quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Um mundo só para ricos?


Não é que o mundo tenha parecido particularmente bonançoso em tempos idos, porque em todas as suas épocas históricas sempre abundaram as mais cruéis mortandades de gente indefesa para que os vitoriosos do momento julgassem chegado o tempo da sua livre exploração. Momentos de grande esperança, como o da Revolução de Abril ou, mais para trás, o da celebração do fim da II Guerra Mundial, logo se viram abafados pelo habitual exercício do domínio dos opressores económicos sobre quem sempre lhes tem sido útil ferramenta de acumulação de riqueza.
Quem se arma de um ideário marxista pode sofrer na pele os efeitos de se ver ostracizado e reprimido, mas confia sempre na dialética da luta de classes e em como lá virá o dia em que os derrotados de hoje se afirmarão como os ganhadores de amanhã. Aquele que está vivo não diga nunca NUNCA!, aconselhava o mestre Brecht.
Há, ainda assim, alturas em que seria lícito, que a tendência às avessas da evolução histórica, não parecesse tão forte com gente infecta a comandar atualmente o destino dos norte-americanos, dos turcos, dos húngaros, dos filipinos, dos polacos, dos italianos e, para além de muitos outros povos aqui omitidos, o dos brasileiros.
Contrariando o que seria lícito esperar dos valores em que acreditava, José Saramago costumava ostentar um grande pessimismo sobre o porvir da Humanidade. E o que escreve no seu imprescindível último caderno de Lanzarote, parece ajustar-se que, nem uma luva, ao presente do nosso descontentamento, apesar de ter sido assumido há vinte anos, nesse 1998 em que viria a ser consagrado com o Nobel: “o que está em preparação no planeta azul é um mundo para ricos (a riqueza como uma nova forma de arianismo), um mundo que não podendo, obviamente, dispensar a existência de pobres, só admitirá conservar os que forem estritamente necessários ao sistema.”
No Brasil isso é mais do que evidente, quando sabemos que as classes de rendimentos mais altos e com formação académica superior votou maciçamente no jagunço. Não é por ele lhes ser simpático, nem corresponder ao tipo de pessoa com quem gostam de conviver. Mas sabem-no que, no seu fascismo sem escrúpulos, ele lhes pode facilitar os negócios, fazendo acelerar a destruição da Amazónia para uma maior extensão das áreas dedicadas ao setor agroalimentar, nem que para tal se exterminem os ameríndios ainda aí reduzidos a bolsas de precária sobrevivência. Confiam em que aperte a tal ponto a legislação laboral, que, a exemplo dos sem terra ou dos sem teto, qualquer operário disposto a insurgir-se pela greve, seja legalmente tratado como um terrorista. E esperam que o disparo fácil contra os ladrões acoitados nas favelas se torne tão frequente, que se sintam em maior segurança no recato dos seus condomínios privados.
Saramago previa uma reformatação do modelo capitalista, que o neoliberalismo económico tornasse inevitável o fim das aparências democráticas das classes dominantes. Resta ver como o Brasil evoluirá nos próximos meses viabilizando, ou não, esse modelo. Para já surge a confirmação da notícia de Sérgio Moro  ocupar a pasta da Justiça, algo em que ontem aqui previa não vir a acontecer. Enganei-me, pois! Mas procurando racionalizar o motivo dessa aceitação até é possível compreendê-la: se o mandato do jagunço correr bem, Moro apressar-se-á a colar-se-lhe totalmente para vir a surgir como natural sucessor, repondo a ocupação do poder pelas classes mais altas depois do episódio intermédio do bronco. Se, como tudo aponta para tal,  a crise social tornar-se tão aguda, que a repressão não consiga pôr-lhe travão, Moro poderá sempre sair da carruagem, assumindo-se como público opositor do agora cúmplice, para que mudando alguma coisa, tudo fique exatamente na mesma como agora se prefigura.

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