terça-feira, 27 de julho de 2010

UNIR A ESQUERDA

Tese singular e pertinente a que Rui Tavares apresentava ontem no «Público» a respeito da proposta de revisão constitucional de Passos Coelho: não é que se acredite no PSD no fim imediato do Sistema Nacional de Saúde. Mas ao aludir a essa possibilidade a direita irá procurar inseri-la no inconsciente colectivo para a exequibilizar mais à frente.
Num exemplo muito feliz, Rui Tavares dá este exemplo: imaginemos que o PSD propunha que o país relançasse o projecto de viagem até Marte. Mas, não sendo possível de imediato, acaba por propor, e conseguir, a destinada à Lua. Ora, a reacção adequada seria a de arrumar a questão com a constatação de nunca ter estado sequer em cima da mesa um qualquer programa espacial.
Esta estratégia denota uma inteligência, que não tem sido frequente na direita em Portugal. Se algo caracteriza o actual projecto do PSD  é a visão de objectivos a longo prazo, alcançáveis mediante pequenas e sucessivas vitórias imediatas.
É por isso que a esquerda terá de contrapor uma maior inteligência no que deverá fazer a seguir, procurando diluir divergências e propor o máximo denominador comum de tudo quanto as possa unir. Sob pena de abrir caminho a formas inaceitáveis de recuos civilizacionais no campo dos direitos da maioria sociológica da população...

sábado, 24 de julho de 2010

Os impasses de direita

A leitura dos jornais do dia vai confirmando a ideia de exagerou quem entendia chegado o fim da História com a vitória definitiva do deus Mercado sobre  o legítimo anseio da maioria da humanidade em ver cumprida a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Se a actual crise económica ainda serve de trampolim aos que querem inflectir o curso da História, momentaneamente travada pelas sequelas da queda do muro de Berlim, os sinais de incapacidade da direita ideológica para evitar as consequências de uma agudização das diferenças entre os muito ricos e os miseráveis vão-se acentuando.
Na Alemanha, Merkel atinge o nível mais baixo de aceitação das suas políticas. Em França Sarkozy não se consegue livrar das revelações do caso l’Oréal. Em Itália Berlusconi atola-se nos interesses antagónicos e explosivamente conflituosos dos seus principais apoiantes (Bossi e Fini). E, em Inglaterra, Cameron vai escandalizando o orgulho britânico com gaffes inacreditáveis, enquanto os seus parceiros liberais afirmam posições, que se justificavam na Oposição mas devem ser comedidas ao ganharem a dimensão de definição estatal.
É certo que a Esquerda ainda só vai ciciando alternativas políticas pouco convictas, mas não se duvida da sua necessidade de defesa do Estado Social tão vilmente atacado pelos ultraliberais. Falta-lhe encontrar apenas o modelo do seu financiamento sustentado. Incluindo a possibilidade de nacionalização de negócios rentáveis com os quais gere as receitas necessárias às suas políticas redistributivas.
Interessante será a leitura das próximas sondagens nacionais tendo em conta que, tão só começou a falar, a estrela de Pedro Passos Coelho logo começou a empalidecer. Tanto mais que reavivar o debate da revisão constitucional, quando os portugueses se preocupam sobretudo com o desemprego só contribui para, antes de experimentar a sua receita na prática governativa, ele passar à condição de «has been».


sábado, 10 de julho de 2010

NOVAS OPORTUNIDADES


Em discussões, que tenho alimentado com alguns críticos das políticas de José Sócrates, um dos temas obrigatórios é o programa das Novas Oportunidades. Para tais cultores da maledicência trata-se de uma fraude, porquanto constitui uma forma de atribuir diplomas a quem não tem conhecimentos que os justifiquem.
É outra a lógica desse programa, aliás bem expresso num caso relatado no «Público»: o comandante de uma das principais corporações de bombeiros da Beira Interior está agora a frequentar esse programa porquanto o 9º ano de escolaridade passou a constituir requisito obrigatório para essa função.
É certo que, provavelmente, o senhor em causa até talvez nunca venha a saber de matemática ou de geografia o que um aluno do 9º ano é obrigado a saber. Mas, pelo contrário, ninguém lhe baterá a palma nas melhores formas de prevenir ou apagar um incêndio.
No fundo, o que se está a qualificar é um conhecimento obtido da experiência de muitos anos e que é injusto depreciar em relação a outros de características menos aplicáveis na sua vida quotidiana.
É nesse âmbito que o programa das Novas Oportunidades faz todo o sentido.
Em discussões, que tenho alimentado com alguns críticos das políticas de José Sócrates, um dos temas obrigatórios é o programa das Novas Oportunidades. Para tais cultores da maledicência trata-se de uma fraude, porquanto constitui uma forma de atribuir diplomas a quem não tem conhecimentos que os justifiquem.

