sábado, 7 de janeiro de 2023

Um balão que perdeu ar sem estoirar

 

1. De entre as colunistas do «Público» São João Almeida é uma das que leio com particular atenção por ser das raras com perspetiva menos direitista, que a maioria dos seus parceiros de jornal.

Na edição de hoje ela diz algo com que concordo indubitavelmente: “António Costa tem de começar a mostrar obra, assumir o equilíbrio na governação e a capacidade de liderança” sob pena de incorrer na possibilidade de, neste difícil momento, “em vez de conseguir ultrapassar o muro, (...) acabar a esbarrar contra ele”.

Não é que, pessoalmente, considere preferível um governo sem Pedro Nuno Santos do que com ele - acredito exatamente no contrário! - mas confio na sageza do primeiro-ministro, que tem efetivamente obra para mostrar e muito outra a perfilar-se demonstrável a curto e médio prazo.

Há condições para, daqui a uns meses, já poucos lembrarem os percalços por que agora o governo passou...

2. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa ter-se-á assustado com a possibilidade de ver-lhe rebentar estrondoso balão no colo, depois de ter sido o principal estímulo para que ele crescesse. Nesse sentido sentia-se ontem à noite alguma incrédula surpresa nos telejornalistas por, subitamente, se verem sem tapete debaixo dos pés por liminar afastamento da possibilidade de, nesta altura, dissolver a Assembleia da República, tal qual o desejavam a Iniciativa Liberal e os fachos.

3. Confesso admirador do prof. António Sampaio da Nóvoa li atentamente o seu texto de agradecimento aos professores num inequívoco apoio ás suas reivindicações. Mas até o suspeito «Polígrafo» demonstra que, contrariamente ao propalado pelos sindicatos dos professores (e mormente por aquele que um desempregado político fundou para conseguir imerecido destaque público!), nunca o governo propôs a municipalização do recrutamento dos professores, uma das bandeiras que mais os parecem atiçar...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Que mais dirão para derrubarem governantes?

 

Ao princípio era porque algumas nomeações para o governo incluíam personalidades suspeitas de violações da lei. Depois, porque eram eticamente reprováveis. Agora, porque politicamente ambíguas.

Em todos os casos Marcelo funcionou como o grande Desestabilizador da normalidade política dando ênfase às campanhas de uma imprensa, que não enjeita a manipulação, a mentira, quiçá mesmo a calúnia, para prosseguir a intenção de demolir este governo tão depressa quanto possível. Ultrapassando os limites previstos na Constituição para a sua ação de titular da mais alta magistratura do país - que é a de cortar fitas, dar mergulhos oceânicos e tirar selfies! - assume-se como o promotor de um golpe de Estado que, agora, programa para daqui a um ano.

Pudera! É só sentirem-se os efeitos dos milhões do PRR a dinamizarem a economia e saberem-se não só sem acesso a esse pote com que sonham para agradar a quem lhes paga o ofício de marionetas, mas sobretudo ainda dele se temerem mais distanciados porque mais facilmente se sucederão os indicadores económicos tendentes a minguarem a pobreza e as desigualdades. Daí o agora ou nunca com que tentam derrubar um governo ainda eleito há tão pouco tempo!

Não nos admiremos, pois, que outros argumentos venham acrescentar-se para pôr em causa os ministros e secretários de Estado deste governo. À falta de outros, não nos espantemos que, ás tantas, os jornais e televisões ponham em causa governantes por serem excessivamente magros ou gordos, altos ou baixos, velhos ou novos. Porque está a entrar-se na lógica do vale tudo, que muito interessa aos partidos das direitas e suas clientelas, mas nada importa aos portugueses que olham para tudo isto com a apreensão de estarem a deles fazer espectadores de um show sem nenhuma ligação com o que verdadeiramente os inquieta...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Algumas impressões matinais sobre a espuma dos dias

 

1. Foi mais um dia em que a agoniada matilha de cães manteve persistente ladrar à inabalável caravana no seu rumo em direção à apontada pelo seu guia (mais PIB, menos défice, menos dívida, menos desemprego).

Não há quem convença a cachorrada que as parole da velha canção de Mina há muito demonstraram a inconsequência de quem nada pode contra quem se queixa. Vão ter mesmo de se habituar!

2. Mas Marcelo não consegue evitar a frágil metáfora de quem, privado de outros meios, sugere a potencial repetição da bravata de há um ano atrás.

Há gente assim que nada aprende com os erros: depois do tiro no pé, que lhe pôs travão aos mais indisfarçáveis desejos, quererá bisá-lo?

