segunda-feira, 28 de março de 2016

Não aprender com os erros...

O fim-de-semana da Páscoa continuou a ter o terrorismo como assunto na ordem do dia até pelas seis dezenas de mortos no atentado em Lahore (Paquistão), que vitimou, sobretudo, mulheres e crianças.
É verdade que, como Daniel Oliveira demonstrou no «Eixo do Mal» a Europa até tem sido relativamente poupada ao fenómeno em comparação com o que acontecia décadas atrás, quando diversas organizações políticas de extrema-esquerda e de extrema-direita eram notícia pelas piores razões quase todos os dias. Mas quem pode ignorar a responsabilidade do Ocidente em abrir uma caixa de Pandora no Médio Oriente, não só para proteger o sionismo cada vez mais radical de Israel, mas sobretudo os interesses das companhias petrolíferas na região?
Devido aos interesses da BP, da Total, da Exon e de tantas outras multinacionais do petróleo, derrubaram-se ditaduras laicas onde os fenómenos de extremismo religioso estavam contidos e pouparam-se outras, bem mais revoltantes como a da Arábia Saudita, donde saem muitos dos financiamentos para a Al Qaeda, para o Daesh e para a proliferação de mesquitas por toda a Europa, muitas das quais dominadas pela perspetiva mais radical da leitura do Corão.
Como continuam sem aprender nada com os erros do passado, os líderes do Conselho Europeu acabaram por firmar um acordo vergonhoso com a Turquia, cujas relações com o Daesh e outros grupos anti-Assad são mais do que óbvias. E não se ouviu ainda nenhuma intenção em pôr fim à escandalosa venda de armas para esses regimes, que muito provavelmente acabarão por ir parar, por portas e travessas, aos artífices do terror bombista.
Gente insuspeita como Pedro Marques Lopes questiona-se se não teria sido preferível deixar Kadhafi à frente da Líbia em vez de assistir agora ao financiamento do Daesh através do controlo do tráfico do número cada vez maior de desesperados, que vêm à procura na Europa de um el dorado inexistente. Com o efeito perverso de darem assim mais combustível aos movimentos de extrema-direita, que já ousam testar a firmeza das Democracias a seu respeito como se viu com a provocação de ontem à tarde em Bruxelas.
No caso da Líbia houve o empenhamento direto de Sarkozy no derrube do ditador, que lhe financiara anteriormente as campanhas eleitorais e, no entanto, não estivesse atolado até ao pescoço num caso de corrupção e tê-lo-íamos apostado em substituir Hollande no Eliseu. Como se esse crime, mais do que documentado, não fosse razão bastante para o levar para a companhia de Karadzic em Haia.
O atual caos na Síria, no Iraque e na Líbia deveria iluminar as cabeças dos líderes europeus e levá-los a pôr em causa todos os pilares em que assentaram a estratégia para encararem com sageza a existência de comunidades muçulmanas nos seus próprios países e como as opções geopolíticas merecem ser completamente alteradas.