É outra a lógica desse programa, aliás bem expresso num caso relatado no «Público»: o comandante de uma das principais corporações de bombeiros da Beira Interior está agora a frequentar esse programa porquanto o 9º ano de escolaridade passou a constituir requisito obrigatório para essa função.

É certo que, provavelmente, o senhor em causa até talvez nunca venha a saber de matemática ou de geografia o que um aluno do 9º ano é obrigado a saber. Mas, pelo contrário, ninguém lhe baterá a palma nas melhores formas de prevenir ou apagar um incêndio.

No fundo, o que se está a qualificar é um conhecimento obtido da experiência de muitos anos e que é injusto depreciar em relação a outros de características menos aplicáveis na sua vida quotidiana.

É nesse âmbito que o programa das Novas Oportunidades faz todo o sentido.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ser ou não ousado, eis a questão!

Há dias um empresário no ramo da distribuição de produtos  tecnológicos confiava-me ter aumentado o volume de stocks no seu armazém central porque, na previsão de quebras de vendas, os seus concorrentes iriam apostar mais facilmente na redução de tais quantidades. E, por isso mesmo, iriam inevitavelmente penalizar os seus clientes, quer em preço  - porque comprariam menos quantidades, com menores descontos, nos seus fornecedores de origem - , quer em prazos de entrega. E então iriam ao seu encontro!
Chama-se a isto aproveitar as oportunidades num contexto de crise. E revela, igualmente, uma de duas atitudes possíveis nesta conjuntura: ou ser ousado e investir na expectativa de se adiantar à concorrência subitamente paralisada pelos habituais velhos do Restelo. Ou ceder a estes e praticar uma economia de dona de casa, que aferrolha o mais possível sempre na expectativa desse futuro temível pago pelos nossos filhos e netos.
Lamentavelmente os velhos do Restelo de hoje são os mesmo que, nos tempos idos, nunca fizeram o que deveriam para evitarmos chegar a este estado. E gente ousada, capaz de procurar Índias e Brasis, quando aqui escasseiam os recursos, só no Governo se encontram.
Mas devemos admirar-nos com tal facto? Muitos dos nossos economistas alimentaram-se anos a fio das ideias de Friedman, que resultam neste desastre anunciado. E têm agora uma dificuldade extrema em se porem a ler Keynes, Stieglitz ou Krugman.

Um país de absurdos

Passam-se situações absurdas no nosso tempo presente. Uma delas a da tentativa de acusação do primeiro-ministro por parte de uma jornalista, que se pretende difamada.
É preciso, de facto, topete para avançar com um processo destes. Em primeiro lugar, porque foi notória a estratégia de tal personagem, quando liderava os serviços noticiosos de uma estação televisiva, em achincalhar continuamente aquele político. Como se viu sem provas, que um qualquer tribunal avalizasse como fundamentadas.
Depois, porque vivendo o país numa situação complicada, ainda existe quem não tenha aprendido com o actual líder da oposição, que não se cumprem desígnios politicamente éticos com assassínios de carácter, mas com ideias alternativas às propostas por quem governa.
Tentativas destas só surpreendem por encontrarem juízes, que lhes dêem crédito e lhes permitam os objectivos mediáticos pretendidos. Mas o país, a contas com tantas dificuldades, bem dispensaria mais esta inócua polémica. Que cedo morrerá como fruto da sua completa falta de senso.