3. Viciado em passeatas, o mesmo Marcelo não se inibiu de aproveitar o alibi do enterro de Bento XVI para regressar a Roma. Por muito que, ao invés do sucedido com a imprensa dos países do sul da Europa, a dos países protestantes não se inibisse de enfatizar o legado do emérito papa como o de protetor de pedófilos, apesar das palavras inconsequentes mais recentes (as tais parole da Mina) a pretenderem disfarçar o comprometimento.

Comentava Bárbara Reis que, em Portugal, tende-se a tingir de cor-de-rosa o passado dos que morrem por muito que saibamos todos quem verdadeiramente foram!

4. Infelizmente vamos tomando nota dos muitos fachos, que vão poluindo o ar à nossa volta. Garantem meia-dúzia de deputados no parlamento, mas há quem lhes avente potencial para serem mais, porque os grandes grupos económicos vão financiando-os sem pinga de pudor. E também os ajuda a realidade agora revelada por estudo de opinião, que dá 61% de portugueses a não lerem um único livro durante o ano anterior. Razão para considerar que a política cultural deveria ser prioritária na ação governativa...

5. Notícia no Libé: no oeste da Escócia multiplicam-se os suicídios, as overdoses e outros problemas de saúde traduzidos num alarmante crescimento da mortalidade. Teias que o capitalismo continua a tecer!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Um fogo destinado a redundar em inúteis cinzas

 

Este é o tempo em que, ainda mais do que no passado - particularmente durante as demolidoras ações de desgaste dos mesmos setores durante os governos de António Guterres e José Sócrates! - se demonstra que a liberdade de imprensa só é aproveitada pelas direitas para quase eliminarem do espaço público as posições defendidas pelas esquerdas. Para uma multidão de comentadores conotados com aquelas, sobram muito poucos que defendam as políticas do governo ou delas discordem de acordo com as opiniões dos comunistas ou dos bloquistas (embora neste caso em concreto existem crescentes e preocupantes consonâncias entre o que diz Catarina Martins ou Mariana Mortágua com o que ululam Montenegro ou Ventura).

Nos jornais encontram-se alguns pequenos oásis no meio do mesmo deserto árido, que as direitas procuram expandir. Às vezes até em textos de discordância como sucede com o de Boaventura Sousa Santos no «Público» a respeito do seguidismo pró-Nato na questão ucraniana, mas em que refere o “festim crítico-orgiástico de fim de ano” montado por esse  tal comentário político e por essas direções de informação “alinhadas com a direita, seja ela moderada ou extrema”, logo acrescentando que “talvez o efeito mais preocupante da sanha mediática contra o Governo seja negar qualquer visibilidade ao bom trabalho que muitos ministros estão a fazer e que, por ser um bom trabalho, não resulta em boas notícias no plano jornalístico.”

Adivinham-se os amargos de boca sentidos por esses atores mediáticos perante os resultados conseguidos pelo governo em 2022 no crescimento do PIB, na redução do défice e da dívida pública. A urgência em lançarem uma intensa nuvem de fumo, que escondam esses indicadores e o subsequente reconhecimento do Economist ao pôr Portugal no pódio das economias vencedoras do ano muito explica o que se vem passando nestes dias e que teve em Alexandra Reis uma oportuna marioneta. Um fogo que ainda lavra com intensidade, mas para o qual António Costa saberá encontrar os extintores bastantes para ele depressa se reduzir a inúteis cinzas... 

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Um labirinto de espelhos

 

Nunca fui a Praga, nem quase por certo irei, embora ouça lautos elogios de quem se predispôs a conhecer-lhe os monumentos e a perspetiva do Moldava a partir da Ponte Carlos. Curiosamente de ninguém escutei referência ao labirinto de espelhos, que Milan Kundera nela identificou, nem dessas verdades enganadoras dos rostos e corpos por ele plantadas no seu mais conhecido romance: A Insustentável Leveza do Ser.

Quando o li não encontrei uma tão veemente crítica ao comunismo, quando alguns quiseram nele associar. Ao contrário de Vaclav Havel, que se tornou num peão sem escrúpulos das estratégias norte-americanas para os países do antigo bloco de leste, Kundera manteve algo do idealismo comunista dos anos do pós-guerra por muito que a formatação estalinista o tivesse forçado a procurar a liberdade criativa no exílio parisiense desde 1975. Donde ninguém o conseguiu arrancar, escusando-se a voltar a Praga para colher reconhecimentos, que pouco se coadunariam com o ceticismo por quanto ali sucedeu desde 1990.

