segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Da Buenos Aires nada de novo, mas há que estar atento...

O que surpreende no atual PSD é a incapacidade para retirar ilações da sua estratégia recente quanto à utilização necrófaga dos mortos de Pedrógão Grande. Nem com as sondagens a demonstrarem-lhe o desagrado dos inquiridos com essa abusiva campanha antigoverno despegam do assunto, avançando agora para o questionamento das horas que o INEM terá perdido às voltas pelas estradas ameaçadas pela progressão do incêndio até entregar um bombeiro ferido na instalação hospitalar adequada para o ver socorrido.
Esta nova investida replica a estratégia dos procuradores da Operação Marquês que, acumulando sucessivos fracassos nas várias frentes entretanto abertas para detetarem alguma prova concreta contra José Sócrates, não encontraram melhor argumento do que voltarem à carga com a suposta compra por atacado da edição do livro por ele escrito sobre a tortura.
Mais inteligente nos seus propósitos Marcelo Rebelo de Sousa também teima na utilização da tragédia de 17 de junho: não havendo matéria na agenda, que lhe permita abrir os telejornais lá o vemos de regresso á zona incendiada para repetir ad nauseum a expressão melodramática tão útil para consolidar a ideia de se tratar de alguém muito dado a emoções. (E sabemos bem como o eleitorado mais iletrado tanto se deixa manipular por essas comoções!).
Ignóbil na conduta, José Manuel Fernandes imitou Assunção Cristas na apetência por se colar à popularidade presidencial. Graças a um donativo facultado pela malandragem, que lhe financia o «Observador», conseguiu posicionar-se para ser lembrado nos telejornais, pondo-nos a questionar se estávamos a ver notícias, se uma nova versão da «Noite dos Mortos Vivos».
Mas a falta de notícias, agora que muitos governantes e oposicionistas estão a banhos, e os futebóis ainda acabam de arrancar, torna propício o recurso às fake news. E, nesse aspeto, não foi nada inocente a manchete com ministros e ex-ministros supostamente arguidos de uma investigação, que o Ministério Público se apressou a desmentir.
Perante consecutivos fracassos nos objetivos, as direitas, quer representadas pelos seus atores políticos, quer sobretudo pelos seus omissos financiadores e inspiradores, utilizam receitas já requentadas, e, por isso mesmo, ineficazes. As esquerdas devem, porém, manter-se-atentas não vá chegar dos brasis algum talentoso guru, que consiga pôr esquimós a comprar cubos de gelo. É que os portugueses já mostraram em 2011 e, até certo ponto, em 2015 como facilmente se deixam enganar por mensagens destinadas a deixarem-se espoliar com um sorriso alarve de contentamento nos lábios. Por ora quase 35% dos que a Eurosondagem consultou revelam ainda nada terem aprendido...

sábado, 5 de agosto de 2017

Dos EUA ao nosso cantinho à beira-mar: o absurdo apoio ainda constatável nas direitas

