terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Sinais quotidianos de mudança

1 - A desconvocação da greve do Metro é uma excelente notícia, que só poderá enfatizar a ideia de existir uma nova realidade em que o diálogo e a negociação passarão a substituir o confronto e a imposição autocrática de medidas anti laborais.
Ao contrário do que a direita irá proclamar, não se tratará de nenhuma rendição do governo PS ao PCP, mas do regresso a um dos princípios basilares da Democracia: entre patrões e trabalhadores terão de existir contratações coletivas, que resultem do equilíbrio de interesses de uns e de outros.
Compreende-se, pois, o susto da direita perante uma mudança tão drástica em relação ao que já julgava ao seu alcance: a destruição dos sindicatos e a imposição do «cada um por si e o patrão contra todos» nos que trabalham por conta de outrem….
Por isso é fundamental que a atual experiência governativa dure os quatro anos da legislatura e se recrie o mais duradouramente possível nos anos seguintes. Porque estava-se a criar uma inaceitável cultura de impunidade  nos empregadores e de indefesa humilhação nos que eles empregam.
2 - Curiosa a notícia do «Observador» em como os impunes algozes de José Sócrates já começam a ver o chão a fugir-lhes debaixo dos pés.
O pedido de Carlos Alexandre ao Conselho Superior de Magistratura para que investigue as contas bancárias e telefonemas e afira a sua suposta inocência nas fugas de informação no caso relativo ao antigo primeiro-ministro coloca-o encostado às cordas numa situação em que das suspeitas não se livra. Porque, assim não fosse, como se explica a reiterada conivência tida com rosário teixeira na imposição de medidas coercivas ao antigo primeiro-ministro sem que tivessem consigo sequer meios de prova, que sustentassem uma qualquer acusação? E, sobretudo, como tudo isso sucedeu, quando a direita precisava tanto de agitar o suposto espantalho da corrupção no antigo governo socialista para alcançar os objetivos eleitorais pretendidos?
Fracassada a estratégia, já que o PS parece estar de pedra e cal no governo, qual o interesse de a prosseguir? Não me admiraria que o procurador e o juiz se andem a sentir muito sós por esta altura…
3 - As sondagens da Aximage costumam ser por natureza  bastante negativas para o PS, mas até na mais recente, ontem conhecida, se detetam sinais de mudança no último mês, com o conjunto dos partidos da direita a perderem 1,2%, que se transferiram para o do governo. Por outro lado entre o PSD (35%) e o PS (34%) a diferença está abaixo da margem de erro do estudo.
E, para acabar de vez com a suposta ilegitimidade da nova solução governativa a sondagem é catastrófica para a direita: apenas 19,4% dos contactados ainda acreditam que António Costa governará pior do que passos coelho.
A tendência agora constatada só tenderá a acelerar-se nas próximas sondagens, se elas forem feitas com critérios minimamente objetivos…