domingo, 27 de março de 2016

Olheiras e queda de cabelo

Um dos exercícios lúdicos com que gosto de entreter os momentos de lazer é imaginar o que vai, na cabeça de alguns políticos, a começar pelos tidos como inimigos da classe a que pertenço. Como é o caso de Passos Coelho que, nestes últimos anos cuidou de tomar a classe média como seu alvo preferencial, e muito particularmente a que vive da sua condição de reformado como é o meu caso..
Talvez não se trate de operação tão fútil quanto possa parecer à primeira vista, porque até o mais inábil xadrezista (igualmente o meu caso!) sabe da importância de contar não só com as nossas pedras no tabuleiro, mas sobretudo com o que o adversário anda a congeminar para movimentar as suas.
A menos de uma semana do Congresso do PSD, e com um crescente número de opinadores a darem-no como cada vez mais isolado - Pacheco Pereira até classificou de “estaladão” o reparo de Marcelo Rebelo de Sousa à sua posição sobre a intervenção na banca! - Passos tem todas as condições para chegar a Espinho com as olheiras cavadas de sucessivas noites insones.
Não terá dívidas quanto às profissões de fé emitidas por inúmeros oradores em sua intenção, mas é capaz de saber da História o suficiente para lembrar que até o mais pequeno júlio césar tem inevitavelmente um brutus pronto a utilizar a adaga fatal no momento decisivo.
Será essa a razão porque, apesar de comprometido com várias outras iniciativas para esses três dias, não deixarei de dar ao acontecimento mais atenção do que costumo dedicar aos que dizem respeito à direita. E se no primeiro dia todas as mentiras serão admissíveis, ou não seja 1 de abril, Passos Coelho temerá sobretudo as verdades explicitas ou implícitas, que adivinhará em todos quantos o rodearão. À sua frente, mas sobretudo, nas suas costas. Se todos os políticos têm de refrear uma certa tendência para a paranoia, Passos Coelho dificilmente conseguirá paliativos eficientes para a sensação  de caminhar numa corda bamba sem rede de proteção.
Presumo, pois, que sonos tranquilos é aquilo que não conseguirá ter por estes dias! Deixando ainda mais cabelos na almofada...

sábado, 26 de março de 2016

Os fanáticos que andam entre nós

Andamos todos preocupados com o islamismo radical e olhamos para o lado quanto ao que está a suceder na Polónia, onde outro modelo de extremismo religioso está a dar cartas: se a Polónia foi referenciada nas notícias na semana transata por se recusar a acolher quaisquer refugiados, os que a governam em nome de um catolicismo sem qualquer espaço para a piedade - que deveria ser uma das suas principais características! - preparam-se para alterar a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez tornando-a ainda mais restritiva do que já era.
Os fanáticos religiosos, que entregaram a proposta de lei no Parlamento pretendem ver o aborto proibido, exceto nos casos de perigo de vida da mãe, e penalizado com pena de prisão de cinco anos.
Em Portugal contamos com beatos desta estirpe, que assinam artigos de jornal e contam com um partido, até agora votado ao maior desprezo pelos eleitores. Mas seria imprudente não atentarmos nos portocarreros, que tentam alçar a cabeça: ciosos de quererem obrigar os demais a seguirem as suas absurdas conceções, tudo farão para que sejam revertidas as leis, que deram a liberdade de cada um viver de acordo com as suas crenças e conveniências.
Em Espanha Rajoy viu-se em palpos de aranha para não lhes dar cobertura, ciente de perder muitos dos votos, que lhe permitiram estar à frente do governo espanhol nos últimos anos. E, na própria Polónia, a direita já teme ver o tiro dos seus prosélitos causar sérios ricochetes: é que entre cem a cento e cinquenta mil mulheres polacas utilizam anualmente as clínicas alemãs, austríacas ou eslovacas onde  é permitido o que, na terra natal, está proibido.

O elogio do taxista

Arriscando os impropérios de uns quantos que me leem, costumo associar as posições mais trogloditas emitidas no espaço público com a expressão “discurso do taxista”. Porque, por muito que haja gente educada e progressista a guiar esse meio de transporte pelas ruas das grandes cidades, uma boa maioria parece formatada pelas “informações” colhidas no «Correio da Manhã». Embora há muito evite essa experiência, muitos dos discursos mais estupidamente xenófobos, misóginos e antipolíticos que ouvi, aconteceram nessas breves viagens entre um e outro ponto da capital.
Vem isto a propósito de, por uma vez, ver-me na contingência de fazer um elogio aos taxistas, ou pelo menos àquele que transportou os três terroristas, que se fizeram conduzir ao aeroporto de Bruxelas para aí causarem o morticínio visto e revisto ao longo da semana em todas as televisões.
Ora, segundo tudo o indica, muitas das ações entretanto decorridas, pelas quais se pode esperar a eliminação de células terroristas nas capitais belga e francesa, decorreram da informação prestada por esse profissional do volante quanto ao sítio onde recolhera tais passageiros.
Fica, pois, aqui assumido um momentâneo ato de contrição.
Mas a semana, apesar de terrível na contabilização de vítimas dessa assombração contemporânea dos nossos dias, também conta com sucessivas boas notícias, como o são a eliminação de Omar al-Shishani, de Haji Iman e de Mustafa al-Qaduli, respetivamente responsáveis pelas áreas da defesa, das finanças e da coordenação do Daesh.
Sem ilusões, sabemos que já outros os terão substituído, mas John Kerry é capaz de ter razão, quando teorizou sobre os atentados desta semana: “A razão por que estão a recorrer a ações fora do Médio Oriente é a de que a sua fantasia de um ‘califado’ está a colapsar-se diante dos seus olhos”.
E, igualmente, confiante, Matteo Renzi garantiu que “da mesma forma que a Itália não se rendeu à máfia, a Europa vai derrotar os jihadistas”.

