sábado, 4 de janeiro de 2014

POLÍTICA: os "iluminados" lançam mais um jornal!

A notícia do lançamento de um novo jornal, que terá por expoentes gente da estirpe de um josé manuel fernandes, de um rui ramos, de um alexandre relvas e de outras “vedetas” do ideário neoliberal, poderá significar uma maior poluição do universo mediático nacional, já bastante conspurcado por uma parafernália de comentadores alinhados maioritariamente com o discurso da troika e das suas marionetes nacionais. Mas também permite outra leitura: a de que os financiadores do novo projeto desesperam com a possibilidade de bastarem as publicações já existentes da Impresa, da Cofina, da Controlinveste e dos oligarcas angolanos para convencerem os que leem jornais da bondade desta política teimosamente imposta por passos coelho e paulo portas.
Com fanfarras e fogo-de-artifício tudo farão para tentar iludir os portugueses com uma mistificação totalmente alheia à realidade por eles constatada no dia-a-dia.
Provavelmente será mais uma publicação destinada a fracassar, tão minoritária se vai tornando a corrente ideológica dos seus subscritores no seio da comunidade portuguesa. Verdadeiros talibãs de uma idiossincrasia, que se vai desmentindo progressivamente nos seus resultados, eles estão condenados a falarem cada vez mais para si mesmos.
Nesse sentido, o isolamento a que já é remetido cavaco silva, odiado à esquerda e utilizado como idiota útil pelos seus comparsas da direita, é o desfecho previsível dessa gente: podem barafustar, gesticular, fazerem piruetas ou a dança no varão, que ninguém os levará verdadeiramente a sério.
Em desespero de causa pode-se-lhes ir reservando uma ala do Júlio de Matos: a destinada aos loucos furiosos.
Com um colete de forças sempre por perto!


POLÍTICA: Um Outro Mundo é Necessário!

Anunciada (porventura por exagero!) a morte do comunismo, houve quem, à esquerda, quisesse ver nos movimentos antiglobalização a alternativa para uma mais eficiente contestação ao capitalismo. É que, na sua génese, esses movimentos rejeitam a lógica do mercado, criticam as multinacionais, opõem-se ao comércio sem entraves aduaneiros e à Bolsa. Ainda que com analises exageradas, propostas utópicas e críticas radicais!
Mas, não sendo eles, como se poderá confiar no socialismo da «terceira via», apostado em se situar no centro do espectro político e em colaborar com as elites dirigentes do capitalismo internacional no acelerado programa de expansão ilimitada das mercadorias, da concorrência e da “moral monetária”? Se julgávamos morta e enterrada essa efémera ilusão, que atravessou os anos de Clinton e de Blair, aí a temos novamente experimentada por quem se prepara para liderar o Partido Democrático italiano…
E, no entanto, essa contrarrevolução, potenciada pelas novas ferramentas informáticas, fez cair, uma a uma, todas as posições conquistadas durante dois séculos de intensas lutas laborais!
Regressemos, então, aos movimentos alternativos dinamizados por antigos militantes de organizações comunistas e trotsquistas, mas  em rutura com a rigidez do marxismo, para sugerirem reflexões próximas dos socialistas utópicos, tão criticados no seu tempo pelo autor de «O Capital».
Se fosse vivo, Karl Marx não deixaria de ridicularizar e criticar com veemência muitos dos textos produzidos pelos que se inserem no espírito do Forum Social Mundial.
Tomemos-lhes três exemplos elucidativos:
1 - esses críticos do capitalismo defenderam a instauração da taxa Tobin sobre todos os movimentos de capitais, como forma de conseguir uma maior redistribuição da tão desigual riqueza das nações.
Tal estratégia keynesiana para reformar o capitalismo, sem o pôr verdadeiramente em causa, é uma rendição a ele: o que deverá nortear a contestação ao sistema vigente deverá ser a denúncia do esbulho das mais-valias resultantes da exploração de quem trabalha!
2. o idealismo ingénuo da expressão «Um Outro Mundo é Possível» terá de ser substituído, de acordo com os marxistas, por outra bem mais exigente: «Um Outro Mundo é Necessário». Em vez de federarem os «novos condenados da terra» que nada têm (emprego, terra, abrigo, papéis), os verdadeiros opositores ao capitalismo não poderão sair da lógica da contradição principal entre os que exploram e os que são explorados.
Esperar que do «lúmpen» saia uma alternativa eficaz, só serve para desbaratar esforços e ilusões, que se revelam imprescindíveis para as mais incisivas lutas entre quem, no dia-a-dia dos seus empregos nas fábricas, nos escritórios e outros locais de trabalho, é confrontado com a desigualdade cada vez mais obscena entre as elevadas remunerações de uma minoria e os salários de miséria da maioria.
3. a luta contra o capitalismo não pode ser canalizada pelos que apostam, sobretudo, no respeito pela natureza e no desenvolvimento sustentável, por muitos crimes ecológicos que resultem da lógica predadora do sistema a pôr em causa.
Uma vez mais, importa diferenciar a luta principal das que a ela se associam colateralmente. Até porque reduzir o ritmo da evolução dos meios de produção é fazer a roda da História andar para trás. Ora é com tal evolução, que se agudizam as contradições entre as forças produtivas e as condições sociais da produção. Sem a ciência e sem a indústria não é possível atingir o objetivo primordial do marxismo: uma maior igualdade, justiça e solidariedade entre quem viverá na sociedade do futuro.
Em suma: a flexibilidade intelectual e militante dos movimentos antiglobalização estão nos antípodas da coerência e consistência do pensamento marxista!