domingo, 6 de dezembro de 2015

O tumulto que se lhes adivinha

De todos os artigos lidos neste fim-de-semana sobre a estratégia adotada pelos partidos de direita para se oporem ao novo Governo, o que mais me pareceu contundente foi o de Leonel Moura no «Jornal de Negócios». Porque o conhecido artista plástico coloca a questão numa perspetiva diferente da já formulada por outros comentadores, perguntando-se o que ela suscitará junto da sua “massa social de apoio”:
A birra isola os partidos de direita do debate político tornando-os, aos olhos dos seus parceiros de interesses, sobretudo empresários, irrelevantes. Fora da política, a coligação de direita servirá para fazer alguns títulos de jornal, mas não serve para a decisão, para os negócios, nem para as negociatas. E este é um ponto crítico. PSD e CDS são os partidos que maioritariamente representam o mundo dos negócios, os legítimos e também os obscuros. Muita coisa depende dos bons ofícios e cumplicidade dos seus deputados, dos que se encontram em lugares de poder e decisão. Um alheamento total da cena política é uma tragédia para muita gente. Perdem-se influências, oportunidades e oportunismos.”
Perante essa possibilidade bem real, existem duas hipóteses: ou rapidamente PSD e CDS mudam de discurso e voltam a envergar as vestes de manso carneiro sobre as de lobo mau, ou sujeitam-se a uma movimentada contestação interna, aquilo a que Leonel Moura chama “tumulto”:
O tumulto vai por isso dar-se, só não se sabe quando. Tumulto que não será de ideias, nem de estratégias, mas de pessoas. Numa direita inútil, que não passa da lengalenga, incapaz de proteger os interesses dos amigos, Passos e Portas depressa serão vistos como obstáculos a remover. Portas, porque é pouco relevante e domina um pequeno partido feito à sua medida, pode sobreviver algum tempo. Passos Coelho é mais problemático. Imagina que ainda vai ter uma segunda oportunidade. Mas, se a coisa se prolongar e a desgraça de Costa não chegar depressa, a sua teimosia e rancor não bastarão para enfrentar a oposição dos que não aceitam ver o PSD marginalizado.”
Dentro do interessantíssimo enquadramento político em que nos situamos, observar o que se passará nos partidos da direita à medida que o Governo de António Costa se for consolidando no favor popular será muito interessante de seguir,,,

O mau perder pàfista

Extrato de artigo de Pedro Marques Lopes no «Diário de Notícias»:

Espero que com o debate sobre o programa do governo e a votação da moção de rejeição se comece a discutir política. Que o governo governe e que as oposições se oponham. O que não pode voltar a acontecer é o triste espetáculo a que assistimos na quarta e na quinta-feira.
Perder o poder não será fácil. Perder o poder quando ainda se está a comemorar a sua manutenção ainda mais difícil deve ser. Talvez seja por isso que tem havido tolerância com o já famoso discurso da falta de legitimidade do atual governo. Mas já se foi longe de mais. O que vários deputados do PSD e do CDS fizeram na Assembleia da República não foi nem menos nem mais do que uma falta de respeito pela própria instituição a que pertencem. Assistir a um deputado a dizer que há um primeiro-ministro não eleito é algo que só pode ter duas explicações: ou não sabe ao que concorre quando aceita ser candidato a deputado ou, sabendo, quer enganar as pessoas que o ouvem. Eu podia passar um certificado de ignorante ao cavalheiro, mas sei que ele conhece a Constituição.
Não há quem não conheça a ânsia de agradar, a vontade de personagens secundárias serem mais papistas do que o papa. Já o que não é tolerável é um ex-primeiro-ministro e um ex-vice-primeiro-ministro fazerem as lamentáveis cenas de nem sequer se dirigirem a António Costa como primeiro-ministro ou fazerem piadinhas com vírgulas. Estadistas não insultam os mandatos dos deputados. E pessoas com as responsabilidades passadas e presentes de Passos Coelho e Paulo Portas não podem desrespeitar o Parlamento. O PSD e o CDS são pilares fundamentais da nossa democracia, são partidos institucionalistas, não podem e não devem, por nenhuma razão, cair num discurso de caixa de comentários dum qualquer facebook.
Seja como for, não se percebe onde se quer chegar com a conversa de mau perdedor. Nada mais razoável do que contestar as políticas que o governo quer prosseguir, nada mais legítimo do que exibir as divergências latentes entre os vários partidos que suportam este governo e fazer que eles se desentendam, nada mais claro do que anunciar que se tentará derrubar este governo o mais depressa possível, nada mais honesto do que exigir eleições logo que constitucionalmente permitido. Tudo isso faz parte da democracia, do normal funcionamento das instituições democráticas.
O que o discurso da ilegitimidade não dará ao PSD e ao CDS é qualquer legitimidade acrescida ou qualquer tipo de razão especial se este governo cair por falta de solidez dos apoios que hoje aparenta ter. Se o governo não conseguir manter-se em funções será porque os representantes do povo assim o decidiram, como decidiram agora viabilizá-lo. Só e apenas.
Esta espécie de estratégia de rapazinho a quem tiraram a bola não pode durar muito, claro está. Um partido como o PSD terá de ter uma oposição que mostre um caminho alternativo, mas ficará esta mancha dum tempo em que se mostrou não se saber lidar bem com as regras da democracia representativa, em que o partido não honrou o seu passado e deixou uma memória que pode sair-lhe cara no futuro.

