segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Que não se esqueça quem tinha razão em devido tempo!

Durante os governos de José Sócrates não foram poucas as discussões que tive com quem discordava em absoluto da construção de um novo aeroporto. Os argumentos dos meus interlocutores eram os de quem ajuizava os outros por si mesmos, pois alegavam as negociatas envolvidas em tal tipo de projeto, desprezando os exemplos históricos óbvios (o quão limitada se revelou a Ponte 25 de abril duas décadas passadas sobre a sua inauguração) e ineptos na capacidade de preverem o crescimento do transporte aéreo a nível internacional.
Hoje podemos ACUSAR (em veementes maiúsculas) esses altifalantes da direita de então por terem impedido uma obra, que hoje se revela mais do que urgente, tendo em conta os problemas diariamente registados no Aeroporto Humberto Delgado à conta da exiguidade das suas pistas e instalações. Diariamente o país sai prejudicado em avultada maquia graças a tão míope gente. Mas, tão grave quanto foi essa travagem a um projeto fundamental para o país foi a entrega da ANA à Vinci por parte de Passos Coelho. A exemplo de outras privatizações ruinosas, o ainda líder da Oposição deveria ser objeto de severo julgamento à conta dos danos causados pela sua 8des)governação durante quatro anos.
O artigo hoje assinado por Nicolau Santos no «Expresso» e de que abaixo se transcreve grande parte é eloquente quanto a essas culpas passadas, que não deverão ser esquecidas no presente e muito menos no futuro: se o país vê travado muito do seu potencial muito o deve a quem o quis fazer tão minúsculo quanto o das mentes, que se julgaram capazes de lhe definir o rumo.

Extrato do texto de Nicolau Santos no «Expresso» de hoje: 
A notícia, seca, reza assim: “Entre as sete da tarde de ontem, domingo, até quase às 22h00, a fronteira de partidas do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, esteve fechada, atrasando a partida de 17 voos. Esta situação aconteceu, segundo a gestora dos aeroportos, ANA, devido a um "erro de operação por parte da empresa de handling Groundforce", explicando que as partidas dos 17 voos sofreram atrasos "para não comprometer questões de segurança". Dirá o leitor: coisas que acontecem.
Dirá o leitor mais cético: só neste país é que isto acontece. Dirá o leitor que não gosta de António Costa: isto é culpa deste Governo. Dirá o leitor que não gosta de Pedro Passos Coelho: isto é culpa da oposição, que concessionou a ANA. Todos podem ter alguma razão, mas é pequena. Na verdade, aquilo a que estamos a assistir no aeroporto de Lisboa é o resultado de longos anos de inércia por parte dos políticos, para depois se passar a um combate político entre a construção ou não de um novo aeroporto, cada uma das razões alicerçadas em estudos que dizem sempre aquilo que quer quem os paga, até se chegar a uma decisão que é um remendo que rapidamente se esgotará.
Na verdade, os que se opuseram radicalmente à construção de um novo aeroporto no tempo do Governo de José Sócrates dirão que não era previsível esta explosão do turismo e este afluxo de visitantes a Portugal. E terão razão. Mas ter razão no presente sem olhar o futuro é incompetência. E bastava saber, como é do domínio público e já foi bastas vezes referido, que desde 1969, quase há 50 anos e ainda no anterior regime, se começou a discutir a necessidade da construção de um novo aeroporto para Lisboa para perceber que esta era uma obra pública incontornável para a qual o país teria de avançar.
Quando João Cravinho foi ministro das Obras Públicas, entre 1996/99, definiu a estratégia da construção de um novo aeroporto, até porque Barajas, que serve Madrid, estava a entrar nos limites de utilização e Lisboa capitalizaria os voos que não pudessem aterrar na capital espanhola. Não teve tempo, contudo, para concretizar o projeto. Mais tarde, com José Sócrates como primeiro-ministro e Mário Lino como ministro da mesma pasta (2005/09), o Governo avançou com estudos e localizações (Rio Frio? Ota, Alcochete?), mas o PSD, dirigido por Pedro Passos Coelho, fez da construção do novo aeroporto uma das suas principais bandeiras de combate político, usando-o como exemplo do despesismo que dizia combater e opondo-se tenazmente a uma solução para ampliar a Portela, que dizia, invocando estudos, não estaria esgotada antes de 2050.
Depois, durante o seu consulado, o Governo PSD/CDS não só concessionou a ANA, a empresa que gere todas as infraestruturas aeroportuárias do país aos franceses da Vinci por 50 anos (!), como deixou na mão desta a solução para o aeroporto quando se aproximasse do esgotamento. E a Vinci, como seria de esperar, não só adiou o mais possível uma decisão, quando era evidentíssimo que o esgotamento estava a chegar rapidamente, como depois se inclinou decididamente para a solução Portela mais um (neste caso o Montijo, que terá de ser ampliado), o que o anterior Governo aceitou e o atual, pressionado por uma situação que está a rebentar pelas costuras, decidiu subscrever por supostamente ser a que fica mais depressa pronta a ser utilizada.
Por isso, que ninguém estranhe que haja confusões no encaminhamento dos passageiros quando a zona de controlo de passaportes não comunitários está lotada; que ninguém estranhe que se demorem horas a passar no controlo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; que ninguém estranhe que a bagagem também demore bastante mais que o admissível a chegar aos seus donos; que ninguém estranhe as filas de centenas de metros para apanhar táxi à saída do aeroporto; enfim, que ninguém estranhe esta visão de um aeroporto do Terceiro Mundo que tem qualquer pessoa que chega pela primeira vez a Lisboa por via aérea.
Não é de estranhar. É o resultado da incapacidade para decidir e da miopia dos políticos, alguns dos quais preferem ganhos eleitorais a curto prazo a uma estratégia coerente de longo prazo para o país.
Mas dito tudo isto e perante o cenário que todos os dias se vive no aeroporto Humberto Delgado é estarrecedor que o PSD, pela boca do seu líder parlamentar, Hugo Soares, venha acusar o primeiro-ministro de “regresso ao socratismo” quando ele propõe um pacto, aprovado na Assembleia da República por dois terços dos deputados, para os grandes investimentos públicos que o país terá de efetuar no futuro, integrados no quadro comunitário de apoio do pós-2020. Que não se tenha visto aquilo que está a acontecer ainda se desculpa. Que não se queira ver o que está à vista de todos, para fazer chicana política, é inaceitável.

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