sábado, 29 de maio de 2010

Da má-língua ao questionamento lúcido da realidade

O artigo que Leonel Moura assinou ontem no «Jornal de Negócios» é bastante certeiro na forma como analisa este momento português: impera à nossa volta a má-língua permanente de quem fala, fala, mas nada faz.
Pode-se dizer cobras e lagartos do primeiro-ministro nos cafés ou nos fóruns televisivos, mas quem protagoniza tais dislates, nada faz de útil para mudar os acontecimentos. Não milita em partidos, nem em associações, e quase por certo se escusa aos gestos solidários para com quem se cruza na rua. Pelo contrário: alimenta um ódio visceral pelos miseráveis, que vegetam à conta do rendimento mínimo, como se essas esmolas os privassem dos maiores privilégios.
É o Portugal derrotado, como muito bem afirma o artista plástico, ou seja aquele que perante as Índias continua a repetir os discursos balofos dos velhos do Restelo. Não querendo TGV’s nem aeroportos, muito menos estradas para facilitar a circulação mais rápida de pessoas e mercadorias.
Há, ainda assim, um ponto de viragem a constatar-se: as sondagens, que dão prometedores resultados ao novo líder da direita,  demonstram o prémio para quem se dispõe a agir construtivamente, em vez da aposta na estratégia da «terra queimada». Talvez esse facto demonstre um certo enfartamento dos portugueses por essa má-língua e se disponham, então, a questionar o que de positivo pode influir no seu futuro.
Talvez se aproximem, enfim, do que é entendido  por muitos, mas ainda insuficientes para alterar o presente estado das coisas: que na origem de todos os nossos males está um «capitalismo canibal» (designação certeira de Baptista Bastos), que privilegia o sucesso baseado nos indicadores económicos, e sobretudo nos lautos lucros das grandes corporações, mas se esquece dos milhões de desvalidos, condenados ao desespero.
Decerto que o futuro está no europeísmo, garante de paz e de desenvolvimento dos povos do continente, como passo intermédio para o grande objectivo ideológico do futuro: uma mesma humanidade, sob um governo de todos e para todos, no respeito pela vontade de um planeta de recursos limitados.
Daí que esse mesmo futuro obrigue a uma outra atitude para com a aquisição e conservação dos bens efémeros: é a sociedade de consumo desenfreado, que está a conhecer uma contestação dos factos, que não das vontades. Mas serão a circunstâncias a ditar a importância da interiorização dos bons hábitos da poupança. Até para garantir uma vida decente nos últimos anos de uma existência cada vez mais prolongada pelos sucessos da medicina.

Uma questão de educação

Numa recente entrevista, o jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes  afirmou que  o maior problema e a coisa mais insidiosa da ditadura salazarista não era a Pide, não foi o Tarrafal. Foi o facto de termos vivido tanto tempo debaixo de uma ditadura de ignorância que se perpetua.
Pelo resultado da sondagem hoje publicada nos jornais o problema subsiste, quase sem alteração, oitenta e dois anos depois de iniciada a rebelião militar, que instauraria a ditadura fascista. É que a crise financeira, e todas as ameaças de empobrecimento da maioria da população portuguesa, criam o caldo de cultura de onde volta a emergir o tenebroso ovo da serpente.
Qual mancha de óleo a manchar a limpidez de uma água cristalina, espalham-se atoardas a respeito do exagerado número de políticos ou dos seus superlativos ganhos. Como se a actividade política não devesse ser, em democracia, a mais ilustre das funções e, enquanto tal, a melhor remunerada para a ela atrair os melhores.
Ao desenvolver o discurso niilista anti-políticos, a direita mais retrógrada volta a recorrer aos ignorantes enquanto idiotas de serviço à sua totalitária intenção. E, uma vez mais, é à educação, ao debate, à militância combativa pelas ideias mais solidárias, que a esquerda deve recorrer como contrapeso.
Têm sido tantas as derrotas ao longo destas últimas décadas, que é altura de sustentar as nossas mais efémeras vitórias. Até porque as receitas liberalizantes deixaram de constituir resposta eficaz a esta crise actual.
É preciso apostar na criação de uma nova sociedade com ideias renovadas quanto ao seu modelo de organização.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Previsões exageradas