A persistente ignomínia do pasquim matinal da Cofina

Ao conhecer a composição da equipa governativa do Partido Socialista considerei muito positiva o facto, de independentemente de se tratarem de pessoas com muitos méritos, António Costa ter convidado Francisca Van Dunem, Carlos Miguel e Ana Sofia Antunes, que representam simbolicamente a diversidade da população portuguesa, habitualmente afastada dos corredores do poder.
Esse sinal é só mais um que se acrescenta à viragem ocorrida no último mês e que quebrou um conjunto de tradições por alguns julgadas como axiomáticas. Como se quebrando a regra de existir governo sem o respaldo do falacioso «arco da governação», António Costa quisesse igualmente dar prova de ser possível a qualquer cidadão aceder a cargos ministeriais sem que obedeça ao cânone instituído ou que a direita ainda mais pretenderia estreitar. Porque a estratégia de nuno crato em privilegiar o ensino privado tinha subjacente a ambição de só vir a aceder à governação quem tivesse passado pelas lavagens cerebrais em muitos colégios e universidades de cunho marcadamente conservadores.
Muito embora o facto de ter conhecido a pobreza não constitua garante de maior clarividência - vê-se isso com o eleitorado da Frente Nacional de marine le pen em França! - há alguma razão no que Pacheco Pereira escreve na sua crónica semanal na revista «Sábado»:
«O Prémio Nobel da Economia deste ano, Angus Deaton, dizia isso mesmo quando afirmava que a experiência da pobreza dava olhos diferentes para se ver, compreender e dar importância à pobreza. Não é que todos devam ser pobres, mas quem teve dificuldades olha de um modo geral de forma diferente para as dificuldades dos outros, e isso faz muita falta na vida política demasiado liofilizada dos dias de hoje. Estes homens e mulheres conheceram essas dificuldades por terem cor na pele, serem de uma etnia diferente, ou terem uma limitação nos seus sentidos, e por isso a vida lhes foi mais difícil, e trazem consigo uma coragem especial que está antes da sua vida pública. Não precisam de a nomear, ela existe».
O que constitui uma verdadeira indignidade é a forma como outra publicação da Cofina - o seu ignóbil pasquim matinal - cuidou dessa novidade. É que, hoje em dia, até os mais truculentos taxistas terão algum comedimento a olhar para os novos governantes para os tratar de depreciativamente de negros, cegos ou ciganos.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Conivência indesejada

É mais do que certo que Mário Centeno tudo fará para colaborar com a grande mistificação da direita em torno do objetivo de chegar ao fim do ano com menos de 3% do défice.

Não será de bom grado que terá de ser conivente com a falcatrua, mas seria bem pior que o não fizesse, porque prejudicaria em muito todo o programa que o Partido Socialista quer implementar. Mas importa desmentir que o governo de passos coelho tenha conseguido no último ano do seu exercício fazer aquilo que sempre falhou: cumprir os seus objetivos no desequilíbrio entre as receitas e os custos do Estado. E os números da UTAO acabam de o revelar: mostrando como maria luís andou a falsificar as contas mês a mês até outubro para criar as mistificações pretendidas pelos cérebros da propaganda do PàF, só nesse mês gastou mais de 1/3 da dotação orçamental reservada para acolher as “despesas excecionais”, deixando na gaveta apenas uns exíguos 61 milhões, que mal chegam para cobrir uma pequena parte pelos buracos, que deixou
Sabíamos bem que, depois das eleições, começaríamos a ter notícia das vigarices dos ministros do governo anterior para escamotearem o verdadeiro rosto de um país em crise mais grave do que a por eles encontrada. Mas a pequena amostra destes dias já se está a revelar assaz perturbadora.