Chapa ganha, chapa gasta. Quando há!

É uma regra, que não há como contornar: os indicadores revelam com algum atraso os resultados de uma boa ou má governação. Por isso mesmo ainda andaremos às voltas com muitos números inquietantes como resultado dos quatro anos de destruição de valor humano e empresarial para o nosso país como corolário lógico da aplicação da ignóbil política austeritária. E o que de pior podemos constatar é a demora levada pelos seus autores e inspiradores - de Schäuble a Dijsselbloem - culpados de continuarem a apostar em receitas mais do que esgotadas.
O recente relatório sobre a Saúde Mental em 2015 confirma o que se adivinhava: nunca tantos desesperados se suicidaram no nosso país. Confirmados estão 1154 casos a que se deverão somar muitos dos que constam dos 20% de óbitos por razões indeterminadas.
O documento também é explicito na tendência para o aumento das mulheres a tomarem essa decisão: elas, que costumavam ser mais resilientes em relação às agruras da vida, estão a atirar a toalha ao chão como resultado das depressões e ansiedades suscitadas pela crise económica.
Poder-se-á inocentar Passos Coelho destas mortos na qualidade de homicida, mesmo que involuntário? A meu ver, não, tendo em conta que o imperativo de qualquer governante deverá ser o contributo para uma melhor qualidade de vida dos governados, algo que o ex-primeiro ministro nunca aprendeu ou quis aprender. Mas, ao apostar na aplicação de um modelo ideológico, que preteria os mais pobres para favorecer os mais ricos, ele não poderia ignorar os dramas humanos, que estava a suscitar.
Ainda ontem também se concluiu que nunca se poupou tão pouco em Portugal: no ano transato os portugueses só dedicaram 4,2% dos seus rendimentos para esse objetivo. O que é menos de metade do que sucedia em 2010, antes da chegada da direita à (des)governação do país.  Empobrecidos e precarizados, os portugueses veem-se condenados à lógica da «chapa ganha, chapa gasta».
E porque isso não nos surpreende?

sexta-feira, 25 de março de 2016

Palmira: finalmente uma boa notícia

Se eu acreditasse na vida além da morte, saberia que Khaled al-Assad teria agora recuperado a serenidade e confiaria na reconstrução da cidade de cujos tesouros foi o guardião-mor até 18 de agosto transato, quando o Daesh o decapitou.
Na altura soube-se que a condenação à morte tivera a ver com a sua recusa em revelar o esconderijo de milhares de peças do seu Departamento de Antiguidades de Palmira que os criminosos pretendiam vender rapidamente no mercado clandestino  internacional.