Numa das edições mais recentes a Slate Magazine enviou uma equipa de reportagem aos Estados da “rust belt”, outrora industrializados e para cujos habitantes a globalização significou desemprego e falta de expectativas quanto a um futuro decente. Nas eleições de novembro passado foi a sua votação maioritária em Donald Trump, que levou este último à Casa Branca.
O propósito do trabalho jornalístico era aferir até que ponto os eleitores já estariam convencidos do seu erro passados seis meses sobre essa eleição, tão inoperante tem sido a nova administração em cumprir as promessas com que os haviam convencido. A conclusão foi dececionante: apesar de só terem visto a qualidade de vida agravar-se e estarem cientes de nada vir a melhorar com Trump a liderar os destinos do país, os eleitores continuam convencidos da justeza do seu voto. É que nunca terão alimentado grandes ilusões quanto à miraculosa solução de ter o tempo a voltar para trás, para o mítico passado em que se julgavam viver à beira do paraíso. O que motivara o seu voto fora o desejo de vingança contra o que a manipulação os levou a crer: os culpados do seu desespero são as elites dos estados banhados pelo Atlântico e pelo Pacífico, que viram as novas tecnologias melhorarem-lhes o quotidiano e se dispuseram a virar do avesso os preconceitos subjacentes à sociedade desse passado endeusado. Terem visto esses Estados imporem os Direitos Cívicos para as populações de cor, liberalizarem o aborto e generalizarem a todo o país o casamento entre pessoas do mesmo sexo, criou um sentimento de revanchismo suficiente para virar a metade do país contra a outra metade.
De fora custa aceitar que essa metade seja a menos instruída e a mais intolerante. Numa sociedade pós-industrial resulta absurda a tentativa de retroceder para os valores da primeira metade do século anterior, mas esta é a realidade presente, que nem o caos instituído em Washington pela incompetência de Trump consegue alterar.
Convenhamos que, nesta altura, os Democratas também andam a fazer o suficiente para que o eleitorado não inflita em seu favor: os que quase levaram Sanders à vitória nas Primárias não conseguiram conquistar a máquina do partido e esta age com inesperada estupidez. O exemplo mais recente é o de admitir candidatos à Câmara dos Representantes e ao Senado, que defendam a proibição do aborto, fazendo retroceder várias décadas a política oficial do partido.
Com essa e outras atitudes semelhantes justifica-se o pessimismo quanto à possibilidade de, daqui a um ano, ver-se a maioria republicana nas duas Câmaras posta em causa.
Esta reportagem da Slate relaciona-se, ademais, com os resultados da sondagem conhecida esta semana e que dá o Partido Socialista a distanciar-se significativamente do PSD e o conjunto dos partidos de esquerda a totalizarem quase o dobro dos apoios reconhecidos aos das direitas. Mas, se esta notícia satisfaz a confiança em não vermos tão cedo repetido o pesadelo dos quatro anos decorridos entre 2011 e 2015, podemo-nos porém interrogar sobre como é possível que um em cada três eleitores ainda continue a prometer o voto em Passos Coelho ou Assunção Cristas tão mentecapta tem sido a sua ação como líderes da Oposição. O que justifica que haja quem veja e ouça tais criaturas e não se sinta à beira do vómito ou, no mínimo, à vontade de mudar de canal? Se em tempos era a vingança dos retornados contra os que, na metrópole, haviam feito a Revolução, que os tinha expulso de África, explicava muitos dos votos da pouco democrática Aliança sácarneirista ou cavaquista, que tipo de emoções malignas justifica ainda a aversão desse terço do eleitorado quanto às bem mais competentes esquerdas para lhes melhorar a qualidade de vida e as expectativas quanto ao futuro?
A resposta é só uma: por incúria do governo e dos demais partidos da esquerda parlamentar. A resposta aos incêndios e ao furto de armas em Tancos deveria ter merecido uma maior competência na forma como se comunicou com os portugueses. Foram dadas demasiadas abébias passíveis de serem exploradas pela adversa comunicação social. Reagiu-se, mais do que se antecipou os ataques que «especialistas», candidatos laranja às autárquicas mascarados de bombeiros, de presidentes da câmara ou de «associações de vítimas», se apressaram a explorar. Mas, sobretudo, as esquerdas continuam a dar sinais de divergências sérias, quando deixariam bem mais tranquilos os que as apoiam se demonstrassem a vontade de prolongar duradouramente os acordos concretizados há quase dois anos.
Se podemos dizer que já aprenderam muito com os erros do passado, os partidos da maioria parlamentar teimam em não retirar as devidas ilações de quanto poderão perder se se desunirem em vez de se aproximarem... 

