quinta-feira, 28 de abril de 2016

Para acabar de uma vez por todas com um candidato a «querido líder»

Um dos livros mais conhecidos de Woody Allen intitulou-se «Para Acabar de uma vez por todas com a Cultura» no qual ele disparava o seu humor mais viperino contra algumas das mais sagradas instituições intelectuais.
Esta semana, ainda embalado nos harmoniosos sons escutados nos Dias da Música e nas estimulantes imagens da dezena de filmes, que já vi no Festival Indie, vejo-me tentado a afrontar uma vez mais o novo Presidente pela irritação, que me suscita a estratégia de concretizar uma campanha de agitação e propaganda, que pede meças aos mais ousados marketeiros da nossa praça.
Anteontem aventava aqui a possibilidade de se tratar de uma mera questão de vaidade pessoal só satisfeita se conseguisse ficar como o Presidente mais kimilsunguizado da História lusa. Mas ontem já temia, que a sua ambição não se ficasse por aqui, deixando implícita uma hipótese, agora mais aprofundada: e se ele pretender alcançar esse protagonismo através da mudança definitiva do rumo do país para a direção pretendida por Passos Coelho, mas com maior inteligência maquiavélica?
Estamos a falar de um ator político, que soube interiorizar os seus fracassos passados e tornar-se no corredor de fundo capaz de andar anos a fio a manter uma persistente campanha eleitoral nos domingos televisivos até a rentabilizar no momento mais oportuno, quando prescindiu dos meios habituais de promoção para conseguir a vitória à primeira volta.  Convenhamos que ele aprendeu a esperar para chegar onde queria...
Agora promete visitar as três mil freguesias do país nos próximos cinco anos, o que dará uma média de quase duas por dia durante este primeiro mandato. Sempre com a garantia de ter as televisões atrás para reportarem as suas habituais performances com os basbaques de circunstância.
A intenção em criar um unanimismo o mais lato possível em seu torno parece tão evidente que lá soará a hora sobre quem terá maior legitimidade para impor a sua ideologia aos portugueses: ele que terá sondagens a condizer com essa contínua atividade de campanha eleitoral, ou os líderes dos partidos políticos a quem cabe o ónus de arcar com os custos de uma governação mais do que condicionada por fatores internos e externos.
É por isso que ando dececionado com o Tempo Novo proclamado por António Costa, porque, uma vez mais, vejo a Direção do PS a conformar-se com uma realidade feita de militantes e simpatizantes apáticos perante a expectativa de haver maioria garantida junto dos eleitores.
No fim da campanha das presidenciais defendi, onde o podia fazer, que estava na altura de não perder o gás à dinâmica então imprimida e agilizar as sedes do PS, ou reabri-las onde elas tivessem deixado de existir, para criar espaços de organização local para contínuas ações de sensibilização junto das populações.
Nesta altura, por exemplo, seria importante que nas estações de comboios e de barcos, nas paragens de autocarros e nos mercados, à porta de centros comerciais e de eventos desportivos, os socialistas em particular, e a esquerda em geral, estivessem a distribuir propaganda explicando as opções estabelecidas no Orçamento Geral do Estado, no Plano de Reformas ou no Plano de Estabilidade. E o quanto eles poderão melhorar a qualidade de vida de todos os protugueses.
Questionarão os do costume, aqueles que não fazem nem deixam fazer: “E dinheiro para concretizar tudo isso?”
E a resposta é simples: a campanha de Sampaio da Nóvoa foi eloquente no surgimento de muitos defensores de uma Cidadania ativa, que nada pretendendo colher da política, estiveram dispostos a pagar do seu bolso muitas das ações então concretizadas.
Era esse grão de asa, que desejava ter visto dar pela Direção Nacional do PS: ser capaz de aproveitar a onda das primárias, das legislativas e das presidenciais para abrir espaço a um movimento social de apoio à governação, que compensasse o contínuo trabalho da sua desvalorização por parte da SIC, do «Expresso» e da generalidade dos demais órgãos da comunicação social.
Ao apostar exclusivamente na possibilidade de convencer os potenciais eleitores da bondade das políticas implementadas pelo Governo, e sem garantir o respaldo dos militantes e simpatizantes mobilizados em seu apoio, o PS está condenado a manter-se dominado localmente pelos caciques do costume, que só divergem entre si nas mesquinhas rivalidades com que se entretêm.
É nesse sentido que António Costa não tem ainda o Partido à altura da sua Visão, que acabou com um conjunto de cânones políticos tidos como axiomas irrefutáveis. Ele, porque é muito inteligente, já viu mais longe e decidiu reorientar o Partido nessa direção. Mas quem dirige a organização aos seus vários níveis ainda está no Tempo Velho pensando e agindo como costumava fazê-lo até então. Com metodologias que só poderão levar a dolorosas derrotas...

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