sábado, 30 de abril de 2016

Acabar com o negócio dos que brincam à caridadezinha

Vivemos num Estado laico, mas, acaso ainda continuasse no governo, Passos Coelho trataria de entregar às Misericórdias, intimamente ligadas à Igreja Católica, não só um conjunto de hospitais - assim, retirados do âmbito do Serviço Nacional de Saúde -, mas também muitas das competências da Segurança Social, nomeadamente nas que se relacionam com o apoio a idosos domiciliados.
É o que se entende de uma notícia pouco divulgada dos últimos dias: sob a alegação de haver fundos europeus disponíveis para gastar com esse objetivo, Mota Soares dinamizou a contratação de «técnicos» por parte desse tipo de instituições «caritativas» para cumprirem objetivos, que só ao Estado incumbem.
Esse ministro do CDS foi um cultor entusiástico do principio salazarista de brincar à caridadezinha. Se tivesse nascido no tempo da outra senhora adivinhar-se-ia a sua ajuda entusiasmada junto de “tias de bom coração”, capazes de reservar uma tarde por semana para darem um chazinho, umas bolachinhas e umas roupinhas (sempre usando o diminutivo) em segunda ou terceira mão aos pobrezinhos, que se revelassem muito agradecidos.
Ora o apoio aos idosos não deve ser um ato de caridade, mas um direito, que lhes assiste. Até porque quem conhece essas Misericórdias sabe bem quanto elas gastam o mínimo possível com os utentes para garantirem para si lucros máximos. Num caso que conheci  pessoalmente esses «técnicos» mais não eram do que desempregados recrutados aos Centros de Emprego, pagos miseravelmente com um subsídio que não chegava a metade do salário mínimo para um horário de trabalho de 40 horas semanais, apesar da instituição em causa receber mais de 1100 euros mensais dos familiares da idosa em causa.
A História tem-nos mostrado vezes demais a hipocrisia e a falta de escrúpulos de quem se autoelogia pelas boas ações, que resultam afinal em indisfarçável proveito próprio.
Por isso mesmo, e numa altura em que o governo de António Costa anda a devolver ao Estado as competências, que lhe cabem na Educação e na Saúde, também será decisiva a sua intervenção para que a Segurança Social volte a cumprir esta missão com os seus próprios técnicos.

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