É algo de muito complicado em cada semana: diversas pessoas vão-me contactando porque, julgando-me em situação de maior poder do que efectivamente tenho, me querem pedir ajuda para lhes encontrar emprego, seja por estarem desempregadas, seja por já não receberem ordenados há alguns meses.
Esta frequência de apelos desesperados tem-se vindo a agravar nos meses mais recentes, sobretudo a partir da altura em que a crise financeira internacional se traduziu no ataque especulador à moeda única europeia, servindo-se da Grécia e de Portugal como os elos mais fracos de uma corrente orientada para toda a União continental.
Os defensores do dólar tinham passado por violento susto, quando viram essa moeda a perder relevância num mundo progressivamente orientado para a divisa rival, razão para não deixaram escapar a oportunidade de recuperarem a dominação anterior. Infelizmente, a direita europeia personificada na atarracada chanceler alemã foi sua cúmplice, ainda se está para ver se voluntária, se involuntariamente.
Para esta situação o Governo de José Sócrates nada pôde fazer. Balizado nas receitas keynesianas apostara nas grandes obras públicas como forma de dinamizar o mercado do emprego e gerar fluxos de circulação fiduciária em toda a nossa realidade.
Pode-se-lhe assacar muitas críticas quanto à exagerada ambição do referido plano de investimentos, mas ele era o único capaz de promover a criação de dezenas de milhar de postos de trabalho e de travar a provável recessão económica.
Não lhe foi possível traduzir essa visão em realidade. Por um lado, porque um conjunto de bafientos velhos do Restelo andaram a conspirar para parar com todos os projectos, voltando á velha solução salazarenta de guardar o oiro e manter a camada mais pobre da portugalidade naquele limiar de sobrevivência mínima tantas vezes geradora de desesperos suicidas. Depois, porque se manteve essa conjugação de interesses entre especuladores, agências de rating e a direita europeia para pôr um termo ao agregador euro.
Agora resta a José Sócrates ir cumprindo os programas do PSD, sem se libertar de uma espiral de descontentamento crescente do eleitorado.
Mas quero crer o quão errados estão os urubus atentos ao estertor do primeiro-ministro para o começarem a debicar. Quem já lhe preparou o discurso fúnebre bem o poderá guardar por mais algum tempo. Como dizia Mark Twain, as notícias sobre a sua morte são bastante exageradas...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Uma questão de idiossincrasias...

Numa recente entrevista à Télérama o escritor grego Nicos Panayotopoulos refere que muitos compatriotas têm detectado um súbito embranquecimento nos cabelos do primeiro-ministro George Papandreou. E essa constatação tem suscitado uma grande admiração pela fibra estóica de um homem a contas com tão problemático destino quanto é o seu e o do seu povo. Porque enfrentar uma crise desta dimensão é para gente corajosa e de grande determinação. E, por isso, embora um multidão em pânico se manifeste nas ruas de Atenas contra as incertezas do seu futuro, a maioria dos gregos já sabe quanto incontornável é a opção seguida pelo Governo. E apoia-a.
Lamentavelmente não se passa o mesmo em Portugal aonde os sinais de envelhecimento precoce de José Sócrates são igualmente bastante óbvios. Ao pundonor com que tem procurado levar o país na direcção de uma modernidade mais competitiva,  têm respondido as diversas corporações ameaçadas por medidas previstas ou aplicadas no mandato anterior, e que tudo têm feito para o apear. Com a conivência activa desses cada vez mais desmascados mercenários do presente, que são alguns jornalistas com uma visão muito própria do seu código de conduta...
Estou em crer que, a consegui-lo, derrubam o mais brilhante político da sua geração, aquele que não se conformou, nem se conforma, com um país no diminutivo e o quis fazer ombrear com os mais avançados.
Que se tente heroicizar uma brigada do reumático, que tudo quer travar em nome de salazarentos discursos e apoiada num dos seus mais lídimos representantes (por ora ainda sentado em Belém) diz muito sobre a diferença entre gregos e portugueses. E talvez se clarifique melhor a razão, porque, na altura da grande decisão, foram eles a conquistar o Europeu de futebol em detrimento de uma selecção scolarizada, também ela vergada a valores e concepções dos tempos da outra senhora…
Ou porque uns são alegres dançarinos ao som do bouzouki e outros se deprimem ao ritmo fadista da guitarra portuguesa...

