sexta-feira, 25 de maio de 2018

Será verdadeira a tese da afinidade entre os extremos?


Ontem, depois de conhecer a posição fechada do PCP relativamente aos projetos de lei sobre a morte assistida, que serão votados na Assembleia da República na próxima terça-feira, contactei  alguns simpatizantes comunistas, que se mostraram incomodados com uma decisão, que eles próprios não esperavam. É que, estando em equação a Liberdade de cada pessoa dispor do seu fim de vida conforme lhe aprouver, a decisão lida por João Oliveira não consegue escamotear a continuidade de uma proibição absurda, sobretudo se justificada por um alegado retrocesso civilizacional.
No entanto, olhando para a História do século XX, compreende-se a posição do PCP, que continua sem compreender uma das principais causas da implosão do modelo soviético: a forma como o partido único incompatibilizou as liberdades individuais com as diretrizes coletivas, sobrepondo-se estas à expressão daquelas. Apesar da falência daquela forma de concretização do ideário marxista através da prevalência das teses leninistas, que terão feito sentido nas condições específicas de 1917, o PCP parece temer os efeitos de se desviar do dogma, porventura julgando-o imprescindível para que não lhe suceda o desaparecimento verificado nos seus congéneres europeus, mesmo daqueles que, como em França, Itália ou Espanha, tinham conhecido grande apoio popular.
O desafio para o PCP deveria ser o de repensar-se entre esses dois extremos: não mudar e definhar lentamente à medida que o seu envelhecido eleitorado vai desaparecendo, ou mudar e conseguir convencer as camadas mais jovens quanto à viabilidade de um projeto assente em maior justiça social e inequívoca sustentabilidade económica e ambiental no incondicional respeito pelas liberdades individuais.
Por ora fica a curiosidade, que nos não será satisfeita, quanto ao que sentirão de facto Jerónimo de Sousa, João Oliveira, António Filipe e seus pares , quando se levantarem para manifestarem a oposição aos projetos de lei sobre a eutanásia,  e verem-se equivocamente irmanados com os deputados do CDS e os que, na bancada do PSD, mais próximos estão do proselitismo religioso? Será que os comunistas ficam cómodos com esta aparência de os extremos se tocarem?

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