Ilegitimidades políticas reais

Artigo de Isabel Moreira, publicado no «Expresso» de 5 de dezembro de 2015:

Interessa falar de ilegitimidade política. Não tenho o assunto por desnecessário. Pelo contrário.
A maioria dos votos expressos pelos portugueses convertidos numa maioria parlamentar que naturalmente deu eco ao desejo do povo, tem de ter presente o que é politicamente ilegítimo.
E a esquerda tem.
É politicamente ilegítimo sabermos de um país empobrecido, sabermos de uma economia que recuou mais de uma década, sabermos de um desemprego que recuou duas décadas, sabermos de um investimento que recuou cerca de três décadas, sabermos de um Estado social atacado, sabermos de milhões de pobres, sabermos de milhares de emigrantes forçados, sabermos do abandono das prestações sociais, sabermos do ataque ideológico aos pensionistas e reformados, sabermos do ataque ao coração do mundo do trabalho, sabermos da asfixia da classe média, sabermos do falhanço de todas as metas após este experimentalismo e fazer menos do que rasgar uma política de ataque aos princípios que definem a República.
É ilegítimo não ter por prioridades firmes o crescimento económico, a reconstrução de um país igual e o emprego.
É ilegítimo não devolver o roubo dos rendimentos e da dignidade aos funcionários públicos e aos pensionistas e reformados.
É ilegítimo negar o papel do Estado na criação de condições de investimento.
É ilegítimo não repor um trabalho digno, ter por admissível trabalhar-se e continuar-se pobre, ter por admissível desprezar a cultura e a ciência.
É ilegítimo adormecer perante a morte de tantos por um IVA ideologicamente assassino e não o baixar para 13%.
É ilegítimo ter uma visão de um Estado que padroniza comportamentos, que discrimina em função da orientação sexual, que continua cego perante as desigualdades de género.
É ilegítimo tolerar a pobreza infantil com uma taxa de risco de 26%.
É ilegítimo continuar na Europa a defender a Europa distante dos seus princípios fundadores sem nos batermos por Portugal.
É ilegítimo não aumentar o salário mínimo.
É ilegítimo continuar a vender o país sem vergonha e sem legalidade.
Estas são as ilegitimidades políticas que o novo Governo não tolerará.
Era bom termos uma oposição democrática, que soubesse que não se elege um primeiro-ministro, que Cavaco Silva não poder dissolver a Assembleia a República não é um constrangimento, mas uma imposição constitucional precisamente para que o PR não possa defraudar os resultados eleitorais após as eleições, que o Governo emana do Parlamento. Não temos. Foi possível ouvir no discurso de Paulo Portas na discussão do programa de governo as palavras mais indignas para quem se afirma como democrático.
Como o próprio afirmou, é da vida.
Talvez lhes passe.
O Governo enfrenta ilegitimidades políticas reais.