sábado, 8 de maio de 2010

Cegueiras involuntárias

É bem conhecida a tendência para nos distrairmos do que está mesmo ali à nossa frente e com que embatemos, quer se trate de um objecto ou quer de um conhecimento para os quais deveríamos ter tomado determinadas precauções. O chavão inglês, inattentional blindness (cegueira sem intenção), está a ser glosado em muitos artigos científicos, que reconhecem existir uma incapacidade humana para ver coisas que estão à frente dos olhos apesar de se tratar de algo facilmente explicável: as pessoas ou não estão preparadas para aquilo ou estão a prestar atenção a outra coisa.
Cabe-nos interrogar se, nesta altura, em que a crise financeira está tão intensa com os movimentos especulativos a abalar todas as teorias consolidadas da gestão capitalista e diversos países à beira da bancarrota, se a maioria das populações, agora condicionadas no seu bem-estar pelas ameaças de desemprego e de efectiva pauperização, não deveriam despertar para a realidade mais óbvia: depois da falência de um certo tipo de comunismo, está-se à beira de assistir à implosão do sistema de mercado livre, exigindo-se o advento urgente de uma nova via para evitar as, por ora aparentemente inevitáveis, crises sociais.
A bem da própria sobrevivência da espécie, exigem-se outras políticas e modelos de organização social em que não se esqueça a preservação dos ecossistemas e se reequilibre os abismos cavados entre a qualidade de uma minoria de privilegiados e a grande maioria dos desvalidos.
Se no início da Primavera de 1968, quem visitasse Paris, não poderia imaginar o que viria a aí ocorrer dois meses depois, pode-se estar à beira de algo similar. É que, nesta altura, não são apenas os vulcões islandeses a darem mostras de uma pressão interna ansiosa por se libertar.
Se, pessoalmente, julgava, com o 25 de Abril, já ter esgotado o direito à revolução politica correspondente ao meu tempo de vida, são os próprios especuladores financeiros a contribuir para uma reposição do mesmo filme, como já os gregos estão a protagonizar.
Uma coisa parece certa: nem à direita, nem do lado da social democracia, aparece nenhum iluminado com soluções para os dilemas presentes. O que leva a exigir muito mais à esquerda do que o actual negativismo dos ex-trotsquistas ou a cartilha desactualizada dos comunistas.
De onde poderão vir novas ideias para o renascimento de promissoras utopias? Esperemos que já comecem a clarear os pensamentos de quem se tem deixado distrair com a espuma desta crise e a escalpelize com a profundidade bastante para sugerir novos caminhos.
Estamos, pois, no dealbar de uma nova fase em que abandonando essa cegueira involuntária, os povos deverão deixar de se focalizar no que os media e os governos afirmam ser o essencial, para prestarem a sua atenção às alternativas viradas para o seu futuro...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PARLAMENTAR OU PARA LAMENTAR?

Tem sido confrangedor o espectáculo propiciado pelos deputados da oposição nas Comissões Parlamentares destinadas a apurar se José Sócrates sabia ou não o que se estava a passar em meados do ano transacto, quando a PT equacionou a possibilidade de comprar a TVI.
Olhando para o que se vai passando nessas sessões, os deputados da Oposição lembram aqueles célebres cortesãos de Constantinopla que, com a cidade em vias de ser invadida pelos bárbaros, continuavam a discutir o sexo dos anjos.
E, de facto, no que é que um negócio abortado contribui para resolver a crise por que passa o país. O que é que ganham os portugueses, quando vêem a atenção do Governo distraída por estas manobras fúteis da Oposição?
Mas as Comissões de Inquérito têm tido uma inesperada virtude: quando se trata de tentar encostar o Governo às cordas, a extrema-esquerda parlamentar (ou será para lamentar?) não hesita em considerar Manuela Moura Guedes ou Mário Crespo como arautos de um jornalismo respeitável.
O que essas sessões revelam é uma coligação mesquinha entre direita e extrema-esquerda para derrubar quem está a olhar para as ameaças exteriores fomentadas por especuladores financeiros sem escrúpulos e procura combatê-los com as melhores estratégias disponíveis.
Em tempos, que já lá vão, mas ficaram registados como brilhantes páginas da História nacional, quando surgiam invasores espanhóis ou franceses, todos se aliavam no propósito de defender a soberania nacional. Agora olha-se para o Parlamento e questiona-se se não abundarão por ali demasiados Miguéis de Vasconcelos. Porque o que dali se vai assistindo prefigura uma ignóbil traição ao interesse imediato da maioria dos portugueses...

Tem sido confrangedor o espectáculo propiciado pelos deputados da oposição nas Comissões Parlamentares destinadas a apurar se José Sócrates sabia ou não o que se estava a passar em meados do ano transacto, quando a PT equacionou a possibilidade de comprar a TVI.
Olhando para o que se vai passando nessas sessões, os deputados da Oposição lembram aqueles célebres cortesãos de Constantinopla que, com a cidade em vias de ser invadida pelos bárbaros, continuavam a discutir o sexo dos anjos.
E, de facto, no que é que um negócio abortado contribui para resolver a crise por que passa o país. O que é que ganham os portugueses, quando vêem a atenção do Governo distraída por estas manobras fúteis da Oposição?
Mas as Comissões de Inquérito têm tido uma inesperada virtude: quando se trata de tentar encostar o Governo às cordas, a extrema-esquerda parlamentar (ou será para lamentar?) não hesita em considerar Manuela Moura Guedes ou Mário Crespo como arautos de um jornalismo respeitável.
O que essas sessões revelam é uma coligação mesquinha entre direita e extrema-esquerda para derrubar quem está a olhar para as ameaças exteriores fomentadas por especuladores financeiros sem escrúpulos e procura combatê-los com as melhores estratégias disponíveis.
Em tempos, que já lá vão, mas ficaram registados como brilhantes páginas da História nacional, quando surgiam invasores espanhóis ou franceses, todos se aliavam no propósito de defender a soberania nacional. Agora olha-se para o Parlamento e questiona-se se não abundarão por ali demasiados Miguéis de Vasconcelos. Porque o que dali se vai assistindo prefigura uma ignóbil traição ao interesse imediato da maioria dos portugueses...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O PRENÚNCIO DE QUALQUER COISA?