Octogenário, o protetor dos tesouros de Palmira já contava com cinquenta anos de dedicação ao seu projeto de vida.
Ele só não foi capaz de evitar que os terroristas destruíssem o Arco do Triunfo, os templos de Bêl e de Baalshamin e as torres funerárias, mas Maamoun Abdelkarim, atual diretor das Antiguidades sírias já garantiu a sua reconstrução com a supervisão da UNESCO. E a esperança de, a médio prazo, tão só a guerra concluída, voltar a haver um pujante turismo cultural capaz de valorizar a antiga cidade romana, mas também assegurar ao governo sírio as receitas necessárias para ajudar na recuperação de um país destruído pela intervenção absurda de franceses e alemães quanto ao tipo de regime aí estabelecido. Tivessem Merkel, Sarkozy e Hollande tido maior discernimento e nunca teriam apoiado moralmente nem com fornecimento de armas os que, em nome de uma falaciosa Primavera Árabe, decidiram contestar Bashar al Assad.
A vitória na batalha de Palmira confirma que Putin tinha razão em retirar uma parte das suas tropas da região: o exército de Assad já está a revelar a eficácia suficiente para, com os apoios de libaneses, iranianos e dos russos ainda ali deixados, derrotar quem se lhe opõe. Restará ao presidente sírio encontrar uma forma inteligente de dialogar com os curdos, atribuindo-lhes suficiente autonomia para que eles se sintam confortáveis nessa fase intermédia até conseguirem, com os seus irmãos iraquianos, iranianos, turcos e jordanos alcançar a merecida independência.
Ao acontecimentos apontam para a possibilidade de se estar a verificar uma espécie de divisão de influencias políticas na região, com os russos a garantirem a sobrevivência do seu protegido e os norte-americanos a controlarem o Iraque, como o indicia a anunciada recuperação de Mossul.
Quanto ao Daesh, e apesar dos impressionantes atentados de Bruxelas nesta semana, o seu fim não estará longe. É claro que, como sucedeu com a Al Qaeda, dele persistirá uma mini e incómoda organização, capaz de se revelar letal nalguns atentados difíceis de prever onde ocorrerão. Mas o fortalecimento das políticas securitárias europeias e a redução drástica dos direitos de todos à sua privacidade, prevenirão em grande medida os males maiores. E, no entanto, quer a organização de Bin Laden, quer o Daesh terão conseguido uma importante vitória ideológica: que a grande maioria dos ocidentais abdicasse de muitos dos seus valores de liberdade em favor de verem diminuídas as probabilidades de serem explodidos por um qualquer suicida.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Tiros de pólvora seca

Chegamos às férias da Páscoa e temos de reconhecer que os tempos não estão a correr de feição para o PSD de Passos Coelho. O discurso de Marcelo a apoiar a intervenção de António Costa na tentativa de devolver sustentabilidade ao nosso sistema financeiro deve estar a perturbar muitos eleitores laranjas, que já não bastava o ocorrido no Banif e o terem votado no atual Presidente para contrabalançar a maioria da esquerda e dão conta do isolamento cada vez mais patético do seu (ainda) líder, já não muito distante daquele sketch do Herman em que um bronco afiançava ser ele o Presidente da junta. Um destes dias, numa qualquer festarola, ainda daremos com Passos Coelho a teimar ser ele o primeiro-ministro.
O curioso é começarem a perfilar-se os seus sucessores: a entrevista em que Morais Sarmento anuncia estar pronto para, daqui a um ano, colocar-se na linha da partida para o substituir, constitui igualmente um aviso para quem (Rui Rio, Moreira da Silva, etc.) anda com as mesmas contas na cabeça.
Mas se a direita lusa continua sem ver cicatrizadas as feridas da sua derrota de 4 de outubro não faz a coisa por menos e esforça-se até por prender Lula e derrubar Dilma. Assim se compreende a iniciativa de Carlos Blanco de Morais ao organizar na Faculdade de Direito de Lisboa uma conferência para a qual convidou os mais notórios adversários da presidente brasileira e o seu provável sucessor em caso de impeachment. E logo garantiu a presença de Marcelo Rebelo de Sousa e de Passos Coelho.
A coisa saiu tão escanifobética que, tão só conhecido esse projeto e logo a grande maioria dos convidados se dissociou de nele colaborar. A exemplo do que tem acontecido recentemente com as grandes iniciativas da direita, fazem-se grandes anúncios com trompas, trombetas e tubas e o resultado é o pífio som de um flautim desafinado.
Noutra vertente do comportamento dessa mesma direita, ou pelo menos da que tomou de assalto o Ministério Publico e tem feito a vida negra ao antigo primeiro-ministro José Sócrates,  voltou a não ser cumprido o prazo dado por Amadeu Guerra a Rosário Teixeira para decidir, de uma vez por todas, se vai ou não haver acusação. Agora o adiamento ficou para depois da Páscoa!
Mas se julgávamos que esse processo já tinha todas as iniquidades imagináveis pelos seus autores veio agora revelar-se mais uma canalhice de todo o tamanho do pasquim da Cofina. Violando todos os princípios éticos Sérgio Azenha e Sónia Trigueirão (são os dois biltres da foto aqui publicada!) foram incumbidos pelo seu chefe Octávio Ribeiro, de se constituírem assistentes do processo e agora exigiram a Rosário Teixeira, que também elegesse como arguida a jornalista Fernanda Câncio a pretexto do que imaginaram pressupor nas escutas telefónicas, que andaram a bisbilhotar.
Num país decente esses dois exemplares do que a espécie humana tem de pior ficariam sem carteira profissional e os únicos documentos de que ficariam incumbidos seriam os relatórios de funcionamento de uma qualquer ETAR. Decerto realizar-se-iam na perfeição com o acompanhamento das análises às bacias de decantação de dejetos.
A torpe ousadia já excedia de tal forma o que a mínima decência manda respeitar a nível de aparências, que Rosário Teixeira recusou dar-lhes a satisfação nessa tentativa. Mas o facto de terem falhado o alvo não significa que eles voltem a concorrer aos tais quinze minutos de fama com mais alguma pulhice concebida pelas suas sórdidas mentes...