O que falta para a felicidade ser completa

1. Durante os quase dois anos e meio que, enquanto socialista, tive António José Seguro como secretário-geral, e Maria de Belém como presidente do Partido, nunca me senti representado por eles. As suas ideias e, sobretudo, comportamentos, nunca coincidiram com os padrões do que entendia serem, efetivamente, as da matriz do Partido.
Não fossem os trinta anos de filiação e, sobretudo, a esperança de se conseguir operar uma mudança efetiva à primeira oportunidade e talvez tivesse imitado quantos optaram por se ligarem ao Bloco de Esquerda ou por esperarem um projeto do tipo do Livre em que se voltassem a reconhecer.
Felizmente António Costa avançou no desafio para a liderança e esse foi o momento decisivo para regressar à política ativa e abandonar as tamanquinhas em que me ia acomodando.
Hoje vivo a felicidade de ter um Governo com que me reconheço no seu todo e num projeto de convergência de toda a esquerda, sempre ambicionado desde há quarenta anos. Porque sempre tive para comigo a noção de que o PCP ou o Bloco podem ser adversários políticos, mas o PSD ou o CDS correspondem à outra trincheira, à daqueles com que nunca nos podemos identificar por pretenderem o contrário do que ambicionamos: uma sociedade mais justa e igualitária, em que todos os cidadãos sejam respeitados.
Mas esta felicidade - que, como José Vítor Malheiros dizia há dias no «Público» - é a de todos os democratas, só poderá completar-se com Sampaio da Nóvoa como Presidente da República. Porque é o único dos três principais candidatos a identificar-se plenamente com o novo ciclo político comandado pelas diversas esquerdas.
Quer Marcelo, enquanto representante oficial dos partidos agora derrotados, quer Maria de Belém por tudo quanto fez contra António Costa durante as Primárias e durante a própria pré-campanha para as legislativas, é personalidade em quem não se pode de modo algum confiar. E isso mesmo o confirmou na entrevista de ontem ao «Jornal de Negócios», onde disse que não enjeitaria dissolver a Assembleia da República se estivessem em causa os compromissos europeus, denunciando a sua ordem de prioridades, que tem os cidadãos como nela secundários .
Só faltou mesmo confessar que também dissolveria essa mesma Assembleia se estivessem em causa os superiores interesses da banca ou da indústria farmacêutica de que sempre foi ativa lobista no Parlamento...
2. No debate, que antecedeu a moção de rejeição, foi delicioso ver a direita ostentar todo o fel, que a vem aziando, ao impedir-se de reconhecer a António Costa o tratamento formal e respeitoso enquanto primeiro-ministro.
Entre «primeiro-ministro não eleito» e «chefe do governo», os oradores empàfiados morderam-se para escusarem-se ao que não gostariam de reconhecer em António Costa. Como escrevia Ferreira Fernandes no «DN» Primeiro-ministro sozinho é que não, é pecado capital, quem o disser denuncia-se como assinante do Avante”. 
Por agora irão entreter-se em tais demonstrações tardias da sua tão prezada “novilíngua”, mas não será por muito tempo. Aceitam-se apostas por quantas semanas ainda perdurarão este tipo de bravatas, que só denunciam o despeito dos maus perdedores...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Contra os inconsequentes «nins», as fortes convicções

Nas próximas semanas irão acontecer muitas oportunidades para o separar de águas entre as várias candidaturas presidenciais, sendo possível aos eleitores optar por aquela com cujos valores mais se identifiquem.
O Prof. Sampaio da Nóvoa é o candidato natural de todos quantos pretendem ter em Belém quem mostra as qualidades de independência dos partidos políticos e de compromisso com políticas opostas às de austeridade como as conhecidas nos últimos quatro anos. Daí que Marcelo Rebelo de Sousa seja o voto a evitar por quem pretenda ver definitivamente fechado o ciclo, que se espera definitivamente encerrado com a posse do XXI Governo Constitucional.
Interessa, pois, saber de entre os dois mais bem colocados candidatos situados à esquerda do espectro partidário o que fariam se fossem derrotados na primeira volta e tivessem de aconselhar o voto para a ronda seguinte.
Na elucidativa entrevista dada à Antena 1, Maria de Belém hesitou na resposta, acabando por condescender na possibilidade de optar por Sampaio da Nóvoa. Tratou-se, pois, de mais um exemplo da sua conhecida característica de responder «nim» a tudo quanto lhe perguntam.
Já Sampaio da Nóvoa não teve quaisquer dúvidas no esclarecimento: “Para mim é uma garantia: não votarei na candidatura que vejo como como a candidatura das políticas de austeridade, dos rostos do passado, de Passos Coelho, de Paulo Portas e das políticas que foram feitas nos últimos anos” 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Uns que olham para o futuro e os que só sabem olhar para trás