E, no entanto, ele não se escusa a abordar o esmagamento da Primavera de 1968, quando os soldados do Pacto de Varsóvia deram de caras com uma juventude irreverente, que os confrontava com o carácter obsoleto do que defendiam e representavam. Tomas, o cirurgião, que perde o emprego por delito de opinião, até encontra vantagens na condição de empregado da limpeza por lhe dar asas para as aventuras eróticas, que constituem a sua quase exclusiva ambição. Para desilusão de Tereza, que desejaria  atrai-lo para uma exclusividade amorosa, que só ela ambiciona. Por isso é mais importante para ela partir do que para ele. Porque, na liberdade de se ser o que se deseja, as ambições pessoais podem dispensar as  coletivamente almejadas por quem facilmente se deixa manipular por conceitos que só ilusoriamente lhes conferirão maior liberdade. Ou não sobrem grilhetas no capitalismo puro e duro na sua versão neoliberal. 

Que duradoura azia aí vai!

 

O fartote que tem sido o desfile dos comentadores televisivos a dizerem cobras e lagartos sobre as nomeações anunciadas por António Costa para a substituição de Pedro Nuno Santos. Muda-se de canal e a tónica em nada se altera: acumulam-se os mais estrambólicos argumentos para dar voz ao ainda mal digerido despeito com os resultados eleitorais de há um ano atrás.

Muitas pastilhas para o estômago vai esta gente ter de consumir nestes próximos quatro anos!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

2023, um ano bipolar?

 

1. Começamos o ano em registo bipolar: por um lado Lula tomou posse para recuperar os danos causados nos últimos quatro anos pelo sinistro antecessor, mas Putin e Zelensky prometem guerrear-se até ao último ucraniano vivo numa deriva que, política e economicamente, só aos Estados Unidos interessa. E se grandes movimentos laborais e sociais se erguem em geografias tão diversas quanto o são a Inglaterra, o Irão ou o Peru, há a contrapartida dos grandes fabricantes de armamento já terem debaixo de olho a Arménia, o Azerbaijão, a Sérvia e o Kosovo para manterem os lucros em alta acaso as sinetas de alarme se calem em Kiev.

Marx chamaria a esta dualidade a melhor demonstração do materialismo dialético, que Hegel tão bem enunciara, e confirma a intemporalidade da velha luta de classes!

2. Embora dele em muito discorde não há como não dar razão a Pacheco Pereira, quando atribui a “erros e asneiras consideráveis” os amargos de boca por que tem passado António Costa nestes nove meses. Tanto mais que, no mesmo texto, o antigo deputado laranja considera “infame” a comparação lançada por alguns meios de comunicação social com o sucedido com o desgoverno de Santana Lopes de má-memória. E reconhece o óbvio: “sejamos justos, há algum exagero, e uma ecologia venenosa de crítica à governação, sem paralelo nas últimas décadas, que vem mais da nova comunicação social da direita do que dos partidos da oposição que vão a reboque”.

Motivo mais do que justificado para concluir que a tão propalada “liberdade de imprensa” aproveita, sobretudo, aos que têm recursos financeiros para a usar em seu exclusivo proveito.

3. No polo ideológico contrário há o texto de Francisco Louçã, que atribui a casos como os de Miguel Alves ou Alexandra Reis “o resultado de uma construção meticulosa de redes de poder, ou de como uma casta se incrustou no uso do Estado. Essa casta é o passado de Portugal e quer ser o nosso futuro.”

No fundo está em causa o arrivismo, que nada tem de novo, mas se sabe reinventar à medida das transformações por que vão passando as sociedades.  Porque, independentemente dos partidos, haverá sempre gente ambiciosa e de limitados talentos, decidida a ir tão longe quanto lho permitirem os que os avaliam incorretamente por deles se verem bajulados. 

sábado, 31 de dezembro de 2022

D'Alema di' qualcosa di Sinistra

 

1. Não sei se Carmo Afonso tem razão quando identifica uma das especificidades da arte de ser português: “bons a conseguir o impossível, péssimos a gerir uma situação de vantagem”. Mas António Costa tem-no sobejamente demonstrado no ano em curso: em vez de aproveitar as excecionais condições suscitadas pela maioria absoluta para melhor superar os condicionalismos impostos pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, perdeu quase um ano a gerir casos e casinhos, que uma central de conspiração das direitas tem vindo a plantar habilidosa e cirurgicamente. E  somando-se-lhe um presidente que até se baba por o ter na mão, lembrando-lhe que a arma atómica está ao seu dispor e usá-la-á tão só sinta Passos Coelho ou outro qualquer dos seus acólitos em condições ideais para dar esse golpe.