Há quem avente a possibilidade de o vulcão islandês Eyjafjallajokull estar a anunciar aos europeus o iminente surgimento de um futuro previsível: o de vivermos sem as facilidades de deslocamento suscitadas pela aviação actual, remetendo-nos a uma sedentarização forçada suscitada pelo esgotamento das reservas petrolíferas.
E os motivos não têm só a ver com essa penúria de hidrocarbonetos: o fenómeno vulcânico das últimas semanas foi motivo de alegria para os ecologistas perante a comparação do carbono emitido pela erupção em si comparativamente com as emissões poupadas pelos aviões obrigados a permanecerem em terra.
Seja, pois, por razões de mercado, seja por consciência ecológica, este tipo de cultura em que passamos a vida a saltitar de aeroporto em aeroporto está condenado a evoluir para outro estilo civilizacional, porventura menos stressante.
Ainda na ressaca de uma crise, que pôs em franja os nervos de milhões de pessoas, somos incapazes de depreender as consequências imediatas de um tal pauzinho colocado na engrenagem capitalista. Mas que se relativiza a capacidade para os detentores dos poderes económicos e políticos moldarem a realidade à sua medida aí está a Natureza a lembrá-lo. Talvez ainda estejamos a tempo de evitar a ditadura dos oligopólios financeiros, que tanto nos têm prejudicado nos anos mais recentes...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

UM CORDEIRO NO MEIO DOS LOBOS

Está em curso uma violenta campanha internacional assumida por diversos economistas norte-americanos para demonstrar a similitude das situações económicas grega e portuguesa e a inevitabilidade de ambas saírem do euro como forma de, mediante os mecanismos de desvalorização da moeda própria, ajustarem as suas realidades aos padrões de competitividade existentes.
O que eles dizem é muito simples: como portugueses e gregos não conseguem garantir as mesmas produtividades que os alemães ou os escandinavos a única forma de conseguir um equilíbrio na balança de exportações com as importações será baixar o preço em euros de cada hora imputada pelos trabalhadores daqueles países de forma a garantirem um preço igual ou melhor do que o garantido pelos mais evoluídos. O que, pela impossibilidade de baixar nominalmente os vencimentos actuais em euros, se conseguiria muito mais facilmente se eles regressassem aos dracmas e aos escudos por via dessa desvalorização.
Visto assim, a situação até parece ter alguma lógica por muito que tenhamos de reconhecer a realidade quanto à produtividade dos nossos trabalhadores. Mas o que parece estar a acontecer é um ataque em forma  dos paladinos do dólar, que vêem a hipótese de matar o euro mediante uma campanha insidiosa contra os países mais frágeis da zona euro.
E, como perante tal campanha, os mercados reagem agudizando a já complicada situação financeira dos países atirados para a crista da onda mediática, essas opiniões deixam de ser objectivamente válidas para contribuírem significativamente para a produção dos efeitos, que antevêem.
Depois de ter sido seriamente ameaçada pelo euro  - que pareceu vir a poder converter-se na moeda de referência nos mercados financeiros - o dólar procura afastar o euro do caminho para melhor se confrontar com o yuan chinês, essa sim a moeda mais ameaçadora para com a ditadura da divisa norte-americana.

sábado, 17 de abril de 2010

UM SÓCRATES NADA MANSO...

Manifestamente José Sócrates e Francisco Louçã alimentam mutuamente um ódiozinho de estimação, que dá azo a cenas pouco edificantes na  Assembleia da República.
Desta feita foi a acusação de «manso» por parte do líder do Bloco de Esquerda  para com o primeiro-ministro.
Palavra recheada de conotações, essa mansidão extremou, uma vez mais, o relacionamento entre dois políticos, que poderiam ter muito mais a partilhar do que a separá-los.
E Sócrates teve um momento menos feliz, em que voltou a fazer emergir o «animal feroz », que há em si.
O episódio foi desvalorizado por outros políticos para os quais faz sentido a expressão «quem não se sente, não é filho de boa gente!»
mas, ao fim de todos estes anos, ele bem já podia colocar alguma temperança na sua maneira emotiva de reagir às provocações adversárias. Lá isso podia...


sábado, 3 de abril de 2010

FAZER OU SÓ PENSAR...