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

POLÍTICA: os ódios de estimação e os falsos sinais de retoma

Começa o ano e temos mais do mesmo: com o alargamento da base de incidência da contribuição extraordinária de solidariedade e o aumento das contribuições dos funcionários públicos para a ADSE, passos coelho mantém a postura de provocação ao Tribunal Constitucional e à Lei Fundamental, que jurou respeitar, e prossegue a sua sanha persecutória aos seus inimigos de estimação. Se paulo portas sempre foi coerente no ataque aos direitos de quem trabalha para o Estado, deveria sentir-se incomodado com o ataque aos reformados e pensionistas de quem, em tempos, se quis fazer provedor. Mas a falta de vergonha já é tanta que para ele, também nesta matéria, o conceito de irrevogabilidade demonstra o que vale.
Não admira, assim, apresentado pelo professor Freitas Magalhães, da Universidade Fernando Pessoa, o estudo Uma Década de Sorriso em Portugal conclua pela acelerada diminuição da frequência dessa expressão facial no rosto dos portugueses analisados em fotografias publicadas na imprensa entre 2003 e 2013.
Temos um povo triste, cabisbaixo. E, como a saúde está diretamente relacionada com essa capacidade de sorrir, podemos considerar que os portugueses estão a sentir-se cada vez mais doentes.
Mas, quem defende este (des) governo dirá com prosápia: não houve um crescimento de mais de 11% na venda de carros do ano passado para este ano? Não representará esse indicador um comprovativo do milagre económico anunciado por pires de lima e reiterado por passos coelho no Natal e por cavaco no Ano Novo?
Bem se podem iludir esses, que por ingenuidade, cinismo ou egoísmo, persistem em defender o indefensável: é que olhando para os números agora divulgados os 105 mil veículos vendidos em 2013 ainda estão muito distantes dos mais de 153 mil de 2011, já na altura qualificado como ano de crise para o setor.
Essa é a realidade de algum do nosso jornalismo: apresentar o copo um pouco cheio, quando o espaço vazio ainda é, e promete continuar a ser, muito maior. Julgarão assim enganar os que, por o sentirem bem nos bolsos, dificilmente estarão abertos a este tipo de manipulação nas notícias.
É crível, porém, que passos coelho se sinta como aquele tipo de jogador de casino, que vê os números da roleta a saírem sempre diferentes daqueles em que apostou, mas acredite numa reviravolta da sorte, como se o exercício do poder dependesse de fatores irracionais. E imagine que a notícia do regresso dos investidores ao mercado para comprarem obrigações dos países periféricos, lhe garanta in extremis uma saída à irlandesa do programa da troika. É que os juros já estão abaixo dos 6%!
Ele parece acreditar que o regresso aos tais mercados propiciaria o tal crescimento, que já imagina existir e o poderia salvar do desiderato por que quase todos esperam! O da regeneração de um país, que tão maltratado tem sido por esta direita ideológica, que deverá ser exemplarmente despejada para o tal caixote do lixo da História!