Porque quereria António Lamas ficar à frente do CCB?

Durante muitos anos o Centro Cultural de Belém foi a sala de espetáculos de Lisboa, que mais frequentei, muito embora reconhecesse à Gulbenkian melhores condições acústicas e à Culturgest maior vanguardismo nas suas propostas.
Depois chegou Francisco José Viegas a secretário de Estado da Cultura e, apesar de se ter comprometido com Mega Ferreira a reconduzi-lo à frente da instituição, não teve unhas para resistir às ordens de Miguel Relvas, que aí impôs a indigitação de Vasco Graça Moura. Ora, apesar de haver quem o reconheça como poeta estimável e tradutor de mérito, esse defunto sempre suscitou em mim uma persistente antipatia. A exemplo do que faço hoje com gente do tipo Filomena Mónica ou Henrique Raposo, os seus artigos de jornal eram os que me levavam menos tempo a ler, porque nem sequer arriscava uma breve atenção na diagonal.
Na época decidi só regressar ao CCB quando aí voltasse a mandar quem para tal fosse nomeado por um governo socialista. Daí que tenha agora regressado aos concertos e muitos espere aí assistir nos próximos anos. Mas, quando de tal informei alguns amigos, houve quem torcesse o nariz e redarguisse com a forma supostamente deseducada como João Soares correra com António Lamas quase a pontapé. Como se o sucessor do esquecido Vasco merecesse melhor tratamento.
Ora, muito oportunamente, o arqueólogo Luís Raposo, que também fora corrido do Museu de Arqueologia pelo governo de Passos Coelho com a mesma falta de mesuras, apareceu na edição de ontem do «Público» a recordar o que já denunciara anteriormente, quando se anunciara o projeto “cultural” da direita para o eixo Belém-Ajuda de que o CCB faria parte.
Que Raposo não parece muito entusiasmado com João Soares, di-lo expressamente no texto, mas temos de com ele concordar por inteiro, quando considera que “os monumentos e museus (…) constituem antes de tudo reservas de soberania que devem ser colocadas ao serviço da emancipação cidadã.”
Uma das obrigações, que incumbe ao Estado é conservar o melhor possível o património à sua guarda e dá-lo a conhecer o mais latamente possível aos cidadãos, nomeadamente com a imposição de alguns dias por mês em que as entradas sejam gratuitas.
O que o agora despedido António Lamas pretendia era a marginalização ostensiva da maioria dos portugueses de tais museus e monumentos, atribuindo-os mais tarde ou mais cedo à gestão privada que, por concessão subsidiada pelo dinheiro dos contribuintes, pudesse auferir lucros significativos com a exploração do mercado turístico.
Tratar-se-ia da transposição do modelo das parcerias público-privadas para a área cultural e que se traduziria numa claríssima violação do contrato social.
Como não é nada ingénuo, Luís Raposo esclarece-nos sobre o que estava subjacente ao projeto de António Lamas: “percebiam-se já nele as fontes de receita que um dia poderiam dispensar parte do investimento público e seriam garantidas pelo arrendamento a privados de espaços nobres expectantes, como os que se destinam aos módulos por construir no CCB (e daí o alvoroço de alguns empresários da hotelaria, que já estavam convencidos das novas oportunidades de negócio)”.
Muito embora não esteja propriamente satisfeito com a designação de João Soares para ministro da Cultura fico, pelo menos descansado quanto à possibilidade de ver extinta a pérfida estratégia de privatização de algumas das principais instituições por ele tuteladas. E não sobram muitas dúvidas quanto aos motivos porque António Lamas queria manter-se à frente do CCB mesmo sem autorização para levar por diante o seu plano: é que, por portas e travessas, poderia mantê-lo em banho maria à espera do regresso de D. Sebastião, corrijo, Passos Coelho... 