Houve um tempo em que aderi sem rebuços às ideias da extrema-esquerda maoísta.
Estava-se no dia 28 de Abril de 1974 e as esquerdas tradicionais personificadas em Mário Soares e em Álvaro Cunhal pareciam demasiado empenhadas em conciliações com os senhores da finança e da indústria para que se verificasse em Portugal uma verdadeira democracia assente na igualdade, na fraternidade e na solidariedade. E, na época, o MRPP parecia quem melhores argumentos para exigir a Revolução com que sonhava.
Nessa época Fernando Rosas era um dos principais líderes do movimento e Francisco Louçã já andava pelo trotskismo.
Trinta e seis anos depois, eles prosseguem na esquerda radical enquanto eu cumpri a lógica enunciada por Willy Brandt e inseri-me no enquadramento político da social-democracia tal qual é representado em Portugal pelo Partido Socialista.
E essa distinção entre gente mais conhecida da minha geração e eu mesmo reside na que separa o fazer com o pensar.
Quem não tem outra responsabilidade cívica que não enunciar o que pensa pode atribuir-se discursos ricos em ideias utópicas mas vazios em capacidade de concretização.
É isso o que se passa com os defensores de formas múltiplas de comunismo, que o tempo se encarregou de desmentir quanto às suas virtualidades em experiências de consequências dramáticas, amiúde responsáveis por recuos gravíssimos nos direitos das suas populações (como ocorreu nos antigos regimes progressistas africanos, todos eles substituídos por outros aonde grassa a corrupção, o fanatismo islâmico, a pobreza mais extrema, o analfabetismo mais comprometedor quanto ao futuro).
Quem, como sucede com Sócrates, tem de mostrar no concreto como se poderá aliar a criação de riqueza com regras de justiça social, o desafio é muitas vezes difícil e põe em causa os princípios ideológicos mais consistentes.
Para muitos dos que criticam o Governo a propósito do PEC, está esquecida uma célebre lição de Lenine para quem a forma de dar dois passos em frente equivale a recuar momentaneamente um.
Desde que não se perca de vista o que se pretende a prazo!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Lutas justas ou injustas?

A memória contra o esquecimento, assim caracteriza Kundera a luta interminável do Homem contra o Poder.
Se considerarmos as gestas heróicas dos milhões, que não se conformaram com o sofrimento das injustiças e procuraram diferentes formas de utopia na sua determinação em dizer não às instituições, poderemos encontrar profundidade na interpretação do escritor checo.
Mas será sempre assim? Generalizar como justas todas as contestações aos poderes pode revelar-se trágico. Como ocorreu no Chile com a contestação criminosa ao governo de Salvador Allende, que resultou na longa ditadura de Pinochet. Ou quando revoluções inicialmente saudadas como libertadoras pelas esquerdas redundaram em formas de fascismo ainda mais revoltantes do que os regimes por elas derrubados. Exemplo maior de tal regra o sucedido com o Irão dos ayatollahs.
Então é o esquecimento a sobrepor-se à memória, porque nenhuma forma de poder assente na iniquidade pode pretender o indulto da História. Se os seus títeres ficam registados nas suas páginas não é de forma engrandecida. Passam a constituir os piores exemplos da espécie humana, aqueles de quem de bom grado os seus contemporâneos bem gostariam ter dispensado...
Mas, a uma dimensão mais específica, constata-se no nosso dia-a-dia a demonstração da falta de justeza de certas lutas. As dos pilotos da TAP, por exemplo, que sabem a empresa exangue, à beira da falência e ameaçam paralisá-la em nome de reivindicações salariais exageradas. Ou os enfermeiros da função pública, que exigem um mínimo de 1200 euros para se estrearem em funções quando acabam os cursos, e aceitam de bom grado ordenados de 900 euros nas entidades privadas.
As lutas contra o poder deixam, então, de ter como premissa a justiça e a evolução social, mas a corresponderem a tácticas de terrorismo político por parte de forças incapazes de revelarem a sua influência no grande teste das eleições.