1. A distância geográfica não me privou de acompanhar o essencial dos debates parlamentares desta tarde. Embora eles não tenham sido particularmente diferentes do que deles previamente antevia: a direita dividida entre os polícias “mesmos maus” com um discurso mais raivoso (hoje foi telmo correia e paulo portas) e o polícia “menos mauzinho” (passos coelho), capaz de entreabrir a possibilidade de uma tímida abertura ao diálogo num futuro mais ou menos distante.
Por seu lado os discursos de Carlos César e de Augusto Santos Silva, mesmo com as sibilinas alfinetadas do segundo, foram de verdadeiros estadistas, que olham da varanda do poder para os inconformados arrivistas, novamente reduzidos à condição de parlamentares minoritários.
Com o seu quê de paternal, César e Silva falaram para os abespinhados oposicionistas, lembrando-lhes os  requisitos da Democracia e deixando-lhes subliminarmente o conselho para que sejam menos crispados e mais colaborantes.
À medida que se sucedem as sessões parlamentares, é cada vez mais abissal a diferença entre a qualidade dos deputados à esquerda, todos eles focalizados na necessidade de se solucionarem os grandes problemas nacionais e os da direita, que não parecem pensar noutra coisa, que não seja nesse seu  passado de que se sentem cada vez mais distantes.
2. Embora tenha conhecido o seu período económico e financeiro menos mau, quando teve de aceitar, a contragosto, a relevância do consumo propiciado pelos vetos do Tribunal Constitucional, a direita continua a diabolizá-lo como origem de todos os males.
Não o consumo dos ricos, que esse é por ela prezado como natural e inquestionável. Mas as aspirações a padrões de vida mais desafogados por parte dos pobres e remediados, que acusa de despesistas e de estarem acima das suas possibilidades.
Nestes últimos dias a direita tem sido fértil em repetir a acusação ao governo do PS, que mais não seria do que a reedição do de Sócrates nesse mesmo “pecado”, quando sabe perfeitamente onde esteve a origem da crise de 2011: no comportamento criminoso de banqueiros, que a causaram e, depois, tudo fizeram para lhe recolherem os perversos benefícios.
Desonesta, esta direita nem sequer consegue aceitar quão em contraciclo se encontra no momento em que o próprio Banco Central Europeu  está a preparar medidas capazes de fomentarem o consumo dos povos europeus como forma de combater a deflação e estimular o crescimento. Mas esta direita já demonstrou não ser capaz de ver além do que a sua quase cegueira permite.
3. Regressando ao tema dos 12 500 enfermeiros emigrados nos últimos sete anos há ainda um dado elucidativo a acrescentar: na OCDE em cada mil habitantes há 8,6 enfermeiros, mas em Portugal esse indicador desce para 6,2.
Dá, pois, para concluir que só a aposta da direita na degradação progressiva do Serviço Nacional de Saúde pode explicar essa condenação de tantos jovens obrigados a partir para emigração, sem usufruírem o direito de terem uma vida digna na terra onde nasceram.

