quinta-feira, 9 de maio de 2019

O QUE A CRISE CONFIRMOU SOBRE A PERSONALIDADE DOS LÍDERES PARTIDÁRIOS (II)


2 - O respeitado Jerónimo de Sousa
O atual líder comunista passou a reter mais ativamente a minha atenção quando, há trinta e muitos anos, passei a almoçar quase diariamente num pequeno restaurante da Madragoa e aí o encontrava quase sempre. O estabelecimento era constituído por quatro filas longitudinais de mesas com cadeiras dos dois lados, pelo que foi frequente ficarmos sentados lado a lado, ou na diagonal, mas à distância de nos podermos cumprimentar.
Confesso que, na altura, nunca imaginaria vê-lo como sucessor de Álvaro Cunhal na liderança do PCP. Pelo contrário confesso a condescendência arrogante de quem o considerava um mero operário metalúrgico, convocado para deputado da República para que o seu partido fundamentasse a natureza operária. A maturidade ter-me-á curado, pelo menos parcialmente, espero!, desse pedantismo juvenil, mas, doravante, sempre olhei para Jerónimo de Sousa com simpatia e crescente respeito, ou não tenha sido por ele, que na noite das eleições de 2015 se abriram janelas amplas para a maioria parlamentar do nosso contentamento nestes últimos anos.
Há muitas razões, que me distinguem dos comunistas, começando pela visão eurocética na raiz dos seus atuais modelos de pensamento. Não é que alimente muitas ilusões quanto a uma União Europeia comandada pela lógica neoliberal, mas os nacionalismos causam-me urticária e acredito em transformações sociais e políticas a uma escala geográfica e populacional mais ampla do que à de um só país. Nesse sentido estou bem mais próximo de Trotsky do que de Lenine ao defender uma forma de internacionalismo, atualmente vantajosa para o capitalismo na globalização em que  assenta, mas que, tão-só esgotadas as suas soluções expansionistas verá galoparem as contradições e as desigualdades passíveis de suscitarem uma mudança qualitativa profunda na forma como as nossas sociedades se organizam economicamente.
Ao enlearem-se ideologicamente no discurso antieuropeu, os dirigentes comunistas surgem-me singularmente distantes dos valores ideológicos que deveriam ser os seus. Mas essa dissonância entre a teoria e a sua prática não resulta afinal de uma pesada herança de tentativas falhadas de apressarem os amanhãs que cantassem e se tornaram afinal fracassadas experiências totalitárias?
Na crise dos professores Jerónimo de Sousa confirmou as razões porque o respeito, mesmo dele discordando quanto à forma de interpretar o mundo em que vivemos. Porque tal como foi a voz sensata, que possibilitou a definitiva queda do passismo-portismo há três anos e meio, ele voltou agora a demonstrar a Mário Nogueira o quão errado é o corporativismo cego por que se guia.
Façamos votos para que o PCP consiga manter esse posicionamento maduro de quem já muito viveu e sabe optar o que de melhor possa conjunturalmente beneficiar melhor quem o apoia. E o eleitorado comunista muito terá ganho com as reversões implementadas pelo atual governo ao que o anterior tinha cortado em direitos e rendimentos. Porque ouvindo os potenciais sucessores de Jerónimo a debaterem politicamente com socialistas, é pouco crível, que prossigam na mesma senda da convergência no essencial, deixando para a negociação entre as partes os detalhes em que a divergência se mantém.

1 comentário:

  1. Esta Europa não é a Europa dos cidadãos e não obstante as diferenças tenho quase a certeza que hoje Trotsky concordaria com o PCP porque esta é a Europa do grande capital tão agressiva como o é há mais de 150 anos e que é responsável pela morte de mais de 150 milhões de pessoas fora a desgraça e a doença que semeou. Esta Europa de hoje é potencialmente mais perigosa porque arranjou aliados no outro lado do Atlântico.

    ResponderEliminar