sábado, 20 de março de 2010

Oposição sem visão para o país

Faltam uns dias para o maior partido da oposição nomear o seu novo presidente, mas o que se ouve dos seus quatro candidatos não abre grandes expectativas quanto à sua capacidade de se constituírem em potenciais soluções para as necessidades de um país assumidamente em crise. Como dizia Ferreira Fernandes numa das suas crónicas no «Diário de Notícias», «o PSD ficou órfão de Sá Carneiro de forma abrupta e trágica. Daí os sociais-democratas andarem sempre à procura de mais do que um chefe».
É de um Sebastião o que o PSD anda sempre a procurar. Como se encontrado o homem, também assim vislumbrasse o caminho para um futuro por ora invisível na névoa em que se encontra mergulhado.
Ora, nem Passos Coelho, nem Rangel, nem Aguiar Branco, nem Castanheira têm uma ideia para o país. Os seus únicos argumentos serão os de pretenderem usufruir das prebendas do poder e oporem-se a um detestado Sócrates, que sobre eles tem uma notória vantagem: pelo menos sabe para onde quer conduzir o país, afastando-o do abismo tão próximo.
Mas a falta de ideias dos candidatos do PSD tem a ver com o impasse a que chegaram os defensores do neoliberalismo. Como lembra Mário Soares «foi o neoliberalismo como ideologia que originou a crise global do capitalismo financeiro-especulativo, dito de casino, com os "paraísos fiscais" e a economia virtual, que facilitou as grandes negociatas sem regras, para não dizer ilegais. Começando nos Estados Unidos, contaminou a União Europeia e, depois, o mundo.»
Agora que a festa acabou e o capitalismo está dividido entre quem defende a continuação do vale tudo e quem a ele pretende estabelecer regras reguladoras, o PSD é o exemplo de um partido de poder incapaz de se situar nesse debate.
Ora o futuro imediato passa por opções políticas, que antecipem as medidas fundamentais para evitar as tempestades inevitáveis se desse debate saírem vencedores os primeiros - os que querem voltar aos vícios mais recentes. Os que nos trouxeram até este actual desastre...

terça-feira, 9 de março de 2010

Caça às Bruxas

«Caça às Bruxas» foi o termo designado por Henrique Granadeiro na audição parlamentar de hoje, quando se dirigia à Comissão de Ética da Assembleia da República  que, nas últimas semanas, se tem arvorado em arma de arremesso contra o primeiro-ministro.
O termo em si recorda a nefanda Comissão do senador McCarthy que, nos anos cinquenta do século transacto, procurou identificar e criminalizar todos os simpatizantes de ideologias esquerdistas numa América a contas com o medo da Guerra Nuclear.
Essa designação poderá ser vista, de facto, como excessiva, mas o que está em causa é uma coligação de forças aparentemente antagónicas, mas unidas por um cimento demasiado forte: o ódio de  estimação a um político fora do comum, que tem visão de futuro e determinação para a ele aceder, em vez de se perder na estéril oratória de muitos dos seus antecessores.
José Sócrates já conseguiu recuperar o país de um défice excessivo herdado de Durão Barroso, Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite e promete agora repetir a façanha com a colaboração preciosa do competente ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.
O que mais custa à oposição é a existência de um projecto concreto para o país e para os portugueses, quando, em contraponto, ela nada tem para apresentar de mais sedutor enquanto modelo alternativo.
Tem sido confrangedor constatar como a esquerda parlamentar representada pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda prossegue uma estratégia de terra queimada como se, mais importante do que descobrir caminhos convergentes com os socialistas, valerá apostar numa lógica contestatária, que possibilite o regresso da direita ao poder.
Nesta última o PSD está convertido num saco de gatos engalfinhados em que não se tem por onde escolher: Pedro Passos Coelho é aparentemente novo no aspecto, mas velho caduco no seu liberalismo fundamentalista, posto em xeque pela recente crise financeira internacional.
Aguiar Branco revela uma faceta bipolar: ora com tendências de convergência com o Governo em prol do país, ora ameaçando-o com uma moção de censura.
Quanto a Paulo Rangel tudo nele é mesquinho, desde não se lembrar da sua recente militância no partido da extrema-direita parlamentar até ao oportunismo tosco de se servir do Parlamento Europeu para a guerrilha interna.
Resta o CDS-PP populista, sempre pronto a abraçar as causas mais retrógradas na posição obsessivamente anti (gay, aborto, etc) e com um líder insuportável de ser visto ou ouvido na televisão. Um daqueles casos em que apetece ir logo vomitar à sanita, quando ele entra sem aviso pelas nossas portas adentro via um electrodoméstico que, a exemplo, dos computadores com acesso à net, deveria ter uma função de bloqueio do que de mais intragável somos obrigados a suportar a nível político e ideológico.