domingo, 15 de janeiro de 2017

Trump como disjuntor da revolução conservadora

Pode ser vista como simplista e demasiado otimista, mas a tese de Stephen Skowronek, nas páginas do «The Nation», dá alento a quem proclama «I will survive» aos quatro anos de Administração Trump porque, do seu epílogo, surgirá algo de exaltantemente novo.
O que propõe esse professor da Universidade de Yale?
Na história norte-americana dos últimos cento e cinquenta anos ele vê três revoluções determinantes nas suas políticas: houve primeiro o liberalismo puro e duro do mercado deixado à rédea solta, que Lincoln possibilitou com o fim da escravatura e a possibilidade da industrialização se cumprir com a transformação da antiga mão-de-obra dos campos de algodão em proletários do crescente número de fábricas dos Estados da União.
Num segundo eixo revolucionário surgiu o New Deal dos anos 30 como resposta ao caos da Bolsa, que demonstrava a importância do Estado na economia como forma de resposta à Grande Depressão.
No terceiro eixo, aquele que Trump concluirá, temos a revolução conservadora lançada por Reagan nos anos 80, que voltou a reduzir o Estado ao mínimo e devolveu rédea solta aos donos da economia, já não tanto os industriais do século anterior, mas os financeiros, que transformaram num casino a gestão corrente das democracias.
Em cada um desses ciclos verificou-se o surgimento de um presidente capaz de os reavivar, quando esmoreciam: aconteceu assim com Teddy Roosevet em 1901, Lyndon Johnson em 1963 e George W. Bush, cuja ação serviu de dopagem às políticas dominantes nesses períodos, o primeiro e o último facilitando a vida à iniciativa privada e o sucessor de Kennedy a reavivar a intervenção estatal na economia.
Mas outra característica verificada por Skowronek é a de cada uma dessas revoluções conhecer o seu fim com um presidente particularmente fraco, incapaz de ressuscitar o estado moribundo em que iam decaindo e, por isso mesmo, arrastando depois os respetivos partidos para longas curas de oposição. Isso aconteceu com Herbert Hoover que viu surgir-lhe a crise de 1929 sem encontrar forma de a travar. Depois, com Jimmy Carter, cuja fragilidade enquanto líder não permitiu contrariar um Congresso hostil. E sucederá agora com Trump…
Para Skowronek o problema da Administração Obama foi surgir demasiado cedo: nenhuma revolução desaparece sem o seu suposto defensor que, incapaz de cumprir as expetativas de a reavivar, servirá, de facto, de seu coveiro.
Ora Trump associa as características de Hoover e de Jimmy Carter: a exemplo do primeiro existe uma clara dissonância entre a sua ideologia e as expetativas dos eleitores, que lhe deram a vitória. E, como Carter, serão previsíveis os embates com um Congresso progressivamente hostil, porque mais do que republicano ele é narcisicamente trumpiano. Se a isso se somar a previsível berlusconização, assente na promiscuidade entre os assuntos de Estado e os seus próprios negócios, a sua incompetência, nepotismo e corrupção, não será difícil adivinhar-lhe essa missão de disjuntor da agonizante revolução reaganiana.
O que se lhe seguirá não se sabe, mas adivinha-se: demasiado velho para voltar a concorrer, Bernie Sanders servirá de referência mitológica ao que poderia ter acontecido e não se verificou por culpa de Hillary Clinton e dos principais responsáveis do Partido Democrata. Mas se existe protagonista político saída do seu campo e com grande potencial de vir a ser a líder da Revolução que se seguirá é Elizabeth Warren cumprindo-se, assim, a expetativa de ver uma mulher a dirigir a nação a partir da Sala Oval.
Confirmar-se-á igualmente aquilo que o marxismo nos ensinou: assim se alterem os meios de produção, assim mudam os regimes. A revolução lincolniana respondeu à transição da sociedade agrária para a industrial, a do New Deal à da taylorização, a de Reagan à da financeirização. A próxima será a da economia digital e da robotização...

1 comentário:

  1. Lamento discordar, mas temos tendência a dar sentido 'a posteriori' a eventos que não o têm no momento em que ocorrem. Isto não quer dizer que não existam invariantes na História Humana, como o conflito de classes, mas saltar daí para a conclusão que as crises sucessivas do capitalismo levarão necessariamente ao seu fim e ao estabelecimento de uma sociedade mais humana é só mais um dos erros egrégios do Marxismo, que não se importou de sacrificar vidas individuais porque os seus líderes estavam certos que desses sacrifícios surgiria o 'Homem Novo'. O capitalismo é um sistema inerentemente instável mas tem sido sempre capaz de se reinventar ('tudo que é sólido desfaz-se no ar') e se eu me pusesse a deitar a adivinhar diria que a próxima fase é a do fim da democracia e da inauguração da 'cleptocracia mundial', onde veremos versões locais de Vladimir Putin a surgir por todo o lado (essas versões já existem há muito, de uma forma ou de outra, em países como Angola, Brasil, etc). Não tenho pois o mínimo otimismo relativamente ao futuro do planeta, a não que uma certa fação do capitalismo em aliança com alguns Estados (oxalá Portugal esteja incluído neles) seja capaz de assegurar uma transição razoavelmente rápida para um mundo pós-carbono, baseado nas renováveis e (talvez) na fusão nuclear.

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