sábado, 19 de maio de 2018

Um novo museu em Lisboa dedicado aos Descobrimentos ou à Descoberta?


Apesar de ter começado por ser ideia de António Costa, depois retomada por Fernando Medina, não sou grande entusiasta da ideia de um Museu dedicado aos Descobrimentos, por muito que agora se tenha designado como da Descoberta. Um dos problemas muito sérios, que torna o imaginário português profundamente reacionário é o posicionamento de parte demasiado significativa dos cidadãos relativamente ao período colonial, que vai desde as viagens planeadas pelo Infante D. Henrique para estender o comércio (mais do que essa mistificação, que foi a da expansão da fé católica) às costas africanas até à descolonização pós-25 de abril. Quando esse mesmo comércio passou a ser o de escravos há sérios motivos para um distanciamento crítico relativamente ao comportamento ignóbil dos nossos antepassados. Não concordo com desculpas  a posteriori que nada alteram do cometido. Defendo sim uma divulgação séria dos atos perpetrados durante esse período da nossa Historia, que não teve ponta da grandeza difundida pelo ensino durante o salazarismo-marcelismo. A lógica deverá ser sempre a de aprender com os erros do passado para os não repetirmos no futuro!
Que esse trabalho está por fazer assim o dita a reação troglodita dos que, perante os excelentes programas de Fernando Rosas sobre a presença colonial portuguesa em África durante o século XX, disseram cobras e lagartos. Aos que reagiram destemperadamente aos elogios aqui dedicados a esse urgente trabalho de divulgação fiz o habitual: bloqueados no facebook e impedimento de acederem aos conteúdos aqui publicados. As pérolas, mesmo que de valor limitado, seriam desperdiçadas se endereçadas a outrem, que não os que as merecem.
Compreendo que haja interesse em entreter os turistas, que nos visitam com informações sobre a nossa História, que replique o modelo do que, sob as arcadas do Terreiro do Paço, conta o passado de Lisboa e faculta as emoções de quem aqui esteve no dia do Terramoto de 1755. Esse seria projeto que daria maior relevância aos aspetos positivos dessas viagens marítimas do que ao seu lado sombrio e teria pleno cabimento nas instalações do antigo Museu de Arte Popular. Mas os estudantes de hoje, seja no ensino primário, no secundário, ou nas universidades, devem ser corretamente informados dos crimes cometidos à boleia da «epopeia dos Descobrimentos» ou da exploração colonial do «Império», quando Salazar julgava possível contrariar a dinâmica da História e enganar meio mundo com a mistificação do luso-tropicalismo.
Embora o atual diretor do Museu Nacional de Arte Antiga me mereça reservas - não pela competência, mas pelo posicionamento ideológico, que o levou a «abrilhantar» há alguns meses uma iniciativa do CDS (que com o PSD alberga os ideólogos do «Portugal heroico», mais do que desmentido em estudos sérios, quer nacionais, quer internacionais) - ele tem razão quando sugere maior investimento nos museus existentes, capazes por si mesmos de cumprirem o desígnio inicialmente formulado por quem teve a ideia de um novo Museu, que sinceramente julgo sem sentido...


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