FILME: «Wadjda» de Haifaa al-Mansour

No blogue  este filme de Haifaa Al-Mansour já foi abordado há quase um ano (em 10 de fevereiro), mas tendo em conta o seu carácter abertamente subversivo para com a realidade saudita, vale a pena voltar a dar-lhe atenção até pelo facto de se sucederem as entrevistas com a realizadora nalguns dos mais canais televisivos de todo o mundo. Ademais, não será improvável, que ele seja contemplado com o Óscar para o melhor filme estrangeiro na próxima edição da cerimónia da Academia de Hollywood.
A história é a de uma menina de 10 anos, que vive num subúrbio de Riade e enfrenta, com a sua irreverência, o mundo extremamente conservador do reino saudita.
Após uma discussão com o seu amigo Abdullah ela vê à venda uma bela bicicleta verde. Decidida a vencê-lo numa corrida, decide fazer os possíveis e os impossíveis para a comprar. Só que a sociedade não proíbe apenas as mulheres de conduzirem carros: as bicicletas também são vistas como veículos perigosos só acessíveis aos meninos. Por isso procura convencer a mãe quanto à razão dos seus argumentos. Só que esta já vive na inquietação de ver o marido arranjar uma segunda esposa, para ainda mais lhe desagradar com aquela ideia da filha.
Para a rapariga a alternativa reside em ganhar o prémio pecuniário atribuído ao vencedor de um concurso escolar dedicado à recitação do Alcorão. E por isso vai dedicar-se arduamente ao livro sagrado da sua cultura…
Para rodar o filme - num país onde nem sequer existem cinemas, quanto mais mulheres realizadoras! - Haifaa Al-Mansour teve de dirigir o filme de dentro de uma carrinha e com a ajuda de um walkie talkie.
O resultado poderá não ser brilhante do ponto de vista cinematográfico, mas enquanto revelador de alguém capaz de sonhar e, com isso, fazer o mundo pular e avançar, constitui um exemplo lapidar...



LIVRO: «22/11/63» de Stephen King

Será demasiado tarde para salvar o presidente Kennedy? Para desviar a bala do seu assassino nesse famoso dia 22 de novembro de 1963?
São questões absurdas, insensatas, a menos que se possa viajar no tempo.
No livro de H.G. Welles «A Máquina do tempo» os personagens enganavam as leis da física entrando numa máquina cheia de botões e de êmbolos. No «Regresso ao Futuro» realizado por Robert Zemeckis, era com um carro propulsado a plutónio. Mas nenhuma dessas opções é a de Stephen King.
O escritor apropria-se do mais clássico dos temas de ficção científica com a mesma lógica com que aborda espectros, lobisomens e outros pesadelos do imaginário coletivo: dissimulando-o no manto da mais trivial das realidade, uma roulotte de venda de hamburguers.
Ao fundo da arrecadação aonde se acumulam os caixotes e os frascos de ketchup existe uma estranha interseção da tela do tempo. Com alguns passos vai-se parar ao ano de 1958.
Mas antes de, enquanto bom cidadão, entrar de peito firme num dos grandes traumas da história americana, Stephen King dá-se ao prazer de demorar: o seu protagonista, Jake Epping desembarca cinco anos mais cedo, a norte da funesta cidade de Dallas. Tudo começa, de facto, no Estado do Maine, evidentemente na terra natal do escritor e palco da maioria dos seus romances. Mesmo no epicentro do seu próprio imaginário, já que os males do mundo podem ainda esperar.
Temos assim  direito à primeira missão de Jake Epping, quando vai tentar testar o efeito de mudar os acontecimentos, tentando evitar um crime bem menos famoso a ocorrer na cidade de Derry, cidade fictícia mas bem conhecida dos leitores de King. Era aí que o terrível palhaço de «A Coisa» (1986) matava crianças na rede de esgotos. E se essa história nada tem a ver com a deste romance, o visitante do futuro pressente-lhe intuitivamente o perigo: algo estava mal com essa cidade.