quarta-feira, 23 de março de 2016

E se o problema é não se combater com determinação uma nova forma de fascismo?

Não vale a pena abordar os atentados de Bruxelas se for para repetir as banalidades, que tantos proferem nestas alturas, como se ainda sobrassem palavras para exprimir emotivamente o horror de ver pessoas estraçalhadas por escolha aleatória dos seus assassinos.
Uma das imagens mais impressionantes transmitidas nas televisões foi a de dois carros de bebés na zona devastada do check in onde ocorreu a primeira explosão. A exemplo do que Eisenstein mostrara na escadaria de Odessa em «Couraçado de Potemkin», mesmo sem sabermos o que aconteceu às crianças a sugestão de ali estarem naquele momento transporta-nos, inevitavelmente, para a «Balada de Neve» de Augusto Gil, quando ele se insurge contra tamanha injustiça:
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...
Das explicações emitidas para a exposição europeia a sucessivos atentados nenhuma delas coincidiu com aquilo que Saramago escreveu sobre as religiões. Houvesse a convicção coletiva de todas as religiões corresponderem ao que Marx considerou como o ópio do povo e não serviriam de alibi para tantas tragédias se repetirem em quase todos os continentes.  Para o nosso Nobel da Literatura
as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos. As religiões serviram sempre para dividir. A história de uma religião é sempre uma história do sofrimento que se inflige, que se autoinflige ou se inflige aos seguidores de outra e qualquer religião. E isto parece-me de tal modo absurdo que creio mesmo que o lugar do absurdo é por excelência a religião.
É claro que se trouxermos de novo Marx à colação, a realidade terrorista tem tudo a ver com a luta de classes. Os recrutadores dos desesperados que se aprestam a suicidar-se, levando consigo tantos inocentes, encontram candidatos numa conjuntura em que o desemprego grassa entre os jovens e ainda com maior dimensão junto dos que guetizados em zonas desfavorecidas das grandes cidades, não conseguem grandes qualificações académicas nem competências profissionais. Com a sociedade de consumo a ostentar tantos bens apetecíveis, quem se espantará com a sua opção pela delinquência, primeiro, e pelo fanatismo religioso depois?
Mas o aproveitamento desta autêntica carne para canhão é garantida por quem assume uma visão fascista da realidade e essa é a que os Estados Unidos e a Europa tardam em assumir. Depois de terem cuidado de derrubar os ditadores do Médio Oriente, que defendiam uma clara separação entre o Estado e a religião, e respeitavam as crenças diferenciadas dos seus cidadãos - veja-se como Assad continua a ser mais diabolizado nos meios de comunicação ocidentais do que a clique que reina na Arábia Saudita, o emir do Qatar ou o atual presidente da Turquia, todos eles financiadores, ou pelo menos facilitadores da atividade do Daesh - os nossos dirigentes ocidentais parecem baratas tontas sem estratégias eficazes para algo que os supera.
Embora António Costa tenha razão em dizer que a luta contra o terrorismo é um objetivo de longo prazo, que não pode compadecer-se com reações extemporâneas aos atentados odiosos do momento, muito se avançaria se a comunidade das nações execrasse os países, que impõem aos seus povos uma visão totalitária da realidade em nome de um livro, que não comporta nenhuma verdade absoluta e mais faria sentido ser lido numa perspetiva histórica.
A grande aliança antifascista, que conduziu ao derrube de Hitler, de Mussolini e da corte mais próxima de Hirohito, deveria ser retomada em nome dos princípios republicanos definidos pelo Iluminismo oitocentista. Desta feita para combater uma forma de fascismo que do Iraque à Síria, da Costa do Marfim à Nigéria e da França à Bélgica, tem revelado uma barbárie que nada deve à dos que foram executados no julgamento de Nuremberga.

