda» (como repete Assis até à náusea!), os que votaram no PS estão todos com o Partido e até há um pequeno número que se lhes junta.
4ª tese desmentida - António Costa perdeu todo o prestígio que tinha e é agora um líder condenado. A sondagem mostra, que ele continua muito à frente da concorrência e terá todas as condições para recuperar a quebra agora verificada.
Olhando para estes números bem podem os opinadores do «pensamento único» defender o contrário, que a maioria dos portugueses está com o governo apoiado na maioria parlamentar definida a 4 de outubro.
Quanto à direita já terá aqui o seu clímax nas sondagens: bastará que António Costa seja empossado como primeiro-ministro e as primeiras medidas antiausteridade se comecem a sentir para ver evaporar-se o apoio de quem ainda a julga dotada da aura do poder.
Daí o desespero dos que tentam contrariar a realidade como ocorre com o demagogo paulo morais, que queria secretismo na votação das moções de rejeição ou a última tentativa de Assis em pôr-se em bicos dos pés ao declarar-se pronto para liderar um Partido só constituído pela exígua minoria que com ele gostaria de partilhar sandochas de leitão. Bastava ver os rostos de passos coelho e de paulo portas na reunião com os  respetivos grupos parlamentares para constatar que, eles próprios, já não acreditam no que ainda andam a dizer para as câmaras de televisão.