Melhor ainda, ele cruza-se aí com personagens bem nossos conhecidos: Beverly e Ritchie, os simpáticos adolescentes daquele romance.
As novecentas páginas de 22/11/63 correspondem a uma viagem íntima do escritor ao seu próprio universo, sintetizando-se aí os seus fascínios e medos. Todos os seus temas estão ali desenvolvidos como se se tratasse de uma espécie de livro-testamento. Para além de um herói decidido a alterar o curso da História como já ocorria em «Dead Zone» (1979), vêem-se machos abusadores e violentos como o próprio pai do escritor, o ogre em quem se baseou para criar o Jack Torrance de «Shining» (1977).
Fala-se também de alcoolismo, um flagelo outrora sofrido e combatido pelo escritor. E de adolescentes como os que a infortunada Carrie (1974) poderia ter encontrado ou os do bando de amigos do «Conta Comigo». E tendo como banda sonora o tipo de rock à antiga, que parece omnipresente em toda a sua obra.
Em 1958, quando cantavam os Everly Brothers, as MacGuire Sisters ou os obscuros Danny and the Juniors, Stephen King tinha 11 anos. Demasiado cedo para ver essa época com os olhos do seu personagem, mas o suficiente para conservar algumas recordações.
Ao sabor da viagem sonda os seus próprios fantasmas e os dos seus compatriotas. Eis-nos, pois, nos gloriosos anos 50, período de descontração e de emprego para todos, quando ninguém fechava a porta à chave, em que a gasolina era quase de borla e em que a cerveja ou o leite ainda tinham o gosto suave do que era autêntico.
Em suma ei-nos mergulhados nos mínimos detalhes dessa idade do ouro terminada com Kennedy em 22 de novembro de 1963.
King, como de costume, cria todo um universo onde nos convida a mergulhar totalmente. Mas não é tão ingénuo que não tenha presente o quanto cheirava mal esse passado pelo qual muitos americanos sentem uma enorme nostalgia. O odor do fumo tóxico das fábricas a funcionarem a todo o vapor. O do tabagismo generalizado. Mas não só: também fedem o sexismo, o puritanismo, a segregação racial (basta para tal uma visita às casas de banho de uma área de serviço em que encontra uma porta para os homens, outra para as mulheres e uma prancha podre para as pessoas «de cor»).
Ao volante de um Ford Sunliner e aproximando-se cada vez mais do local e da data fatídicas, Jake Epping cria um enorme fresco da América de então com cores contrastadas e onde o único sonho, o único tempo proveitoso é o do investido na criação de amizades.
Se ele começa a sentir-se quase em casa, é por encontrar o que o passado tem de menos espetacular, mas de mais aliciante: pessoas banais. Não admira que Jake se venha a apaixonar por uma mulher desse passado: Sadie.
Quanto a Kennedy e ao seu assassino potencial, Lee Harvey Oswald, tornam-se no objeto de dezenas de páginas muito documentadas sem serem fastidiosas,
Foi ou não uma conspiração? O atirador estava ou não sozinho? Será necessário descobri-lo para o eliminar?
Quando o romance se passa a situar no Texas o ritmo acelera-se e torna-se ainda mais envolvente.
O que sucederia se o 35º presidente dos EUA sobrevivesse? O que ocorreria com a guerra do Vietname, os direitos cívicos ou a Cortina de Ferro?
O batimento das asas de uma borboleta aqui causa um tsunami acolá.
King explora com prazer os estereótipos do género, a sucessão de paradoxos e as mil e uma maneiras de resolver o quebra-cabeças dos futuros múltiplos.
O passado resiste: será jake capaz de o vencer? Curar as feridas do tempo, mas também do seu encanto cósmico, é muito mais complicado do que isso.
Para conhecer a resposta, é preciso acompanhar Stephen King na sua viagem. Porque, como dizia Albert Einstein não é o tempo que passa, mas somos nós a passar pelo tempo.