O crescimento económico: essa grande ilusão

O conceito de “shifting baselines” foi teorizado pelo biólogo Daniel Pauly e define o dia de cada ano em que gastámos os recursos naturais, que levaria todo ele a renovar. E é sobre tal questão que Philippe Bihouix escreve no seu recente «L’Âge des low tech» publicado nas Éditions du Seuil. A sua proposta vai a contracorrente do discurso, que ouvimos todos os dias aos políticos de todas as tendências: em vez de garantir o combate à pobreza através do crescimento da economia importa orientá-la no sentido do decrescimento. É que o ponto de não-retorno já foi atingido em numerosos casos e continuamos a degradar o meio ambiente,  a perder biodiversidade.
Se nos ativermos à cultura hoje dominante na Casa Branca, tenderemos a procurar petróleo, gás natural e minerais em quantidades menos concentradas e acessíveis, com rendimentos inferiores e imprevisíveis consequências ecológicas. Podemo-nos iludir com os desenvolvimentos tecnológicos, que passarão, por exemplo pelo recurso de energias renováveis. Mas quando se esgotarem as reservas de neodímio, como poderemos continuar a construir turbinas eólicas? E como exequibilizar automóveis elétricos sem lítio? A solução parece ser a de dependermos menos de recursos não renováveis para nos concentrarmos nos que o são, ainda que consumidos mais criteriosamente do que até aqui.
O crescimento há muito se revela incompatível com o aumento das emissões de gases com efeito de estufa na atmosfera. Por isso teremos de nos adaptar a uma sociedade que consuma menos energia e matérias-primas, que reduza substancialmente a produção de lixo. Politicamente, só será garantida a sustentabilidade do planeta, que legaremos aos nossos netos, se implantarmos um sistema político-económico contrário ao capitalista, capaz de garantir o pleno emprego, que o furação schumpeteriano cuidou de inviabilizar.
Hoje, na nossa sociedade ocidental, condicionada por uma globalização descontrolada, a criação de empregos leva os governos eivados de tentações neokeynesianas a apostarem nas grandes obras públicas, muitas das quais se tornarão elefantes brancos a médio prazo. A ilusão de conseguir animadores crescimentos económicos depressa se esboroa. E as alternativas passam pelas ineficazes e abjetas respostas populistas ou pela convicção maioritariamente coletiva de se tornar possível a gestação de um mundo alternativo mais justo, igualitário e ecologicamente responsável. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

È a luta de classes no seu esplendor...

O que se está a passar na Venezuela ou no Brasil - num caso com os sabotadores do carácter progressista do regime em vias de derrubarem o seu incompetente titular, no outro já o tendo conseguido e, mesmo com ampla reprovação popular, prestes a porem cobro a toda a legislação pró-trabalhadores criada pelos governos liderados pelo PT - deveria fazer-nos compreender melhor a matéria de que é feita a luta de classes nos nossos dias.
Ao contrário dos que negam os ensinamentos de Marx ou os tentam omitir das discussões, a realidade continua a ser feita da contradição insanável entre o cada vez mais reduzido número de plutocratas (os tais 1% invocados pelo movimento Occupy Wall Street) e os restantes cidadãos do mundo, sobreexplorados pela lógica da globalização e aos quais está prometida a perda de pelo menos metade dos empregos existentes com a aceleração do recurso à robótica para a produção das mercadorias e serviços.
Existe um lado, que é o defendido pelas direitas mundiais, apostado em tudo privatizar, desregulamentar enquanto trata de eliminar todos os obstáculos a tal projeto - sindicatos, jornais, rádios e televisões a ele adversos - e um outro, que tarda a unir-se (embora o tenha começado a fazer em Portugal) decidido a impor políticas ao serviço da ampla maioria dos cidadãos.
O campo dos exploradores tem recorrido a tudo para levar por diante os seus objetivos. Passa pelo suborno de jornalistas, mas também a inserção no campo das esquerdas de quem nelas só está para as destruir (um Felipe Gonzalez capaz de elogiar Pinochet em detrimento de Maduro, um Manuel Valls que reduziu o Partido Socialista Francês à dimensão grupuscular ou um Francisco Assis que, entre nós, aproveita todas as oportunidades para minar a concertação das esquerdas) são exemplo eloquente de como não basta olhar para quem está do outro lado da barricada, porque no nosso existe quem laboriosamente atue no sentido do o enfraquecer. Em situações mais agudas acontece aquilo que se constata na Venezuela, estando disponíveis imagens do You tube onde se veem delinquentes a serem pagos para, depois, irem causar distúrbios e semear vandalismo, que possa ser aproveitável pela manipulada imprensa internacional.
Em Portugal as direitas ensaiaram desde cedo a tentativa de reduzirem o apoio maioritário do eleitorado às esquerdas, tornando-o tão exíguo quanto possível: numa coligação entre o aparelho judicial e os jornais e televisões, quiseram associar o PS à pedofilia na Casa Pia e cuidaram de enlear José Sócrates numa trama, de que nunca conseguiram apresentar provas concretas, mas, com a ajuda de um guru brasileiro hoje preso na Operação Lava Jacto, conseguiram fazer crer em muitos ingénuos a fórmula PS = corrupção.
Tivemos assim a situação estranha de todos os grandes casos comprováveis - mormente o da corte cavaquista concentrada no universo BPN - terem origem nas direitas. O caso dos submarinos deixa tantas dúvidas quanto a Operação Marquês, mas enquanto a imprensa prossegue diariamente a explorar as inventonas desta última, onde mostra o mesmo zelo com aquele singular episódio?
No «Público» de hoje o ministro Eduardo Cabrita congratula-se com o facto de ter visto as direitas receberem um tiro de ricochete com a ignóbil exploração dos mortos de Pedrógão Grande. Pode ter sido a inflexão na capacidade dos cidadãos em dissociarem a realidade da manipulação imposta pelas fontes pouco credíveis que os tentam enganar. Pode ser que se comecem a interrogar se aquilo que lhes querem impingir tem efetiva consistência ou, se pelo contrário, merece contínuo ceticismo.
Vai-se sentindo alguma mudança, quando alguns dos manipuladores em jornais e televisões começam a dar sinais de nervosismo com o que classificam de «ódio aos jornalistas». Mas eles têm sido, de facto, os soldados rasos de uma campanha de mentiras decidida a partir de cima: dos que comandam os partidos das direitas, tendo nos seus cabeças de cartaz meras marionetas da sua estratégia, e são ao mesmo tempo os donos da (des) informação com que nos bombardeiam continuamente.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Dar ou não o benefício da dúvida a Marcelo Rebelo de Sousa?

