quarta-feira, 2 de maio de 2018

Se não foi assim poderia ter sido (3): uma questão de segredo de Justiça


O som do telemóvel sobressaltou-o. Estava a fruir momento tão aprazível, apenas atento às deambulações da cadela, que trouxera para breve passeio no bosque junto à casa.
Era o assessor a dizer-lhe que no jornal do dia seguinte a Liliana ia publicar um artigo sobre o relatório da auditoria interna à Proteção Civil, e queriam um comentário.
Relatório? Que relatório? Os gajos dos jornais já não tinham tido o acesso a todos os documentos relacionados com o incêndio?
Não. Faltava aquele, que a antecessora mandara elaborar e agora chegado, como de costume sabe-se lá por que clandestinas mãos, às redações dos jornais.
E o que tinha ele de novo?
Nada, informou o outro. As conclusões eram exatamente as mesmas: poucos meios para uma tão rápida progressão do fogo, o espanto de quem comandava e depois a confusão do salve-se quem puder com uns quantos a ficarem para trás engrossando o rol das vítimas desse dia.
Então se tudo quanto lá consta já se sabe, porque é que eles voltam à carga?
É claro que sabia bem demais a resposta: embora sobrassem sinais de enfado progressivo da opinião coletiva com o abuso intensivo do caso, ele serviria sempre de paliativo para chefes de redação sem assuntos para ilustrar a capa do jornal do dia seguinte.
É que há um problema com o relatório, informou o assessor. Estão lá detalhados os comportamentos dos comandantes nesse dia, mesmo que a peça pareça dar importância a terem-se perdido na confusão os rascunhos dos esquemas feitos hora a hora para a intervenção.
A contragosto o ministro saiu do registo de dia de férias para o de pleno exercício no cargo e compreendeu o que estava em causa. O problema era existirem processos judiciais em curso contra os comandantes, passíveis de se verem acusados de homicídio, mesmo que por possível negligência. E o relatório estaria obrigatoriamente subordinado ao segredo de justiça.
Fundamentalista no respeito pela legalidade o ministro deu a resposta que o assessor sabia de antemão ir ouvir: diga-lhes que não temos nada a comentar!
Na manhã seguinte, ao passar pelo quiosque para comprar um maço de tabaco, o tio Jacinto olhou para o título do jornal e viu escarrapachada a acusação do governo sonegar esse tal relatório à apreciação pública. Resmungando, disse para o Zeca dos Caracóis: «É o  que eu digo: estes gajos não sabem o que inventar mais! Ainda se se dedicassem mais a denunciarem quem foram os incendiários!»

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