FILME: «God Told Me To» de Larry Cohen (1976)

Inspetor da polícia, Peter Nicolas é convocado quando um atirador causa o pânico nas ruas de Nova Iorque ao matar aleatoriamente algumas pessoas. Conseguindo conversar com o assassino antes dele se suicidar, ouve deste uma explicação estranhíssima para o seu gesto: teria sido Deus a ordenar-lhe aquelas mortes.
A história poderia ficar por aí, mas, pelo contrário, Nicolas vê-se confrontado com outros crimes semelhantes e em que cada um dos assassinos apresenta a mesma razão.
O filme utiliza os símbolos católicos para uma história, que aborda a religião de uma forma singular, já que se interroga sobre a sua existência. Por isso o facto do protagonista ser um católico possui um significado muito especial, por pô-lo a questionar-se sobre as mesmas dúvidas levantadas pelos próprios espectadores.
Rodado com um orçamento muito limitado, «God Told Me To» revela algumas proezas como a da sequência da parada pelas ruas de Nova Iorque. E Larry Cohen tira partido da sua falta de dinheiro para dar ao filme um aspeto quase documental. A cena de abertura com várias pessoas a serem abatidas sem qualquer razão num dia banal, constitui disso mesmo uma evidência maior.
Tony Lo Bianco tem aqui um dos seus papéis de referência...


POLÍTICA: Direito à informação?

Entrou na rotina o tipo de discurso dos jornalistas enviados para as ruas das grandes cidades para darem conta do impacto das greves com impacto no quotidiano da generalidade da população : em vez de respeitarem o direito de quem opta por tais formas de luta procuram o melhor ângulo populista para as desqualificar.
É por isso que, quando são os transportes a estarem em causa, se buscam os testemunhos de quem fica nas paragens ou nas estações à espera do veículo, comboio ou embarcação, que seguramente não aparecerá. E é um fartar vilanagem de gente indignada com os grevistas em vez assistirmos ao seu bem mais compreensível desagrado  com quem é verdadeiramente o culpado de tais situações.
Procura-se sempre virar trabalhadores contra trabalhadores, salvaguardando-se a responsabilidade do governo ou das administrações dele dependentes.
E, mesmo agora, perante uma forma de luta discutível como a dos cantoneiros de limpeza de Lisboa, não podemos aceitar que a jornalista de um dos canais televisivos se aproximasse de um dos trabalhadores regressados ao desempenho das suas funções e lhe perguntasse se a greve valera a pena, decerto esperançada em encontrar nele algum desagrado com as suas estruturas sindicais.
O que está a ocorrer na informação emitida por jornais, televisões ou rádios é a produção de um discurso conivente com a direita no poder, graças à marginalização de excelentes profissionais entretanto afastados e substituídos por uma camada de jornalistas mais novos cuja precariedade no emprego os leva a submeterem-se às instruções das suas chefias no sentido de manipularem o tipo de informação emitido.
É por isso que devemos estar cientes de quão em causa temos o direito constitucional à informação, já que a comummente distribuída possui uma orientação a contracorrente dos interesses da maioria que a consome.


