sexta-feira, 19 de maio de 2017

A propósito desta esperançosa maioria

A estória é contada pelo Gonçalo M. Tavares numa entrevista sobre o seu mais recente romance: à noite, quando ocorre um corte na eletricidade, começamos por sentir-lhe a estranheza. Estamos tão habituados às nossas rotinas, que a privação de um programa na televisão ou da iluminação necessária para nos pormos a ler um bom livro, incomoda-nos, ficamos sem sabermos o que fazer.
No entanto, se se prolonga começamos a habituar-nos a ela, a perceber que temos ao lado com quem conversar numa disponibilidade há muito perdida por causa dos nossos afazeres. E até concluímos que existe encanto nessa alternativa, que consideráramos dispensável.
O desafio lançado pelo escritor é este: conviria que saíssemos dos nossos padrões de pensamento habituais e testássemos outros, porventura desafiantes, mas passíveis de descobertas, de outras sensações. É a velha questão de pensar fora da caixa, rejeitar o instinto dos carneiros enfileirados para o redil, a tentação de não bater palmas a quem se é instado a fazê-lo, desconfiando das razões das maiorias.
Somos bombardeados continuamente com ideias-feitas, que levam demasiado tempo a desmascarar. Quando os suspeitos do costume quiseram privatizar todas as empresas nacionalizadas, porque sabiam delas vir a ganhar obscenos lucros, andaram a convencer a tal maioria de que os gestores privados eram mais competentes e os serviços básicos doravante facultados seriam mais baratos e com maior qualidade. Ao mandarem vir a troika conseguiram inculcar em muitos a ideia de terem vivido acima das suas possibilidades e que deveriam priorizar o pagamento aos credores, mesmo à custa da própria sobrevivência. Apesar de todas as evidências em contrário - mas cujo escândalo nunca chega ao nosso universo mediático! - ainda há quem acredite que, por exemplo na Alemanha, as obras são todas concluídas no prazo previsto e pelo valor previamente orçamentado.
E muito fácil manipular as maiorias para que acreditem no que contra elas logo se vira tão só deem o poder a quem as trapaceou. Trump ou o Brexit são exemplos recentes dessa quase lei social. Mas toda a História dos povos tem sido pródiga nessa sucessão de equívocos que os explorados nunca chegam a traduzir em consistentes lições para o futuro. E o grande problema colocado  às esquerdas é o de perderem demasiado tempo e energias a digladiarem-se em estéreis disputas, dando azo a verem-se quase sempre derrotadas pela convergência das direitas. O que custou para que, entre nós, concluíssem quanto às vantagens dos mínimos denominadores comuns  e transformassem um país desesperançado num outro, bem mais otimista, que até acredita ter futuro.
Importa que essa convergência não esmoreça, não se deteriore. Porque, desdizendo o costume, as esquerdas adotaram postura contrária à que nos tinham habituado. E por uma vez dá vontade de bater palmas a esta esperançosa maioria...

1 comentário:

  1. Há infelizmente um perigo neste tipo de discurso. As desavenças entre as Esquerdas são programáticas. As diferentes Esquerdas acreditam em causas bem distintas. Dentro da Direita Democrática, todos aceitam de uma maneira ou de outra o primado da liberdade individual, a Economia de Mercado e o Parlamentarismo. Nas Esquerdas, isto não acontece. O programa ideológico e de governação do PS (refiro-me ao que está escrito, não ao virtual que poderá estar na cabeça dos militantes do PS), por exemplo, está bem mais próximo do do PSD (do que está escrito, não da prática política de um Passos Coelho, por exemplo) do que dos programas de BE e PCP-PEV que são anti-capitalistas (e Marxista-Leninista, no caso do programa ideológico do PCP). O pragmatismo das diferentes Esquerdas não nos deveria fazer esquecer isto. Não se tente amalgamar tudo com o risco da perda de identidade de cada um dos Partidos que constituem a nossa improvável coligação. É que, tarde ou cedo, quando as coisas voltarem a correr mal (porque voltam sempre) estas divergências virão de novo bem ao de cima...

    ResponderEliminar