A rejeição de quem foi merecidamente rejeitado

1. Na capa do «Público» os números são elucidativos: nos últimos sete anos emigraram 12 500 enfermeiros, sobretudo para França, Inglaterra e Reino Unido. 
E quantos terão sido os engenheiros, os arquitetos, os médicos e tantos outros licenciados, mestrandos e doutorados de outras especialidades?
Quantos milhões de euros de investimento na sua educação perdeu o país para os entregar sem contrapartidas financeiras aos países para onde foram aplicar as competências aqui obtidas?
Eis um dano irreparável, que as políticas de direita causaram às finanças públicas!
2. No debate sobre o Programa de Governo a direita estava tão insegura quanto à decisão de apresentar uma moção de rejeição, que logo se apressou a desafiar António Costa a sujeitar-se a uma moção de confiança.
A resposta foi loquaz e definitiva: “Só precisa de confiança quem não tem confiança. E este — lamento desiludi-lo — é um Governo que se apresenta com confiança, com um suporte maioritário no Parlamento.”
Esta afirmação provém de um político, que é exatamente o oposto daquele a quem sucedeu no cargo: António Costa sempre se revelou precocemente brilhante desde que se inscreveu no Partido Socialista com 14 anos. Nos cargos que desempenhou revelou uma competência e uma capacidade para transformar a realidade para melhor, que a autoconfiança é precisamente uma das suas principais características pessoais.
Ao invés todos conhecemos o percurso de passos coelho: o curso obtido tardiamente, os empregos sempre conseguidos graças às cunhas providenciais e a convicção de se julgar com capacidades muito para além do que aconselhariam as suas competências. Por isso mesmo, falho de ideias próprias, só poderia “comprar” uma receita alheia - a de schäuble e Cª - para agradar àqueles de quem aspira vir a recolher prebendas mais significativas. É que alguém acredita ver passos contentar-se com cargos de administração em empresas do tipo Tecnoforma?
A forma apressada como quis concluir diversas privatizações, nomeadamente a da TAP, poderá ter subjacentes expectativas já negociadas ou a que se julga com direito para quando se cansar de ser líder de uma oposição condenada aos sucessivos «inconseguimentos».
3. Outra das clarificações ontem deixadas por António Costa foi a do relacionamento do Governo com o Conselho de Concertação social.
Recorde-se que essa fora uma das “dúvidas” levantadas por cavaco silva para demorar a tomada de posse do novo Governo. O que se compreendia: esse Conselho foi um dos mais determinantes alibis para que o anterior executivo impusesse medidas gravosas aos trabalhadores, já que a enorme maioria das organizações patronais ali representadas acolitavam as propostas vindas de passos & Cª dentro da lógica do “esfola” depois do “mata”.
Foi por isso muito importante que Costa tenha declarado: “O Governo não decidirá sem o contributo indispensável da concertação em todos os domínios em que ela é relevante, mas também quero deixar claro que nunca se escudará na concertação para deixar de decidir ou protelar as decisões que se imponham para cumprir o nosso programa.”
É que o desequilíbrio na relação de forças entre o capital e o trabalho tem sido tal, que urge restabelecer alguma equidade. Por muito que ela desagrade aos senhores da CAP ou da CIP. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A nossa alegria e o azedume deles

Na sua coluna de opinião no «Público», José Vítor Malheiros diz algo que deveria ser considerado como inquestionável: “Os últimos dias deram muitas razões de alegria aos democratas. Não, não digo às pessoas de esquerda. Digo aos democratas. Àquelas pessoas que acreditam que a soberania reside no povo e que todos os cidadãos, todos sem exceção, são iguais em direitos e devem ser livres para exercer esses direitos e para beneficiar dos seus frutos.
Àquelas pessoas que acreditam que a liberdade é um valor universal e que pertence a todos por igual e não apenas aos que têm mais rendimentos, um nome de família  mais ilustre, mais instrução ou mais qualquer outra coisa.”
De facto são os democratas, que se devem congratular com tudo quanto tem acontecido, porque voltamos a viver num país onde os direitos constitucionais voltam a ser respeitados ao contrário do sucedido nos últimos quatro anos, quando o governo de passos coelho sempre apostou em implementar políticas à sua revelia.
Não admira que um antidemocrata, com maior notoriedade do que mereceria, ostente todo o seu fel noutra crónica do mesmo jornal, onde tem privilégios de última página. Essa criatura, que dá pelo nome de joão miguel tavares, não hesita em virar-se contra outros cronistas do «Público» (Pacheco Pereira, Rui Tavares) ou contra um dos seus principais jornalistas (Paulo Pena) como se eles tivessem invadido todo o espaço de opinião publicada e o deixassem, ao pobre imbecil, a perorar sozinho numa praça sitiada.
A direita anda atoleimada com a reviravolta nos acontecimentos, que nunca conseguiu imaginar possível. E por isso anda ansiosa por vislumbrar sinais de fratura entre os quatro partidos, que tornaram possível a maioria parlamentar. Com acuidade Miguel Guedes escreve no «Jornal de Notícias» algo de percetível para quem a observa de fora, mas de que ela nem sequer quer reconhecer: “Olhar para os dois lados. Aqueles que não dormem sem lançar adivinhas sobre como podem os partidos à esquerda do PS fazer oposição quando acordaram viabilizar políticas comuns, são os mesmos que não cuidam de ventilar o verdadeiro foco de tensão que sopra e aquece à direita, em lume brando, na coligação de oposição. Talvez porque seja óbvio. Talvez porque saibam que é à direita que a rutura é inevitável.”
Porque é só uma mera questão de tempo: à medida que o seu discurso bota abaixo se esgotar, e a esquerda der mostras de grande resiliência contra todas as armadilhas e obstáculos a ela estendidas, a direita está condenada ao processo do passa culpas, primeiro, e das mútuas acusações, depois. O ocaso definitivo das cumplicidades pàfistas é uma mera questão de tempo. Com o CDS e o PSD, cada um por seu lado a obrigarem-se à reinvenção das suas propostas ideológicas, depois de as verem recusadas por mais de metade do eleitorado.
Vivemos em pleno um tempo de grande alegria. Que o mesmo José Vítor Malheiros enuncia assim: “O grande motivo de alegria é (…) o fim de um Governo de patriotas de lapela e colaboracionistas no coração que se dispunha a destruir alegremente o país, pilhando o património que pudessem, destruindo o Estado e humilhando os trabalhadores, aumentando a dívida pública e recusando-se a defender o país nos organismos internacionais para não indispor os poderes.”