terça-feira, 22 de março de 2016

Números que falam por si

  • 400 mil euros por dia é quanto o Estado chinês ganha diariamente na EDP. Não é que seja valor que sequer se aproxime do que diariamente pagamos em juros da dívida - quase 22 milhões de euros - mas que contribuiria positivamente para a sua redução se a empresa continuasse a pertencer ao setor público. E os chineses consideram-na um tal maná que, no final de 2015, investiram mais de 110 milhões de euros na compra de mais ações da empresa.
  • 147 mil famílias portuguesas não conseguiam pagar a prestação  do empréstimo contraído para terem assegurado o seu legítimo direito à habitação. Dado que, segundo o indicam estudos credíveis, esse é o último dos últimos compromissos, que os empobrecidos deixam de pagar, podemos ter uma noção do desespero, que grassa à nossa volta.
  • 10 navios: eis quantos integram a atual frota portuguesa da marinha mercante. E isso com um ex-presidente da República que sempre se proclamou um “entusiasta” da economia do mar. Só nos últimos dez anos a frota mercante europeia cresceu 32%, alcançando os 23 mil navios. No mesmo período a frota portuguesa perdeu 34% dos seus navios. Recorde-se que em 1974 eram mais de duzentos os navios com bandeira portuguesa. E em 1980 ainda eram 97!
  • 320 de utilizadores são quantos conta o Twitter, que agora fez comemorou os seus dez anos, Sempre com prejuízos o que ainda torna incerto o seu futuro. 


As reformas que poderão significar muito mais

No próximo dia 29 de março decorrerá a Conferência Nacional sobre o Plano Nacional de Reformas, que consolidará a imagem de estabilidade do atual governo junto dos parceiros europeus quanto a ter soluções para resolver os principais problemas apontados pela Comissão Europeia à economia portuguesa.
Ciente da desconfiança dos partidos associados ao PPE quanto a um governo assumidamente de esquerda, que gostariam de derrubar, António Costa recorre a uma estratégia de acordo com a sua comprovada inteligência negocial. Ora não é que no mês passado a Comissão Europeia divulgou um Relatório onde listava um conjunto de fragilidades na economia portuguesa, que iam da qualificação insuficiente de quem compete no mercado do trabalho até à burocratização dos serviços públicos, dos atrasos na Justiça até à capitalização deficiente das empresas? Pois é só pegar nelas e responder-lhes através do Plano Nacional de Reformas e no PEC em interligação com o Orçamento para 2017! Será esse o tema em discussão daqui a uma semana!
De uma assentada o governo responde a Bruxelas e cria as condições para preservar a estabilidade orçamental para o próximo ano. Porque rejeita fazer o papel de Varoufakis, António Costa procura resolver o problema do financiamento de tais reformas através do aumento das transferências europeias no âmbito do programa Portugal 2020, muito para além das que Passos Coelho ousara requerer. Só assim poderá superar os constrangimentos inerentes ao peso dos juros da dívida, que já custam oito mil milhões de euros por ano e tendem a vir a ser muito mais.
Para já o primeiro-ministro conta com o apoio de Marcelo Rebelo de Sousa, que terá soprado para os jornais através de um dos seus mais próximos colaboradores, que pouco espera da área política donde provém: “a direita não tem programa, nem tem discurso e não se ganham eleições a defender de novo mais cortes nos salários.” Foi essa a constatação recolhida pelo «Público», que hoje a inseriu na sua versão em papel.

