sábado, 27 de maio de 2017

As favas que ainda estão afinal por contar

De súbito a nossa imprensa calou-se sobre o que se irá passar nas eleições inglesas do dia 8 de junho. Enquanto as sondagens apontavam para o sucesso retumbante da jogada oportunista de Theresa May, que estaria à beira de dar histórica vitória aos conservadores, não faltavam artigos e comentários televisivos a escarnecerem do líder trabalhista, apontado quase como personalidade do tempo das cavernas.
Essa gente já salivava de prazer perante a expetativa de, através da esquerda inglesa, atacar a que serve de apoio parlamentar ao governo socialista.
Afinal parece terem ditado a «morte» politica de Corbyn demasiado cedo. Não o escutaram, quando ele reagiu à antecipação das eleições com a afirmação de estar preparado para disputá-las, nem se recordaram como os ainda súbditos de Sua Majestade são dados a tais imprevisibilidades como o bem sentiu Churchill, que, de celebrado vencedor da Segunda Guerra Mundial, se converteu no humilhado perdedor das eleições vencidas por Atlee.
As previsões desta semana - mesmo condicionadas pelas emoções do atentado de Manchester - confirmam uma dinâmica de aproximação progressiva dos trabalhistas em relação aos conservadores, dando a estes uma maioria relativa muito apertada.
Apoiado sobretudo nos jovens, que lhe admiram a fibra republicana de se recusar a alinhar no coro do «God Save the Queen», Corbyn está a seduzir quem concorda com as suas propostas de renacionalização dos correios e do transporte rodoviário, começando a reverter os crimes políticos cometidos pela sinistra Margaret Thatcher.
Os sindicatos têm nele um vigoroso defensor do regresso às negociações coletivas de trabalho e os estudantes esperam o fim ou a redução das elevadíssimas propinas. E a City, já abanada com a votação no Brexit, ainda mais se apavora com a prometida regulação e o controle financeiro sobre o Banco Central.
Compreende-se bem o quanto devem andar inquietas as almas, que já davam a vitória de May como favas contadas.

3 comentários:

  1. Há dois 'pequenos' problemas relativamente a esta narrativa. O 'Institute of Fiscal Studies' arrasou os programas de May e de Corbyn, o primeiro por ser mais do mesmo, o segundo porque é irrealista relativamente às fontes de receita necessárias para pagar tanta promessa (ver aqui https://www.theguardian.com/business/2017/may/26/conservative-labour-tax-spending-plans-ifs-general-election-manifesto). E o insuspeito Larry Elliot chamou a atenção para o facto de que as contas de Corbyn não incluem um pence que seja para a renacionalização de todas essas empresas (ver aqui https://www.theguardian.com/politics/2017/may/16/labour-tax-and-spend-public-back-jeremy-corbyn). Zero. Confesso que consideraria de alguma justiça poética uma vitória de Corbyn, o que mostraria que nunca devemos tomar por garantida a posição dos votantes antes das eleições, mas isso não irá mudar o fundamental. E o fundamental é que quando a governação da Esquerda é ideológica ela a seguir perde as eleições e passa séculos na oposição. Por isso, devo dizer que me regozijo com o discurso moderado de um Ferro Rodrigues nas jornadas parlamentares do PS. Quem quiser aventuras, é melhor votar BE ou PCP... Ou emigrar para outras paragens...

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    1. Bem se viu o que tem acontecido à sua "esquerda" moderada por essa Europa fora. Tem-se pasokizado a olhos vistos.É que o eleitorado, mais uma vez, prefere o original da direita liberal ao social-liberalismo macaqueado dos Partidos ditos socialistas.

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    2. Sim, mas mesmo a pasokização dos Partidos de Esquerda Social-Democrata, muitos deles convertidos ao neo-liberalismo não altera o essencial, que é, ou você governa com o que tem, ou tarde ou cedo vai de mão estendida ao FMI, como já aconteceu antes entre nós, aliás. Pode prometer-se tudo a toda a gente, mas para entradas de Leão com saídas de Syriza, prefiro a minha 'Esquerda' moderada e pasokizada, ou mesmo a Direita Liberal, a todos aqueles que querem transformar os diferentes Países Europeus em diferentes versões da Venezuela sem o petróleo. Como disse acima, o programa de Corbyn tem um pequeno problema. Ao revelar-se incapaz de recolher os recursos que necessita para fazer o que pretende, ou vai acabar a defraudar os eleitores, ou o 'Socialismo' acaba, como dizia Thatcher, quando acabar o dinheiro dos outros (dos credores). Podem ganhar-se mil eleições recorrendo à demagogia, que o resultado final é sempre o mesmo... A não ser que, claro, como Maduro, depois se queira acabar com as eleições...

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