A propósito do texto “Quem disse que o selfieman mudou o seu discurso?, um amigo do facebook emitiu um comentário, que seria pena perder-se na volatilidade daquela rede social, justificando-se a partilha com um universo mais alargado de leitores. Daí ter solicitado, e recolhido a autorização, para o replicar no blogue, sobretudo, por emitir uma opinião diferente, embora não necessariamente contraditória, com a inserida naquele post.
A nossa relativa divergência diz respeito a Marcelo Rebelo de Sousa, que ele apoia com complacência - mas com argumentação bem fundamentada para tal -, enquanto, desde o início não lhe dou o benefício da dúvida.
Fica, pois, á vossa consideração o excelente texto de Francisco Magalhães:

"Uma coisa é aquilo que Marques Mendes, e Cristina Figueiredo, vêm, ou gostariam que fossem, as intenções de Marcelo, escondidas por detrás das entrelinhas das declarações que tem vindo a fazer nos últimos tempos. Outra são, a realidade, e as verdadeiras motivações de Marcelo, que, na minha modesta opinião, nunca passaram por apoiar o governo do PS, ou a oposição de direita, onde pontifica o PSD, por sinal, o seu partido de sempre.
O que ele, verdadeiramente, pretende, é ficar para a História como “O” Presidente, em vez de, e apenas, mais “UM” Presidente. Ele quer ser, um dia, recordado como O Presidente do rigor…, interveniente, e eficaz. O Presidente interessado e isento. O Presidente moderado, e moderador. O Presidente equidistante e imparcial. O Presidente omnipresente, e próximo. O Presidente, cujo mandato tirou Portugal do “lixo”, e se saldou por um período de recuperação económica sustentada. O Presidente que impôs moderação e responsabilidade, aos partidos, e ao governo em funções, uma governação patriótica e exemplar. O Presidente que se preocupava, e que queria, e sabia, ouvir as pessoas…, uma espécie de Rainha de Inglaterra, amada pelo povo, e respeitada por todos. No fundo, a antítese, do que foi, e foram, os mandatos de Cavaco, que lhe deu o mote, e fez tudo por facilitar-lhe a tarefa…!
Na minha perspetiva, tem sido, até agora, um bom Presidente! Se um dia, o deixar de ser, deixará de ter o meu apoio. Mas, se o atual governo, ou a atual fórmula governativa, com que simpatizo politicamente, deixarem de ser eficazes, não o condenarei se passar a apostar noutra que envolva o seu partido natural, ainda que não possa, com toda a certeza, continuar a merecer o meu apoio. 
Porque razão se havia de lhe exigir, no caso de incumprimento, ou de manifesta incompetência governativa, que continuasse a dar cobertura ao atual executivo, ou a sustentar a atual fórmula de entendimentos que o suporta no parlamento…! Aí sim, poder-se-ia falar de um manifesto “apoio”, contrário à logica e ao papel de supervisor “equidistante” e “imparcial”, que o Presidente da Republica deve esforçar-se por manter…?!
E porque razão, não há-de, igualmente, ter o direito de poder “sonhar”, e “trabalhar”, para a reeleição, num segundo, ou terceiro mandatos…?! Não vejo onde está o “caso”, ou que esta sua intenção, seja merecedora de quaisquer objeções. É a ordem natural das coisas, e o que sempre tem sucedido nos mandatos anteriores.