MÚSICA: a “Missa dei Filii” de Zelenka

Esta Missa Dei Filii (ZWV20) foi composta por Zelenka por volta de 1740 para seu usufruto pessoal já que, na época, ele estava em conflito com as autoridades de Dresden, que o haviam preterido para compositor da corte apesar de ter passado anos como assistente do titular.
Católico convicto, ele compõe esta bela peça de quarenta minutos para glorificar Deus nas alturas e pedir-lhe piedade para quem, cá em baixo, tenta corresponder-lhe aos ditames.
Curiosamente Zelenka vivia relativamente próximo de Bach, que estava em Leipzig, e imitava-o no propósito de traduzir em música o fervor da sua crença. Muito embora os separassem a natureza específica dos cultos a que se dedicavam - o luterano para Bach, o católico para Zelenka.
Para um ateu, que se dispõe a ouvir a obra de um e de outro, essa distinção de preitos é irrelevante. O que fica é a fruição auditiva de música e vozes, que facultam um reencontro com o que de melhor representava a música barroca.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

POLÍTICA: a mensagem do cúmplice de passos coelho

O que se pode acrescentar sobre o discurso faccioso de cavaco aos portugueses neste primeiro dia do ano?
Já tudo foi dito sobre a mediocridade atávica do longo percurso político, que ele tem infligido aos portugueses. Por isso não é crível, que ainda houvesse quem dele esperasse o golpe de asa capaz de o dissociar do seu próprio programa ideológico. É que o próprio cavaco teria desejado aplicar grande parte das medidas concertadas com a troika pelo seu amigo catroga, quando chegou a primeiro-ministro na segunda metade dos anos 80. Só que, nessa época, o país tinha um movimento sindical mais forte, uma oposição a sério por parte do Partido Socialista e um contexto internacional ainda marcado pela rivalidade entre o imperialismo norte-americano e o bloco soviético.
Sem nada ter feito para merecer os fundos da CEE, que Mário Soares se esforçara por trazer para o país, cavaco “fez obra” pelo oportunismo de se ter chegado ao pote na altura em que era fácil exibi-la. Mesmo deitando fora setores fundamentais da nossa economia - construção naval, marinha mercante, agricultura - em proveito do betão e das supostas formações financiadas pelo Fundo Social Europeu e em grande parte transformadas em milhentos casos de corrupção para sempre impunes.
O caldo de cultura, que atingiria o seu esplendor com o caso BPN ou o negócio dos submarinos de paulo portas, foi cozinhado precisamente nesses anos de fartar vilanagem para a corte laranja.
Chegados ao primeiro dia de 2014, e apertado por quem se escandaliza por nunca ter sido interrogado sobre essas ligações mais que suspeitas, cavaco foi igual a si mesmo: nunca tendo querido ser o presidente de todos os portugueses, nem o garante de uma Constituição, que tem continuamente abjurado, assume-se plenamente como cúmplice de quem alcançou o poder com o exclusivo propósito de fazer dele a ferramenta utilitária pela qual os ricos enriquecem e os remediados juntam-se à fila desvalida dos mais pobres...


DOCUMENTÁRIO: Sulawesi, os nómadas do mar»

Os Bajau são os nómadas dos mares: Há três séculos que este povo de pescadores, recolectores e caçadores vagueiam nos mares entre a Indonésia, a Malásia e as Filipinas. Tendo como única casa o seu pequeno barco. Mas, já há algum tempo que existe pressão do governo indonésio para os sedentarizar e reduzir o seu nomadismo.
Quanto tempo conservarão ainda a sua cultura ancestral? Hoje os Bajau passam parte do ano numa casa sob estacas. Mas o apelo do mar alto é irresistível e lá vão eles para as águas mais distantes para a sua pesca com arpão.


IDEIAS: o local do trabalho enquanto espaço de manipulação!