Quatro quadras soltas

1. Será que iremos saber esta terça-feira, quando haverá alguma resolução sobre o caso que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates? É que, depois de, em novembro de 2014, ter alegado existir “fortes indícios” de crimes de corrupção e vangloriar-se de contar com “prova consolidada” nove meses depois, o procurador Rosário Teixeira, não dá mostras de se ver com mais do que uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma para convencer o país em como a sua ação justicialista mais não visava do que impedir o PS de ganhar as legislativas de 2015 e de travar a eventualidade de um possível candidato às presidenciais. Se essa ação contou com mais do que o respaldo passivo de Joana Marques Vidal, cujo progenitor já fora um tenaz conspirador contra o Partido Socialista, é algo que só o futuro esclarecerá.
Por ora prossegue a “tortura lenta” que, segundo Pedro Delille tem sido imposta ao seu cliente em total violação dos direitos, liberdades e garantias constitucionais, que lhe deveriam estar reconhecidas. A começar pelo respeito à presunção da sua inocência.
Se no final de toda esta tragicomédia o processo for arquivado, quem pagará o custo de um inacreditável assassinato político através da torpe utilização da justiça e de pasquins de sarjeta?
2. Depois de tanto apostarem no rápido fracasso da solução governativa saída das mais recentes eleições legislativas, até os comentadores mais alinhados com o ex-PàF reconhecem a forte probabilidade deste ciclo político perdurar até pelo menos às eleições autárquicas de outubro de 2017. Nessa altura será interessante constatar como se revelará a inexcedível inteligência de António Costa em gerir uma situação em que deverá defender a primazia do PS à frente dos atuais 150 das 308 concelhos do país, perante uma direita que pretenderá ter alguma vitória capaz de desmentir o seu merecido ocaso e um PCP que ansiará por recuperar bastiões perdidos no passado mais remoto.
Não faço ideia como a liderança socialista fará a gestão deste processo mas, como militante, gostaria de ver operacionalizarem-se muitas coligações de esquerda constituídas pelos quatro partidos parlamentares comprometidos com o atual governo para conseguirem o resultado mais almejado: a redução drástica da influência da direita à frente dos municípios do país.
3. Carlos César está a consolidar-se como o grande Presidente do Partido Socialista de que este carecia no atual momento histórico. Sibilino nas intervenções, consegue apresentar argumentos definitivos contra uma direita incapaz de os desarticular. A respeito do comportamento do PSD na discussão sobre o Orçamento ele colocou as perguntas certas dificilmente respondíveis por qualquer dirigente laranja: como julgou Passos Coelho defender quem o elegeu optando por tal estratégia? Porque escusou-se a cumprir o mandato para que foi eleito?
Manifestamente César tem plena razão quando sinalizou o PSD à porta da Democracia.
4. Tenho por mim que perante uma Constituição bem explicita quanto ao direito dos cidadãos à Saúde Pública de forma universal, e tendencialmente gratuita, não se compreende a continuação da ADSE, tendo em conta a forma como transfere recursos do Estado para sistemas privados, que de outra forma nem sequer seriam sustentáveis. E, muito menos será de levar a sério a proposta do CDS, que queria disponibilizar esse sistema de saúde a todos os portugueses que para ele se pretendessem quotizar: é que caminharíamos inevitavelmente para uma situação em que a saúde pública de equívoca qualidade ficaria reservada para os mais desvalidos, enquanto os mais abonados contariam com serviços mais fiáveis graças aos recursos dos seguros de saúde em que se integrariam.
Reforçar qualitativamente o Serviço Nacional de Saúde é a única forma de a esquerda cumprir o seu programa político.