Quanto à possibilidade de Pedro Duarte poder vir a substituir PC à frente dos destinos do PSD, e de poder vir a colher o apoio de Marcelo, caso venha a ser escolhido, e eleito, não me parece que o Presidente sacrifique os projetos que idealizou para si próprio, e para o futuro do país, em nome de uma hipotética proximidade, ou até de uma eventual amizade. Particularmente tratando-se de um militante, que, ainda que merecedor da sua confiança, se autopropõe candidato á liderança, e que, notoriamente se chega á frente com o propósito de ganhar dividendos políticos, e votos, dentro do partido, à custa do seu “encosto” a Marcelo. Parece-me pouco provável, mas não impossível caso Marcelo se decida a intervir no seu partido, e esteja disposto a correr os riscos do seu envolvimento.
Estará, desde logo, e mais cedo do que o esperado, a candidatar-se a ceder, e a ver-se privado do bem mais precioso de que dispõe hoje…, a liberdade. Liberdade para escolher, decidir, e agir. Depois dará conta de estar enredado numa complexa teia de contradições entre dois projetos políticos, incompatíveis…, o do empobrecimento protagonizado pelo PSD, e o seu próprio, mais humanista, e próximo do defendido pelo governo do PS de António Costa. 
Caso a experiência acabe por se saldar por um fracasso, os seus projetos, e ambições pessoais, acabarão no caixote do lixo. Ele acabará refém do partido, obrigado a assumir compromissos e cumplicidades, para salvar o partido, e a si próprio. Por tudo isto, não vislumbro porque razões se disporia a expor-se desnecessariamente, quando a sua convivência, e a “entente”, com António Costa, se tem revelado tão populares, e tão promissoras.
O “fait-divers” de Pedro Duarte tem no entanto a sublime virtude de confirmar as evidências, e alimentar o “ruído” sobre a existência de uma, cada vez maior consciencialização, dentro do PSD, de que Passos Coelho é, há já muito tempo, um “líder” a prazo, e que, por mais que gesticule, por mais esgares e sorrisos que ensaie, por mais alto que grite, já não convence, nem assusta ninguém, muito particularmente os comensais dos “comícios ajantarados”, em que se desdobra em mentiras e promessas que não tem intenção de cumprir, e que, cada vez mais se assemelham, àquelas sessões, organizadas por algumas empresas, para divulgar, e impingir, os seus “milagrosos” produtos, que, apesar de tudo, tem, em relação aos vendidos por Passos Coelho, a grande vantagem de não serem contrafeitos.
Não acredito, portanto que, a menos que lhe deem motivo para isso, Marcelo se prepare para, á má fé, fazer detonar a tal “Bomba”…!
Não quero, no entanto, transmitir a ideia de que dou uma no cravo e outra na ditadura. Mas é a “tal coisa”, a política não é uma ciência exacta..., estamos ainda, e sempre, no campo das hipóteses. Além disso, sou, e procuro ser, mesmo quando falo de política, um optimista, e recordo sempre uma dica que me deu, um dia, um colega da escola…, “nunca tremas, sem primeiro ver abanar…”! 
Verdade seja dita que, também não me considero um ingénuo, e recordo muitas vezes aquela outra expressão popular…, “cuidados e caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém”. 
Daí, concordar consigo, e achar que vale sempre a pena estar atento, sobretudo aos sinais, para não sermos, um dia, surpreendidos. Mas acredito que o ultimo mandato presidencial, é, normalmente, o mais crítico, e o mais revelador da personalidade, e das intenções de quem o exerce…! Cavaco foi mau…, foi mesmo muito mau. Sobretudo no seu ultimo mandato. Esperemos que quem se lhe seguiu, não venha a fazer dele “bom”….?! (*)
(*) “Depois de mim virá, que de mim bom fará…”!)"

