terça-feira, 2 de abril de 2019

Sim! «Ça ira! Ça ira!»


Boa entrevista a de Mário Centeno ao «Público» em que conseguiu dar às notícias uma frase engraçada a respeito do investimento por ele considerado como não tendo nada a ver com algo parecido com a «A Anita vai às Compras» na companhia do seu amigo Pantufa.
A pilhéria saiu com um elevado potencial de eficácia por reduzir a «infantilidades» os argumentos dos que criticam a insuficiência do investimento público nestes quatro anos. Mas, que diriam esses mesmos insatisfeitos se o governo lançasse concursos por valores, que rapidamente depauperassem a estabilidade conseguida nas finanças públicas e pusessem em causa as recuperações nos rendimentos das famílias entretanto alcançados? Ao contrário de outros tempos em que os empreiteiros da construção civil e de infraestruturas tinham no Estado um cliente servil, que, para além do preço contratado, ainda pagava sem rebuços os dispendiosos itens omitidos nos cadernos de encargos, os candidatos aos concursos públicos sabem o rigor com que hoje são pressionados a não derraparem nos custos neles investidos. Podem ter-se deixado importantes obras por realizar, mas cortou-se cerce numa cultura facilitista, que explicava o antigo esplendor vivido no setor.
Centeno mostra-se indisponível para dar saltos maiores que a perna, porque a dívida do Estado continua acima dos 120% do PIB e a reputação do país depende de se a ir diminuindo num ritmo, que não comprometa o crescimento da economia. Terá sido um dos grandes ganhos desta legislatura: a conquista de um maior grau de liberdade na política orçamental para a que se seguirá, tendo em conta o facto do país ter deixado o radar das instituições internacionais e das agências de notação financeira.
Significa isso a rendição a uma estratégia acentuadamente social-democrata como o meu amigo Jaime Santos - frequente crítico do pendor marxista das minhas ideias - se apressará a salientar com acentuada satisfação? Em Centeno talvez, que o sabemos ideologicamente situado nessa crença ilusória de ser possível ir reformando o sistema capitalista sem jamais o colocar em causa! Para quem não se conforma com o prolongamento ad eternum do socialismo na gaveta - como é o meu caso! -, anseia-se por bem mais. Mas quer Marx, quer o próprio Lenine, defendiam o advento do socialismo como corolário de uma exploração até ao limite das potencialidades do capitalismo em mostrar-se mais eficaz na criação e distribuição da riqueza do que a alternativa, que se lhe seguirá. Os exemplos trágicos de quem procurou antecipar-se às circunstâncias favoráveis para concretizar essa transição de sistema político-económico só gerou tragédias, que se viraram contra a própria esquerda, como se constatou na União Soviética e em todos os países declarados como «comunistas». Para o futuro que virá, retoma-se o sentido da velha canção francesa dos anos 60, «Ça ira! Ça ira!».
Um dos grandes atributos dos que se enfeudam no pensamento marxista é a paciência com que sabem aguardar pelos amanhãs que cantem. Mesmo que, no entretanto, alinhem convicta e estrategicamente com todas as políticas de esquerda, que acelerem esse almejado desiderato!

1 comentário:

  1. Verifico duas coisas. Em primeiro lugar que não o incomoda nada que eu seja um chato e o contradite. Em segundo lugar, que reconhece o carácter social-democrata das ideias de Centeno.

    Mas eu lamento contradizê-lo mais uma vez, mas acho que as suas acções nem a isso chegam, são meramente social-liberais, mais por estratégia do que por convicção, julgo eu. De facto, com 120% de dívida, não estamos em grandes condições de fazer mais do que aquilo que Centeno faz.

    Eu também espero que o capitalismo seja ultrapassado, só que não vislumbro no campo socialista nada mais do que boas intenções de um lado e o velho cinismo leninista de quem quer sacrificar a liberdade no altar do colectivismo do outro (incluo o meu caro nos primeiros, claro).

    Enquanto os socialistas não forem capazes de apresentar um plano claro de transição para uma Economia mais humana (e não se vislumbra sequer o que ela possa ser, talvez uma Economia participativa e colaborativa, não sei), eu ficaria muito contente se se restaurasse ao menos a velha Social-Democracia...

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