Publicado há quatro anos o ensaio de Michela Marzano intitulado «Extension du domaine de la manipulation - de l’Entreprise à la vie privée» poderá ter de ser lido à luz das novas circunstâncias suscitadas pelo culto da austeridade, que fez regredir as relações de poder dentro das empresas, mas continua muito pertinente na forma como analisa a estratégia capitalista para manter a exploração das mais valias apesar de tratar os assalariados com outro respeito e aparente autonomia.

Comecemos por abordar o livro na sua introdução:
Houve um tempo em que, no Ocidente, aquele que tinha a sorte de ter um trabalho, sentia-se feliz. Desde que acordava preparava-se para enfrentar um dia recheado de novos encontros e de desafios a superar.
A caminho do emprego, enquanto a rádio repetia a necessidade de “ousar a reforma permanente”, pensava na reunião da véspera. Era necessário mobilizar as equipas, agir na urgência, ser reativo…
A exemplo dos colegas, tinha confiança no chefe, um homem excecional, que pretendia derrubar as “muralhas internas” e “vencer os imobilismos”.
Ao chegar ao escritório, tão-só aberto o correio eletrónico, logo o telefone começava a tocar. Concluída essa chamada, já a secretária aparecia a anunciar-lhe o início da reunião agendada.
“Não basta ser competente, é também necessário assumir plenamente a sua missão. A paixão vale mais do que o conhecimento.”
O consultor que o dizia estava contratado para motivar os recursos humanos.
“Vocês são os atores do vosso próprio sucesso e da vossa felicidade. A empresa dá-vos os meios de crescerem e emanciparem-se”.
Na pausa do café, o superior hierárquico alertava noutro sentido: “É preciso carregar no prego a fundo: a Direção dos Recursos Humanos acaba de rever em alto os nossos objetivos”.
Já tinham passado várias horas, que saíra do seu gabinete e não cumprira um terço das tarefas a si atribuídas. Fora-lhe atribuído um planeamento e era necessário respeitá-lo. A terapeuta conjugal fora definitiva: “Para ser bem sucedido no casal, é preciso querê-lo. Energia, entusiasmo e empenhamento máximos”.
À noite ele estava fatigado. Mas, ao apagar a luz, já pensava no dia seguinte. Preparava-se para enfrentar um novo dia recheado de encontros e de desafios a superar...
Este mundo, que parece extraído de um mau romance, é o nosso! Mas temos dificuldade em reconhecê-lo ou, mesmo vendo-o, parece-nos tão óbvio, que deixamos de conseguir ter sobre ele um olhar crítico. E é essa uma das características principais do homem moderno “talvez iludido pelo seu sentimento de superioridade”.
É importante que se diga existir quem esteja interessado em mostrar-nos este mundo pelos traços da conquista, da vitória sobre o passado. E, em aparência, parecem ter razão!
Desde os anos 70, o Ocidente saiu progressivamente do que Michel Foucault designava como um universo “disciplinar”, edificado sobre as ruínas da velha ordem medieval.
Esta saída de um mundo ordenado desembocou num novo horizonte, muito mais aberto em que cada um parece entregue a si mesmo.
Ao longo dos anos surgiram mudanças tecnológicas, que aceleraram essa pretensa emancipação dos indivíduos e engendrou um novo tipo de capitalismo.
As alterações culturais e psicológicas, que acompanharam estas transformações da sociedade liberal, produziram um “hiperindividualismo”, um sentimento de insignificância, um narcisismo de efeitos devastadores no ocidente, que alguns não se cansam de condenar.
Assistimos hoje ao que, em jargão epistemológico, se designa como uma “mudança de paradigma”, que pode causar vertigens, mas se revela extremamente sedutor.
Do modelo “paternalista”, segundo o qual a autoridade religiosa, moral ou política, podia interferir constantemente na liberdade dos indivíduos em nome do Bem ou de prevenir o Mal, passámos para um modelo individualista segundo o qual ninguém pode, melhor do que o indivíduo, determinar a sua conceção do Bem e do que quer ou não fazer.
É a realização do sonho liberal de Isaiah Berlin, que evoca o desejo intrínseco de cada homem tornar-se no sujeito da sua própria vida: “acima de tudo, desejo conceber-me como um ser que pensa, que quer, que age, assumindo as responsabilidades pelas suas escolhas e capaz de as justificar em função da sua própria perspetiva das coisas.
Doravante, neste novo paradigma, a liberdade é pintada de acordo com esse tríptico de valores mobilizadores: autenticidade, voluntarismo, autonomia.
O indivíduo contemporâneo, que não quer deixar-se circunscrever ao papel para ele estipulado pelos outros, tem finalmente a sensação de poder vir a ser, finalmente, o que é: vivemos no culto da autenticidade.
Ligado ao seu portátil e em ligação com o mundo inteiro, pensa possuir os meios materiais e tecnológicos para realizar o que queira: é o culto do voluntarismo.
Libertado dos antigos constrangimentos morais, que lhe ditavam o que deveria fazer, o homem ocidental crê-se capaz de determinar precisamente o que deseja: é o culto da autonomia.
Temos, pois, um antigo conceito de autoridade aparentemente marginalizado dentro da instituição empresa em nome da autonomia. Hoje é-se incentivado a arriscar, a gerir as suas próprias tarefas.
O problema é se os objetivos não são atingidos. E eles são tantas vezes definidos com tão injustificada ambição, que funcionam como uma miragem inalcançável. Gerando culpabilização nos que se sentem incompetentes para alcançarem tal sucesso e são “convidados” a dela saírem..
Vivemos, pois, num sistema em que se continua a explorar o trabalho de alguém, mas em que, perversamente, se passa a responsabilidade da maximização dessa exploração para o próprio assalariado.
Às tantas pode-se questionar sobre qual dos sistemas era menos injusto: se quando o patrão esmagava, ou se quando ele nos passou a “reconhecer” autonomia?
Verifica-se no presente uma servidão voluntária, fruto de uma manipulação destinada a fazer crer ao assalariado em como está a trabalhar no seu próprio interesse, quando, na prática, só colabora no alargamento da mais-valia retirada pelo patrão do seu esforço.
Na prática o assalariado moderno reproduz a conhecida imagem do operário em «Os Tempos Modernos», quando é engolido pela máquina e, com um sorriso, continua imperturbavelmente a apertar os pernos, que supostamente é a sua função na cadeia de produção. Verifica-se aí o abandono do seu próprio desejo numa engrenagem totalmente desumanizada.
Vivemos numa sociedade manipuladora, que quer convencer os explorados em como são tratados com respeito e com liberdade. E até há grandes empresas, que têm ginásios no local de trabalho para usufruto dos seus assalariados. Que vão para as passadeiras ou para os aparelhos competirem sempre por melhores desempenhos, replicando, mesmo em suposta pausa de trabalho, o comportamento, que lhes é exigido durante a execução das suas tarefas. Como demonstrava Hanna Arendt num conhecido ensaio, a melhor prisão acaba por ser aquela em que não se veem as grades.
E, no entanto, torna-se normal estar 24 horas por dia contactável através do telemóvel Mesmo quando se vai de férias! E, até estas, não são encaradas enquanto forma de satisfação de uma necessidade intrinsecamente pessoal, mas como forma de recarregar energias e possibilitar melhor produtividade no regresso ao trabalho.
Estamos, pois, numa fase de transformação do conceito de trabalho, mas em que se mantém o objetivo capitalista de gerar uma determinada produção, que não beneficia senão muito parcialmente, quem a cria, espoliando-se parte do seu valor por quem tudo faz para manter perdurável esta relação desigual de direitos e deveres...