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A direita, marcelo e o desemprego

1. Segundo os jornais passos coelho vai garantir o apoio oficial do PSD a marcelo rebelo de sousa por considerar que a vitória deste significaria uma derrota para António Costa.
É assim que a direita decidirá fazer política nos próximos tempos: em vez de escrutinar as propostas do PS, progressivamente implementadas na governação, e de, quiçá, apresentar alternativas capazes de representarem uma melhoria para a vida dos portugueses, quererá pessoalizar ao máximo o quotidiano parlamentar através da diabolização do primeiro-ministro. Os assassinatos de carácter tornar-se-ão regra nas diatribes parlamentares até que, nauseados, os seus autores se quedem atordoados com a ineficiência da sua estratégia.
Até é provável, que marcelo seja o mais incomodado com o apoio dos partidos da direita: os eleitores dessa área política estão-lhe naturalmente garantidos, pelo que ter passos coelho a reivindica-lo como seu candidato, só poderá prejudica-lo junto dos que quiseram pôr na rua o governo de passos coelho. E que, a 4 de outubro, foram bem mais do que 50%.
2. Uma a uma as principais bandeiras com que a direita se apresentou às eleições de 4 de outubro vão caindo progressivamente, confirmando a ideia generalizada de cavaco não ter convocado eleições para a primavera passada, por passos coelho lhe ter asseverado que outubro seria o momento certo para conjugar todas as mistificações, que tinha em preparação.
Agora, desmascarada a falácia da devolução da sobretaxa, é o mito do desemprego em queda, que cai: segundo o INE em setembro ele voltou a crescer para 12,4%, confirmando o fracasso da estratégia da direita para resolver aquele que é um dos problemas fundamentais com que se confronta a nossa sociedade.

Desastre ecológico na África Central

Uma das mais significativas migrações humanas verificadas em África nas décadas mais recentes teve como protagonistas as populações dos quatro países, que viviam nas margens do lago Chade.
Em 1960 a sua área era de 25 mil km2, reduzindo-se hoje para um décimo, com as implicações consequentes na produção agrícola e pesqueira e na capacidade de sobrevivência das populações, por isso tentadas a mudarem-se para as grandes cidades.
No vazio deixado em tão vastas áreas proliferou o Boko Haram, um dos mais sinistros movimentos terroristas hoje em atividade. Razão mais do que bastante para fazer da recuperação do Lago Chade uma das prioridades políticas na região ou não tenham origem essas hordas assassinas na pobreza extrema a que se condenaram populações despojadas de qualquer esperança num futuro melhor. E por isso mais permeáveis a discursos apocalíticos em que a vida deixa de ter o sentido, que deveria ter...