2. Não é que a choruda indemnização a Alexandra Reis fizesse falta para o sabermos, mas ela só confirma o despautério dos betos da Iniciativa Liberal, quando ululam quanto à existência de um tenebroso «socialismo» à frente da máquina do Estado. Como escreveu João Rodrigues no blogue Ladrões de Bicicletas estamos em neoliberalismo puro e duro. Estamos perante as consequências de décadas de redução dos direitos laborais e do poder sindical, correlativos de aumentos dos direitos patronais: paraquedas dourados para os de cima, presumindo-se que os de baixo sabem voar. E daí a conversa peçonhenta do empreendedorismo.”

Não estamos muito longe da conhecida cena do filme de Nanni Moretti em que ele vê o líder da esquerda italiana na televisão e lhe pede para que diga algo de acordo com esse suposto posicionamento político. E, associando-o a António Costa, acrescentemos-lhe mais um pedido: que o faça, provando que o socialismo não é só uma palavra, mas uma ideologia transformadora do muito que está mal e é urgente ser alterado!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Recuperar a liberdade de mudar e decidir

 

Lamentaria a saída de Pedro Nuno Santos do governo se acreditasse na sua morte política. Mas nem as direitas partidárias, muito menos as da comunicação social, que o têm erigido em alvo preferencial, se iludem com essa possibilidade. Fica a exceção do jagunço do costume, mas esse só é para levar a sério enquanto demagogo mentiroso, que engana, e enganará, o lumpen ao serviço dos que, por trás dele, se acoitam como verdadeira e sempiterna ameaça.

Haverá quem se satisfaça com a vitória nesta pequena escaramuça, mas sem comemorações a sério porque sabem serem outros os contornos da verdadeira guerra lançada contra quem foi o melhor e mais competente ministro deste governo. Porque, ao invés de António Costa, que quer mudar o país passo-a-passo, Pedro Nuno anseia pelas transformações desejadas por aqueles que não esquecem a canção do Sérgio Godinho sobre ser urgente o fluir da torrente para quem tem sentido a vida parada. Precisamente por responsabilidade maior dos que são titereiros dos que, multiplicam contínuos dislates manipulatórios, que acabarão por fartarem os ouvidos de quem desconfia não ser verdade a repetitiva elocução das mentiras.

Doravante como deputado, e com a liberdade de prosseguir o trabalho de contacto com os militantes e simpatizantes socialistas de norte a sul do país, Pedro Nuno Santos fará o seu caminho para revigorar um partido, que arriscaria ficar anémico se não viesse a ser estimulado com a sua  determinação para melhorar a vida dos portugueses. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Quando os yuppies são nomeados para o governo

 

O que mais lamento no triste caso da curta passagem de Alexandra Reis pelo governo é a falta de exigência imposta por António Costa em quem convida para a sua equipa.  Somam-se os exemplos de quem, agindo supostamente dentro da legalidade que os contorcionismos interpretativos possibilitam, faz-se convidado para onde não só se impõe irrepreensível seriedade, mas também, como à mulher de César, indubitável aparência em assim ser. É o conflito entre a lei e a ética, que, como Carmo Afonso, hoje reconhece, suscita um sentimento de injustiça, quando apreciado à luz de demasiados princípios.

Não estranho que surjam muitas Alexandras deste tipo nos palcos políticos e sociais: se as gerações que viveram a Revolução de Abril ainda envergaram preocupações ideológicas, as que lhes sucederam depois do triunfo do reaganismo e do thatcherismo sobre as utopias igualitárias, passaram a defender, sob a falácia meritocrática, o “sucesso” de uma economia apostada em dar menos aos pobres para melhor premiar os que anseiam ser ricos. Daí nos não admirarmos por a ex-secretária de Estado ter-se tão bem feito premiar depois do seu papel ativo na redução dos rendimentos dos trabalhadores da TAP. O egoísmo desta geração de tecnocratas exclui qualquer sentimento de generosidade, solidariedade e empatia com os que menos recebem. 

Daí a incompatibilidade de Alexandra Reis com um governo, que se diz socialista. Embora nos deva preocupar a escolha que, a seguir, Costa e Medina, farão para a substituir. É que o seu histórico de opções anda a ser posto em causa com inquietante frequência para que aceitemos de bom grado as responsabilidades da tal «bolha mediática», que se limita a aproveitar os tiros nos pés por eles autoinfligidos!