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

POLÍTICA: uma questão de liderança!

Será que o Partido Socialista se arrisca a ir de vitória em vitória (autárquicas + europeias)  até à derrota final (legislativas)? Eis uma questão que se coloca a quem anseia por uma transformação social e politica totalmente oposta a este momentâneo anti-PREC. Mas a liderança de António José Seguro não se afirmou por muito que os seus incondicionais no aparelho continuem a querer ver ouro aonde brilha o latão.
Não é só a direita que, em defesa dos seus interesses, o repete exaustivamente: a maioria dos portugueses mostra-se indiferente ao discurso do secretário-geral do PS por muito que ele se esforce denodadamente por o inovar ou multiplicar.
Daí que já se justifique uma possibilidade a considerar: que sendo as europeias na semana seguinte à suposta saída da troika e ainda sem se sentirem os efeitos do plano cautelar, os resultados eleitorais desiludam o suficiente para promoverem uma vaga de fundo no interior do PS, suscitando um Congresso Extraordinário capaz de eleger uma nova liderança com perfil ganhador para as legislativas do ano seguinte.


POLÍTICA: O Injusto Esquecimento de um Homem Bom

Até posso estar a ser injusto, mas nos balanços do ano vistos e escutados um pouco por todo o lado, não dei com nenhuma referência a um dos nomes fundamentais da cultura portuguesa dos últimos sessenta anos e desaparecido em agosto: Urbano Tavares Rodrigues.
A única evocação foi a de Mário Zambujal na entrevista a Nuno Artur Silva no «Nas Nuvens» do Canal Q e que voltou a confirmar a opinião de todos quantos conheceram o autor de «Bastardos ao Sol»: era um homem generoso, capaz de uma inesgotável simpatia, mesmo para quem pensava da forma exatamente oposta à sua.
Teme-se o pior: que a exemplo de um Ferreira de Castro, de um Manuel da Fonseca, de um Fernando Namora, de um José Gomes Ferreira, de um Augusto Abelaira e de muitos outros grandes escritores do século XX, Urbano também seja condenado a um injusto olvido. E, no entanto, quão vantajosa seria a leitura da ficção ou da poesia por eles legadas. Porque continuam a dar resposta a muitas das questões identitárias, que levam os portugueses a viverem esta crise e a tardarem em despertar para formas mais veementes de indignação. Porque, para todos eles, a escrita não era apenas estética nem estilo: existia um propósito utilitário, que explica de alguma forma, porque as autoridades da (in)Cultura fazem todos os possíveis para os votar ao maior dos ostracismos: o do silêncio. Não vá acontecer aquilo que o poeta Aleixo previa: lendo-os, os seus leitores poderiam começar a querer um mundo novo a sério!
Daí a importância de recordar sempre Urbano e todos os grandes escritores, que nos querem fazer esquecer!



POLÍTICA: Não Gostar do que não se Conhece

Fernando Tordo considerou-o um (mau) hábito tipicamente português, mas eu diria tratar-se de característica transversal a muitos outros povos: o de não gostar daquilo que se desconhece. Afinal, o preconceito - e é disso que se trata! - é inerente à espécie humana.
O que já é menos comum é o reconhecimento do muito que com ele se perde. E Tordo fê-lo no «Baseado numa História Verídica» do Canal Q, quando falou de Saramago, lamentando ter tido durante muito tempo a atitude simplista de «não gostar».
No seu caso terá sido a consagração do Nobel a rever essa ideia feita. Mas o preconceito a respeito do autor de «Memorial do Convento» ainda continua muito disseminado na sociedade portuguesa, com gente medíocre a desvalorizá-lo por causa da ideologia, que sempre o norteou. Como é lapidar exemplo o inútil que nos calhou, infelizmente, como presidente desta maltratada República e responsável maior por um dos mais inqualificáveis atos de censura ocorridos em Democracia.
Há também quem reclame sobre a dificuldade de ler Saramago, não arriscando outro tipo de palavreado que não a das revistas cor-de-rosa ou a escrevinhação das rebelos pinto, que poluem os escaparates das livrarias. Razão para a urgência de incrementar políticas educacionais e comunicacionais capazes de contribuírem para que Portugal tenha um povo mais culto e capaz de olhar criticamente para tudo quanto lhe pretendam fazer crer.
O que significa, necessariamente, uma outra forma de governar, que não a desta Direita inculta e mera reprodutora das moribundas ideologias alheias…


FILME: «Yellow Caesar» de Alberto Cavalcanti (1941)

Realizada em 1941, esta curta-metragem de 24 minutos constitui um excelente documentário de agitação e propaganda produzido pelos Ealing Studios, quando a Segunda Guerra Mundial ainda estava na sua primeira fase, com a aliança entre Hitler e Mussolini a parecer invencível nos campos de batalha.
Alberto Cavalcanti, então a viver em Inglaterra, propôs-se fazer uma «avaliação» da biografia do Duce, mormente da forma como ele conseguira ascender ao poder. Para tal inicia com a revelação das origens humildes do político e o seu progressivo domínio dos métodos mais demagógicos para se afirmar, primeiro como sindicalista, depois como chefe político.
Mas Cavalcanti passa ao lado das regras convencionais do documentário para ridicularizar Mussolini através das muitas imagens de arquivo, que trabalha através do recurso à câmara lenta, à inversão dos movimentos e outras estratégias passíveis de ilustrar eficientemente a mordacidade do comentário co-escrito por Michael Foot, um lendário ativista da esquerda britânica, que viria a ser um episódico líder do Partido Trabalhista entre 1980 e 1983. A música e os efeitos sonoros dão um contributo adicional e imprescindível para que Mussolini seja visto como um mero poltrão.
É certo que o filme tem as fragilidades inerentes ao imediatismo do seu propósito e pela escusa de qualquer subtileza, mas não deixa de ser inovador no âmbito de um tipo de cinema quase exclusivamente orientado para a criação de um efeito mobilizador junto do espectador. Mas, segundo Jay Leyda, Yellow Caesar talvez seja uma das obras mais criativas da sua época: “Alberto Cavalcanti retoma imagens do ditador italiano para construir uma estrutura narrativa completamente antagónica ao propósito para o qual tais imagens foram inicialmente realizadas. Elabora uma crítica política contundente através do gesto estético de modificar e deslocar a natureza do discurso/imagem original.”


BANDA SONORA: Janine Jansen interpreta o Concerto para Violino de Tchaikovsky