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Cumplicidade para … lamentar

Porque é este o ano em que mais se politizam os incêndios? Eis a questão colocada por Daniel Oliveira no «Expresso» desta tarde e que resume em si o vazio de notícias mais palpitantes, capazes de alimentarem a atenção das amolecidas moleirinhas dos leitores e dos espectadores, pouco atentos a tudo o que não sejam os banhos de mar e os sabores gastronómicos digeridos com outra satisfação na disponibilidade do dolce farniente estival.
Nestas alturas nada melhor do que uma mãe lacrimosa a insinuar culpas governativas depois de se encostar ao ombro calculista do selfie man para atrair a atenção dos distraídos veraneantes. Descontamos-lhe a cena sabendo-a enlutada com a morte do filho, mas faz alguma impressão o percebermos como a voz se livra do embargo quando se trata de reclamar indemnizações. Choram-se as perdas de vidas, mas não se brinque com o dinheirinho, que ambicionam receber como compensação para as suas dores!
Posso ser injusto, mas a cena soou a falso melodrama num palco escolhido com intenções, que vão muito para além dos seus anunciados propósitos. Marcelo, como de costume, continua igual a si mesmo: cheira-lhe a votos potenciais para a renovação do mandato e ali está ele na primeira fila a arrebanhá-los!
Não se entende, igualmente, a pressa de todos os partidos à esquerda ou à direita do governo para legislarem à pressa, com a Assembleia da República em férias, sobre as indemnizações às vítimas. O PSD prosseguiu na sua lógica populista e, desta feita, o PCP e o Bloco decidiram dar-lhe cobertura. E, no entanto, eu que, como contribuinte, terei de dar para esse peditório, pergunto: se o incêndio houver resultado de causas naturais terei de ser penalizado por ele ter acontecido? Se teve mão criminosa não cabe a quem o perpetrou, ou a quem o encomendou, esse ressarcimento?
Por outro lado se só 2% da área florestal pertence ao Estado, correspondendo os demais 98% à gestão privada, terei de ser eu a pagar a incúria, a negligência, o simples abandono dos seus donos, que possibilitaram a dimensão trágica do evento?
É lamentável que os partidos parlamentares tenham tido mais uma cumplicidade … para lamentar. Porque, nesta altura, há pessoas a afogarem-se nas praias - até agora quase tantas quantas as que morreram em Pedrógão Grande. Quer isto dizer que os partidos, que decidiram lançar esta iniciativa legislativa à pressa, com objetivos exclusivamente eleitorais, também vão promover que paguemos pelas suas mortes?
E que dizer dos que morrem quase diariamente nas estradas por causa dos acidentes de viação e que são anualmente muitas centenas? Também irá caber ao Estado ressarcir essas perdas de vidas?
O que se está a passar á conta da utilização do sucedido em Pedrógão demonstra o vale tudo dos partidos que, não tendo responsabilidades governativas, tudo fazem para as dificultar com sucessivos e inescrupulosos obstáculos.
Que venham os futebóis a ver se com tal F os telejornais passam a dedicar-se a outros assuntos que não este. Sinceramente todo o aproveitamento em seu torno já enoja!